Zéfiro e Favônio: Uma leitura mítica-simbólica do vento
Quando ele volta a se mover e há oportunidade de encontrar uma passagem.
Zéfiro (grego) e Favônio (sincretismo romano) revelam o sentido dos Bons Ventos na vida e na escrita, mostrando como circulação, abertura e movimento transformam o que estava parado. Há divindades antigas que não estão ou ficaram estagnadas, elas se mantêm presentes, inclusive no cotidiano. Elas permanecem como imagens de grande potência para quem cria, decide e precisa se mover (ou ser movido/a). Ou quem sabe, dar alento ao que perdeu fôlego. E quem não sonha em que os Bons Ventos tragam alegrias, felicidade, boas descobertas?
Zéfiro, na tradição grega, e Favônio, em sua correspondência romana, nomeiam um mesmo fenômeno: o vento favorável. Vinculam uma simbologia que nos traz conforto. Uma riqueza deles é que vão além do movimento físico do ar: em algumas tradições representam a mudança das estações, do clima, a fertilidade da terra, e a chegada de oportunidades favoráveis.
Para os antigos romanos, o sopro do vento era a voz dos deuses. A ideia de "bons ventos" estava selada ao destino através do conceito de Ob portus: a oportunidade sagrada de alcançar o porto. Sob a regência dos Venti, os ventos personificados, navegar com brisas favoráveis era mais que fortuna; era a manifestação de que o universo conspirava para guiar o viajante exatamente para onde ele deveria estar ou chegar. E mais ainda: na agricultura, ainda para os romanos, Favônio era o "marido da flora", aquele que fertilizava a terra.
Spoiler: Embora dialogue com a escrita, este texto não se restringe a escritores e escritoras. Ele também pode interessar a quem deseja refletir sobre os Bons Ventos e o que eles significam, de forma mais ampla, na vida.
Na mitologia
Zéfiro é o deus grego do vento oeste (H.N.)*, um dos Anemoi, os ventos direcionais sob o domínio de Éolo, soberano dos ventos. Filho de Eos (a aurora — luz como confiança no dia que desperta) e de Astreu (associado às estrelas — esperança e direção nas noites escuras); ele representa o sopro mais suave entre os ventos: aquele que anuncia a primavera, abertura das flores e favorece o movimento.
Favônio é sua correspondência romana. Em latim, a raiz do nome já indica sua natureza: favere, favorecer, inclinar-se positivamente. Um auspício de que algo começou a mudar.
*Hemisfério Norte: Eles trazem ar marítimo temperado para as costas ocidentais (como Europa e Noroeste dos EUA), suavizando o inverno.
Etimologia
O nome Zéfiro vem do grego Zephyros, associado ao sopro suave e à direção oeste. Zéfiro anunciava o fim das geadas, ou seja, um tempo promissor estava por chegar, a promessa do renascimento. Já Favônio carrega, no latim, a raiz favere: favorecer, inclinar-se positivamente, soprar em direção a, tem relação com a prosperidade, fertilidade e proteção agrícola.
Nomes distintos, mesma essência. Culturas diferentes reconhecem e nomeiam experiências semelhantes: o vento, o ar em movimento, e sua relação direta com a vida e a propagação dela. Que dias melhores virão (ou ao menos, diferentes).
Quem pode esquecer que o vento equilibra o sistema ecológico da terra, dispersa poluentes e é um dos que trabalha para a polinização? Uma potente influência invisível.
Simbologia
O vento, em diversas tradições, está diretamente ligado ao sopro vital. Em grego, pneuma significa vento, alento, aquilo que anima e põe em movimento. Não se trata apenas de ar, há outra importância embutida: a propagação da vida. Traz consigo o atributo da renovação. Zéfiro/Favônio representa também a transição do estéril para o fértil.
O que se move não é só o que está fora, mas também o que atravessa o interior: ideias, impulsos, decisões, aquilo que pede passagem.
Nesse sentido, esses ventos podem ser lidos como imagens daquilo que precisamos refrescar por fora e por dentro. Se há fatores, elementos ou circunstâncias que podem prosperar (mas ainda não havia condições), Favônio pode colocar em movimento.
Éolo: soberano dos ventos (só lembrando que esses atributos são do hemisfério norte, onde a mitologia greco-romana nasceu; portanto, aqui para o hemisfério sul, é o contrário).
Éolo não os cria: guarda, reconhece, nomeia e libera. Sob seu domínio estão os Anemoi, cada um com uma direção e um atributo próprio de movimento.
Bóreas, o vento norte, traz o frio. Podemos pensar que o frio nos obriga ao recolhimento; e no recolhimento, podemos repensar ideias, valores, crenças — algo bastante importante para o processo criativo e, por que não, à sobrevivência. Convida à pausa, ao distanciamento, ao que precisa estabilizar/esfriar antes de seguir. Quem nunca ouviu: "Precisamos deixar esfriar, nada de decisões no calor do momento"?
Noto, o vento sul, chega úmido, morno, carregado. Pode pesar, desacelerar, tornar tudo mais denso. Mas também amolece o que estava endurecido, prepara o que pode começar a receber.
Euro, o vento leste, é úmido, quente, constante. Pode tanto ressecar quanto acender. Há momentos em que impulsiona calor criativo. Em outros, exige atenção ao excesso.
Zéfiro, o vento oeste; Favônio: o sopro favorável; a brisa que renova, o movimento que chega quando algo, há tempo, precisava circular.
A invisibilidade do vento
O vento não se vê, mas percebemos seus efeitos: a folha que se move, o fogo que se altera, a vela que se apaga, a semente que se espalha, a embarcação que avança.
Indo para o outro lado do oceano, lembrei de uma vez eu ouvi um xamã norte-americano dizer: "Os ventos penteiam os cabelos da Mãe Terra e tudo o que há Nela", — ele fazia analogia com as árvores, plantas e com os pensamentos (cabeça humana (por ter citado os cabelos)).
Há momentos em que tudo circula, avança, encontra passagem; nossos "cabelos" são re-penteados.
Há circunstâncias em que algo emperra, mesmo sem explicação evidente. Às vezes, é apenas excesso: de informação, de repetição, de adjetivos, de insistência. Falta ar. Falta uma brisa. Ou falta uma ventania.
Pense: se há um bloqueio, o vento não passa (algo óbvio, parece brincadeira de criança, mas aqui não é). Retomando... se algo está estagnado em nossa vida e precisamos "novos ares", talvez seja o caso de abandonarmos algumas resistências; liberar espaço; abrir portas, janelas, a mente...
Refrescar por dentro
Respiramos o tempo todo sem perceber. O ar entra, o ar sai, e raramente nos detemos no que esse movimento contínuo representa além do biológico. Esses ventos convidam a deslocar o olhar.
Há momentos em que algo se torna represado e pede circulação, outros em que há vida, pulsação, mas falta deslocamento: ideias que tentam se mover e não encontram passagem; processos criativos que se tornam densos, não por falta de empenho, mas por falta de arejamento; situações em que uma pequena abertura já seria suficiente para permitir contato, troca, continuidade.
Nesse sentido, esses ventos não dizem apenas de um sopro que chega de fora, mas da capacidade de perceber quando algo interno precisa de movimento.
Que vento eu tenho a oferecer?
Quase sempre perguntamos o que os Bons Ventos podem nos trazer. Nem sempre dobramos, desdobramos ou invertemos a pergunta.
Que sopro eu tenho a oferecer? Que circulação eu posso gerar, em mim, ao meu redor, no que ainda está parado?
Sendo ainda mais direta:
Que bons ventos eu carrego em mim, que ainda não deixei sair, que ainda não ofereci ou não consigo desfrutar? Que palavras eu solto ao ar e que o vento irá levar? Que brisa favorável é possível acrescentar na narrativa? E na minha história pessoal, qual vento favorável eu deixei escapar? Ou que vento favorável que dispus a algo ou para alguém?
Há culpa nisso? Jamais! Claro que não, porque os ventos e os ciclos naturais da vida são incontroláveis, nem sempre dependem de nós; é bacana ter essa consciência de que nem tudo depende de nós, e que, assim como os ventos são invisíveis, nem tudo conseguimos enxergar. Ou quem sabe, seja uma questão de absorvermos o fundamento da interdependência.
Na prática: o apoio simbólico à escrita
Nem todo escritor trabalha de forma explícita com mitologia, ela é uma sugestão criativa. Ainda assim, certas imagens arquetípicas e simbólicas oferecem uma via de percepção mais fina do próprio fazer literário, sobretudo quando o texto entra em zonas que a técnica, sozinha, não basta para esclarecer.
Na construção de personagens
Uma ideia: os ventos podem servir menos como tema e mais como conformidade e destino dos personagens. Há personagens que arejam uma cena apenas por entrar nela; outros deslocam o eixo de quem os cerca. Alguns chegam como brisa, mas alteram o ambiente; outros acumulam como ar pesado, interrompem a circulação, tornam tudo mais denso. Pensar assim não substitui a elaboração psicológica deles, mas pode aprofundar a atmosfera interna de cada figura.
Favônio, Zéfiro e os Anemoi podem inspirar personagens que: carregam um sopro interno que ainda não foi exalado — não descobriu o que lhe faz sentir vivo; são agentes de circulação na vida de outros personagens — mudam rotinas, rumos, abrem janelas e portas.
Na estrutura de um livro
Essa composição (sobre ventos) também oferece uma leitura ou releitura da vida ou do original. Certos capítulos pedem contenção; outros reclamam abertura. Há trechos que precisam rarefazer a linguagem para que o leitor volte a respirar, e há passagens em que o adensamento é necessário, desde que não sufoque. O problema não está na densidade em si, mas na falta de modulação.
Essas imagens podem orientar: capítulos que marcam mudanças de ritmo e de direção narrativa; momentos em que a história precisa respirar antes de avançar; a alternância entre cenas densas e cenas que arejam; passagens em que há "ares" que transformam os eventos, personagens, circunstâncias, destinos.
No processo criativo
O escritor pode usar essas figuras como lentes simbólicas para se perguntar:
- Meu texto está árido? Que leitura nova pode trazer novos ares?
- Estou escrevendo sempre no mesmo tom, no mesmo ritmo, na mesma estrutura? Que brisa posso deixar entrar?
- Há personagens ou cenas que não respiram; não por falta de técnica, mas por excesso de controle?
- Estou segurando um texto na gaveta porque ainda não me sinto pronto? Que vento favorável eu precisaria sentir para deixá-lo circular?
- Há algo na minha narrativa que está convulsionando, e que precisaria de Bóreas, ou seja, de um frio que esfria e reorganiza?
- Estou pedindo inspiração ao vento ou estou esperando que ela venha sozinha, sem abrir nenhuma fresta?
- Pense que conversar com alguém (algo muito importante no processo criativo) pode ser uma rica experiência de intercambiar "sopros".
- O que o vento cobriu? E o que ele fez aparecer?(*)
(*) Amantes de arqueologia e arqueólogos entenderão sem precisar de explicações; sendo mais precisa: o vento leva o que sua força permite, e uma boa parte do que ele faz enquanto circula pela terra é carregar poeira e areia. Pois bem, vivi por muitos anos no Peru, na costa norte; fui casada com um arqueólogo, e não foi uma, nem duas, foram dezenas e dezenas de vezes que ouvi dele e dos amigos e amigas de profissão dizerem:
— Está vendo aquele monte ali?
— Sim, claro.
— Não é uma pequena montanha. É uma pirâmide que o vento fez a gentileza de cobrir com terra e areia. Se escavarmos, haverá uma huaca.
E o contrário também acontecia: por vezes, andando pelo deserto (ia com frequência a uma determinada região), um dia havia apenas areia, e no outro aparecia um fardo cerimonial, ossos, colares (entre outros). Coisas do vento, que fazia voltar aos olhos o que estivera escondido por centenas de anos.
Exercícios dos Ventos Favoráveis
- Pegue um trecho que não avança. Observe o que segura o movimento. Corte até algo começar a circular.
- Escolha uma cena imóvel. Não mude o conteúdo; altere apenas onde ela começa e onde termina, pense como está tudo ao redor. Veja o que se desloca.
- Pegue um parágrafo que diz demais. Retire metade. Leia o que permanece.
- Leia um texto seu e localize onde há controle excessivo. Tente reescrever com leveza.
- Imagine que em algum trecho do seu livro acontece um vendaval. O que acontece? As pessoas se unem mais ou se separam? Admitem verdades? Ou se autoprotegem ainda mais?
- Leia em voz baixa; não para corrigir, apenas para perceber onde falta ar, onde não flui.
- Releia este texto com o propósito de pensar, repensar, refletir, filosofar sobre ele até que você encaixe uma nova ideia — que pode ser incrivelmente distante de tudo o que está sendo tratado aqui: por exemplo, você pode pensar nos rios, chuva, terra, fogo, etc.
O vento espalha o que está pronto para se mover. Como seres humanos, geramos sopros e miniventos o tempo todo: nas palavras que falamos, nas ideias que compartilhamos, nas histórias que contamos. A questão não é apenas que vento está soprando sobre mim, mas que vento (quais ares) eu estou gerando ao meu redor.
Sobre mim
Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português), e presto Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes; AstroEscrita, Astrologia para Escritores.
Trabalhei como freelancer para as seguintes editoras: Melhoramentos, Abril, Larousse, Planeta do Brasil, Prumo, Ediouro, Letraviva, Évora, Girassol, Ave-Maria entre outras; e com Projetos Especiais Editoriais no Peru.
Eu Ajudo Você a Escrever o Seu Livro
Entre em contato:
WhatsApp: 11 97694-4114
E-mail: clenesalles@gmail.com
Facebook: @clenesalles @editorialclenesalles
Instagram: @editorial.clene.salles
LinkedIn: @clenesalles
Indicações De Profissionais Que Valem Ouro
Sidney Guerra, Diagramação, capas, eBooks e distribuição
Site: sguerra.com.br
WhatsApp +55 11 99215-9571
Youtube: Canal Escreva Seu Livro
Laura Bacellar, Tarô para Escritores e Consultoria sobre o Mercado Editorial
Laurabacellar@escrevaseulivro.com.br
WhatsApp +55 11 99801-3090
YouTube: Canal Escreva Seu Livro
Júlio de Andrade Filho, jornalista, escritor, tradutor e roteirista de HQ
WhatsApp +55 11 99403-2617
Marisa Moura, Agente Literária - Obras Sob Tutela
WhatsApp +55 11 31293900


Nenhum comentário:
Postar um comentário