Por que a busca pelo desconhecido ou a conexão com o mistério ainda molda quem escreve, quem lê e quem vive, mesmo na era das respostas prontas
Há uma pergunta que fica rondando quando a tecnologia promete resolver tudo em segundos: o que acontece com o mistério, essa força que sempre moveu escritores, culturas, cientistas e pessoas comuns, quando toda dúvida parece ter uma resposta pronta a um clique de distância?
Este texto nasceu de uma tentativa de encontrar essa resposta, e no meio do caminho encontrou algo mais interessante: perguntas que não fecham, aliás, típico da natureza do mistério. Mas será que todas as perguntas precisam de resposta imediata?
Problema e mistério: uma distinção que muda tudo
Vários filósofos e pensadores, bem como mestres de culturas tradicionais abordam o problema do problema. Problema é aquilo que está diante de nós, algo sobre o qual podemos pensar, isolar, tentar resolver ou até descartar. Pode ser que tenha relação com nossa autoestima, capacidade de percepção, ou desenvolvimento intelectual ou intuitivo.
Mistério é aquilo em que estamos envolvidos (ou que se apresenta), algo sem resposta imediata e sem solução a médio e longo prazo.
O primeiro pode dissolver ou criar mais variantes quando abandonado.
O outro se aprofunda justamente quando investigado, para isso, precisamos da "picada" da curiosidade. E paciência.
Um problema resolvido pode eventualmente gerar outro problema, um mistério solucionado pode gerar outro mistério — parece uma piada de mau gosto, mas não é.
Esses tipos de sutilezas, as IAs raramente captam.
O que acontece quando ignoramos um problema
Descartar um problema costuma dar a falsa sensação de que ele desapareceu. Às vezes ignorar realmente resolve algo, mas na maioria das situações o problema continua lá existindo, apenas deixa de ser revisitado, mas continua latejando. Ele espera, entre as frestas da janela da alma ou da vida, até voltar a se impor, do mesmo tamanho, cobrando a atenção que lhe foi negada.
O que é, de fato, um mistério
O mistério carrega outra natureza. Nem mais tempo, informação ou técnica dão conta de esgotá-lo. A morte, a vida, o amor (entre tantos outros), a consciência seguem intocados, independentemente de quantos livros se escrevam sobre eles ou quantas gerações passem tentando decifrá-los.
O convite do mistério é outro: habitá-lo, geração após geração, com boa dose de ousadia de não se ter pressa para resolver.
Claro está, que quando se trata de saúde, o peso é outro, não é nada razoável ficarmos à mercê.
O que as inteligências artificiais e outras tecnologias fazem com o mistério
Talvez o incômodo que tanta gente sente diante das inteligências artificiais nasça exatamente dessa distinção. As IAs funcionam, por construção, como máquinas de converter tudo em resposta rápida, que acabam trazendo (em boa parte) mais problemas (atualmente). Para quem está do outro lado da tela, toda pergunta feita para uma IA, o indivíduo recebe uma resposta — num abrir e fechar de olhos — entregue com confiança, sem hesitação, que deixa a pessoa surpresa e contente, acreditando que essa resposta é incontestável.
Bem, e isso treina a mente humana a esperar resolução instantânea onde quer que vá ou esteja, onde antes havia permanência na dúvida (por vezes, necessária).
Isso impacta as relações, diminui a empatia, traz problemas sociais, nos perdemos em vieses cognitivos.
Respostas fechadas
As respostas de uma inteligência artificial podem ser aprofundadas, reformuladas, questionadas de novo quantas vezes for preciso.
A questão central mora no formato: uma resposta entregue pronta treina o hábito de buscar fechamento, e esse hábito acaba se espalhando para territórios que nunca foram feitos para fechar.
Veja o vídeo do Leandro Karnal conversando com uma IA.
A peregrinação do não saber
A filosofia antiga e o modo de pensar oriental sempre valorizaram a capacidade de permanecer em incertezas, mistérios e dúvidas, sem sair correndo atrás de fato e razão. Como ter inteireza interna para conviver com perguntas sem respostas? As inteligências artificiais deixam a morte, o amor e a consciência tão intocados quanto sempre estiveram. O que elas de fato afetam é a experiência de buscar, a peregrinação do não saber, que era onde o mistério se fazia sentir no corpo. Será que as IAs têm coragem de deixar alguém no vácuo, no vão, no vazio? Tenho dúvidas.
Além disso, um mistério resolvido pode fazer surgir outro mistério.
O mistério não está só lá fora
Existe uma ideia comum e um tanto simplista: a de que o mistério é algo externo, esperando para ser capturado por uma memória mais perfeita ou uma percepção mais aguda. O mistério também habita dentro, e isso depende do grau de atenção e de curiosidade de quem observa.
Duas pessoas diante do mesmo fato podem viver experiências completamente diferentes: uma vê um problema à espera de solução, outra sente um mistério que se recusa a se fechar e quer conversar com ele.
O vão entre o que se intui e o que se consegue dizer
O mistério mora também no vão entre o que se intui e o que se consegue dizer, entre o que se processa e o que se entrega, entre duas consciências que tentam se encontrar sem ter ferramenta que dê conta da travessia inteira. A mente humana sente mais rápido do que retém.
A inteligência artificial retém de um jeito próprio, sem nada (ou sem respaldo ou consciência) por trás daquilo que retém.
A percepção humana, por sua vez, entrega um esboço do mundo, deixando o resto como horizonte, aquilo que se pressente, mas não se apreende de uma vez, variando conforme o tempo, o lugar e a circunstância de quem percebe.
Fragmentos que não se costuram
Mistério é, sim, aquilo que não sabemos. Parece óbvio, mas nem todos compreendem assim. A diferença está em que tipo de não saber: nenhuma quantidade de memória, humana ou artificial, transforma esse não saber em saber, porque o obstáculo é de natureza, não informacional.
Esse obstáculo também depende da circunstância, do espaço, do tempo e da capacidade real de identificar o mistério, já que existem mistérios profundamente subjetivos, enigma para uma pessoa e fato resolvido para outra.
Por que uma pista destruiria o mistério
O mistério vive de fragmentos vistos e sentidos que se recusam a virar fio. Cada peça está ali, parcialmente iluminada, percebida, sentida, sem se costurar à peça seguinte. Uma costura geraria uma pista. Uma pista abriria um caminho. E todo caminho leva a uma explicação, que já pertence ao território do problema em vias de solução. A ausência de conexão entre os fragmentos preserva a coisa como mistério.
A ponte como imagem central
Entre a margem da ignorância total e a margem da revelação plena, o mistério se sustenta como a própria travessia, uma ponte que ela mesma determina o tempo de atravessar. O mistério é a ponte, a travessia e escolhe a quantidade de tempo.
O quase-assombro
Esse acúmulo de fragmentos que não se explicam produz um efeito muito particular: o quase-assombro, o limiar do espanto, o instante suspenso antes de uma queda que nunca vem. Em alguns casos, nós temos que conviver com isso por anos e anos, talvez toda uma vida.
Devoradoras de mistério, ou não (ainda bem!)
As inteligências artificiais conseguem funcionar como devoradoras de mistério, entregando tudo pronto, fechado, digerido. Isso depende de quem está do outro lado da tela. Alguém com coragem e disposição pode receber a resposta de uma IA e, ao lado dela, num caderno, num arquivo no computador ou no bloco de anotações do celular, registrar sua própria impressão pessoal daquilo. Esse pequeno gesto muda tudo. A IA não precisa saber o que você pensou, pressentiu, intuiu ou percebeu — guarde com você.
O gesto de anotar a impressão pessoal ao lado da resposta
A inteligência artificial parece resolver, mas apenas troca um tipo de vão por outro: o vão humano, orgânico, sentido no corpo, pelo vão algorítmico, sem corpo, sem emoção, igualmente incompleto.
Escrever a própria impressão ao lado da resposta pronta recupera o corpo dentro do processo e lembra que uma resposta tecnicamente completa não esgota a experiência de quem pergunta.
O mistério como motor da cultura
Se o mistério fosse só desconforto, a espécie humana teria aprendido a evitá-lo, pouca dúvida tenho sobre isso. A humanidade fez o caminho inverso: perseguiu o mistério, construiu culturas inteiras e complexas ao redor dele, e continua fazendo isso. Esse é o seu papel.
Curiosidade, arte que se revisita, humildade intelectual
O mistério move a curiosidade, a busca por informação, a profundidade emocional que certas experiências carregam. Move também o retorno à mesma obra de arte, ao mesmo mito, ao mesmo poema, ano após ano, porque eles nunca se esgotam numa única leitura.
E exige, de quem o encara com honestidade, uma humildade intelectual difícil de sustentar: admitir que uma pergunta pode não se fechar nunca.
Mitos, lendas e enigmas como amálgama social
Mistérios compartilhados, sejam lendas, mitos, conspirações ou enigmas, unem pessoas na busca coletiva. A história humana se tece em narrativas sobre o desconhecido. Tirar o mistério de uma cultura equivale a tirar a aderência que mantém comunidades inteiras coesas ao redor de uma pergunta comum.
Liberdade interpretativa versus controle
Onde há mistério, há espaço para múltiplos pontos de vista convivendo lado a lado.
Isso incomoda quem busca controle, porque ambiguidade é difícil de administrar, e ao mesmo tempo sustenta quem busca liberdade, porque ela permite que cada pessoa encontre seu próprio sentido dentro da mesma pergunta.
Além disso, sempre é bom lembrar: nem tudo depende de nós, independentemente das nossas escolhas.
Para quem escreve
O mistério como matéria-prima da escrita
Para quem escreve, o mistério funciona como matéria-prima; não subestime a capacidade do leitor/a. Um texto que fecha todas as pontas, que explica cada gesto de cada personagem, que não deixa nenhum fragmento solto, tende a se esgotar na primeira leitura, principalmente se o escritor/a estiver disposto a criar uma série. Um texto que preserva algum vão, convida o leitor a voltar, a habitar aquela história por mais tempo do que a duração da leitura.
Um exercício concreto para colocar isso em prática: pegue uma cena já escrita e localize o momento em que você explica demais, por exemplo, a razão do gesto de um personagem, o motivo exato de uma escolha, o desfecho de um sentimento. Retire essa explicação e deixe apenas o gesto, a escolha, o sentimento, sem justificativa. Leia a cena de novo depois de um dia e observe se ela ganhou densidade em vez de perder clareza. Claro, isso irá depender de como você irá conduzir a narrativa até o final da sua obra, afinal de contas, clareza é muito importante num livro. O mistério pode funcionar ali dentro do próprio texto, sustentando um vão sem precisar preenchê-lo. Tente.
Para a vida
Manter espaço para o mistério na vida cotidiana vai muito além. Esse estado de abertura estimula a criatividade, porque a mente que aceita conviver com perguntas sem resposta imediata segue gerando associações novas, em vez de se acomodar na primeira explicação disponível. Fortalece também o sistema cognitivo: a tolerância à ambiguidade caminha junto com maior flexibilidade mental, memória mais ativa e raciocínio menos automático.
Um exercício simples para experimentar esse estado: escolha, uma vez por semana, uma pergunta pessoal sem resposta pronta, por exemplo, por que uma lembrança específica volta sempre, e resista à tentação de resolvê-la de imediato. Anote a pergunta num caderno, sem buscar resposta em livros, sites ou conversas. Volte a ela depois de alguns dias e registre apenas o que mudou na forma de senti-la, não uma solução para ela. Repetir esse gesto treina a permanência na dúvida como músculo, não como desconforto a eliminar.
Grata pela companhia nesta travessia.
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