O que está entre as linhas da vida, e o que isso pode fazer pelo seu texto
Há coisas que o texto pode dizer sem etiquetar. Este artigo é sobre afinar o olhar — porque o que você vê, e como vê, é o que difere um texto do outro.
"Nas refeições engolia antes de mastigar. Tão logo o prato ficava vazio, abaixava os olhos; depois se esforçava para manter na memória o aroma daquela comida. Aprendeu a registrar e catalogar outros cheiros: das pessoas, da natureza, do ar, do asfalto diurno e noturno, e também o cheiro do nada que tenta se esconder.
Os amigos eram os que a escolhiam; ela aceitava sem critérios, e chamava isso de sorte.
Olhava seus pés secos e sujos, e pensava: Que importa? Eles sentem quando o chão irá tremer.
Escrevia o nome no vidro embaçado do restaurante, da doceria, da livraria, antes que a enxotassem. Fazia com que seus pulmões expelissem ar quente e úmido, e por apenas alguns segundos, seu nome ficaria ali.
Quando alguém se aproximava o coração acelerava, e ela já ensaiava o que diria, o que responderia, como sobreviveria à conversa. A saliva espessava. Uma frase errada poderia levar ao resultado de sempre. Sorria, mas os músculos ao redor dos olhos ficavam tensos, um sorriso incompleto, a felicidade poderia ser apenas um sonho ou o mais provável: um perigo.
Crianças num parque de diversão lhe causavam um tremor nas mãos e pernas, e também um frio, uma suspensão no estômago e piorava ao tentar admirar o algodão doce sendo embalado ou a expressão convidativa da vendedora de lanches.
Ao receber algo não pegava exatamente para si, apenas cuidava devagar, escondia, deixava estragar sem usar, era interessante lembrar que estava lá, intacto.
Quando amava alguém esperava, quieta, que tirassem, afinal, um raso colapso qualquer levaria embora; a mesma coisa com outros objetos ou promessas.
Estudar custava o que não havia, então aprendeu nos intervalos, nas sobras, nos subempregos, através dos livros descartados; fossem os descartes por abandono ou por preconceito.
O salário, minguado, doía; era ferida exposta ter que bancar seu quarto, gastar era uma forma de acabar, aquele dinheiro era testemunha dos vãos, do vazio maçante sem fim. Mas a fome não conhece economia.
Com dificuldade, compreendeu que o amanhã era possível, desconhecia se havia nele alguma coisa que se pudesse chamar de vida, talvez o mais coerente fosse apenas sobrevivência.
Em reuniões, quando alguém perguntava sobre a família, sobre as origens, ela apertava os olhos e contraía a mandíbula, mordiscava os lábios para que a resposta não saísse através de lágrimas quentes. Demorava alguns segundos.
Sentada numa mesa de mogno, muitos anos depois, segura a caneta tinteiro enquanto vê refletida a sua imagem no tampo de vidro azulado. Hesita antes de assinar. Pensa nas mãos que cortaram a madeira, nas que poliram o vidro, nas que fundiram o metal da caneta, nas que colheram a cana, secaram a tinta — quantas mãos trabalharam antes que as suas chegassem ali. Olha para o relógio: ele marca 23h45, por hoje, ainda não chega. Seus pés não estão mais sujos como antes, agora estão gelados, tornozelos inchados; mas continuam desconhecendo a próxima direção."
©Clene Salles
Em nenhum momento desse trecho apareceu a palavra órfã ou outras "etiquetas" possíveis.
É o que está nas entrelinhas: não o que falta, mas o que sobrou de uma experiência que não cabe em declaração direta. O que antecede cada gesto, escolha, detalhe, silêncio. O que opera por baixo da superfície, antes da frase, no meio dela, e ainda depois que ela acabou, e tudo isso respeitando a verossimilhança.
O escritor que aprende a enxergar isso não precisa "etiquetar" seus personagens. Não precisa nomear o que ficou, explicar o comportamento, sublinhar o sentimento. Ele coloca na cena o que o corpo já sabe — e o leitor reconhece antes de entender. Sente antes de processar.
Mas para colocar na cena, é preciso primeiro ter visto.
Ver nas entrelinhas... Não se aprende em cinco passos, não se treina com exercícios de observação forçada. É, antes de tudo, uma disposição. Sentir. Intuir. Não julgar. Absorver. Um olhar relaxado — não tenso, não analítico, não em busca de provas. O corpo e a mente abertos ao que está acontecendo por baixo do que está acontecendo.
Quem tenta capturar entrelinhas com esforço geralmente captura só a superfície com mais detalhes. O esforço fecha. A disponibilidade abre.
O que alimenta esse olhar é simples e difícil ao mesmo tempo: estar presente sem agenda. Deixar que o que é pequeno chegue sem ser descartado. A taquicardia de quem conversa com alguém diferente. Os ombros que encolhem um pouco mais do que o necessário. O sorriso que não chega aos olhos; não porque a pessoa é falsa, mas porque algo nela está guardado com muito cuidado. O nó na garganta quando alguém pergunta, já adulto: e seus pais?
Nada disso precisa de legenda. Precisa de um escritor que não passou rápido demais do que a vida e a imaginação mostram.
Para desenvolver esse olhar — e levá-lo para o texto — o que segue não são exercícios de escrita. São cenas para estimular a percepção e a escrita criativa. O que se pede não é descrever o que se vê, mas perceber o que não foi dito, o que ficou suspenso, o que o espaço e os corpos carregam sem anunciar.
Exercício 1:
Um hospital, horas depois de um acidente com muitas vítimas.
O barulho já baixou um pouco. As macas mais urgentes passaram. O que ficou é outro tipo de caos — o das pessoas que esperam sem saber o que esperam.
O que observar: quem está organizado demais, fazendo ligações, resolvendo coisas — e por que esse controle é a única forma de não desabar. Nesse ambiente (e tantos outros, compreendemos, por fim, sobre interdependência).
Quem pergunta pela terceira vez a mesma coisa para a mesma enfermeira. A criança sentada quieta num canto que não chora e não pergunta nada. O médico que desvia o olhar um segundo antes de falar. A mãe que já sabe a resposta pelo rosto de quem se aproxima, e mesmo assim pergunta.
Outros campos possíveis: uma delegacia de madrugada. Um aeroporto com voo cancelado sem previsão. A inspeção de uma casa abandonada.
Exercício 2:
Um asilo, na manhã seguinte ao dia de visita aberta.
As famílias foram embora. O que ficou é o depois — e o depois tem uma qualidade diferente de qualquer outra hora do dia.
O que observar: a cadeira que ficou no lugar errado e ninguém moveu ainda. O velho que não saiu do quarto durante a visita toda. A que ficou na janela depois que o filho foi embora e ficou assim até o jantar — não triste, exatamente, mas acomodada a uma distância que já tem forma. A funcionária que distingue, sem precisar pensar, quem vai ter visita semana que vem e quem não vai.
Outros campos possíveis: uma escola depois que os pais foram embora na primeira semana de aula. Um porto depois que o navio partiu.
Exercício 3:
Um homem no campo, numa quarta-feira de verão. A terra está agrietada.
Não é segunda, que ainda tem o impulso do começo. Não é sexta, que já pressente o descanso. É quarta-feira — o meio que não promete nada, que só exige duramente que se continue.
O sol está alto. A terra rachada não é metáfora: é o chão mesmo, partido de sede, que ele pisa todo dia. O corpo dele já sabe os movimentos sem precisar pensar. As mãos sabem. Os pés sabem. A cabeça pode estar em outro lugar — e provavelmente está.
O que observar: onde vai o olhar de um homem quando o corpo trabalha sozinho. O que significa parar um segundo, olhar para o horizonte, e voltar. O silêncio que não é paz, é resistência. A diferença entre um homem que ainda acredita na chuva e um que parou de esperar por ela.
Outros campos possíveis: uma costureira em linha de produção numa tarde de quinta-feira. Um pescador voltando sem peixe.
***
As entrelinhas estão em todo lugar. Em qualquer cena, em qualquer pessoa, em qualquer hora do dia. O que muda é se o escritor estava disponível para vê-las — antes de sentar para escrever.
O texto que só você pode escrever não nasce somente através de técnicas. Nasce também do que você foi capaz de ver quando não estava tentando ver nada.
Quem sabe você pode gostar destas outras publicações por aqui :)
O que Nos Paralisa — e o que Pode Nos Mover (Na Escrita e Na Vida)
A Inspiração Para a Escrita Não Mora Aqui — Mas Pode Entrar
😊 Como sempre eu falo: tome ou deixe, fique com aquilo que faz sentido para você; apenas compartilho aqui no Blog o que percebo que faz um texto ganhar mais vida. 😉
📚🖉📖
Sobre mim
Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português), e também presto serviço de Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes
Trabalhei como freelancer, em mais de 150 publicações, para as seguintes editoras: Melhoramentos, Abril, Larousse, Planeta do Brasil, Prumo, Ediouro, Letraviva, Évora, Girassol, Ave-Maria entre outras; e com Projetos Editoriais Customizados no Brasil e no Peru.
Eu Ajudo Você A Escrever O Seu Livro
Entre em contato:
WhatsApp: 11 97694-4114
E-mail: clenesalles@gmail.com
Instagram: @Editorial.Clene.Salles
Indicações De Profissionais Que Valem Ouro
Sidney Guerra, Diagramação, capas, eBooks e distribuição
Site: sguerra.com.br
WhatsApp +55 11 99215-9571
Youtube: Canal Escreva Seu Livro
Laura Bacellar, Tarô para Escritores e Consultoria sobre o Mercado Editorial
Escreva Seu Livro
Laurabacellar@escrevaseulivro.com.br
WhatsApp +55 11 99801-3090
YouTube: Canal Escreva Seu Livro
Júlio de Andrade Filho, jandradefilho@gmail.com
WhatsApp +55 11 99403-2617
Blog O Treco Certo
Marisa Moura, Agente Literária, Obras Sob Tutela
WhatsApp +55 11 31293900
Marisa.moura@zigurate.net.br







