Por que nenhuma vida, e nenhum livro, prospera sozinho
Ninguém sobrevive sozinho, embora muita gente insista em agir como se vivesse. Um livro também não nasce sozinho: é entranhado de leituras, conversas e mãos que passam pelo texto antes de chegar a quem lê. Este texto observa a mesma aproximação operando em dois campos, a vida e a escrita.
Onde a hiperindependência emperra
Algumas pessoas estão vestidas com uma ilusão: a de que a própria vida se sustenta sozinha e que ser hiperindependente é o caminho certo. Será? Percebo que nenhuma trajetória se estrutura, constrói e se solidifica fora de uma rede de outras vidas, de outras histórias que a atravessam e a moldam. Inclusive a própria experiência de viver, ganha fluxo e aprimoramento com outras pessoas.
É comum encontrar quem se orgulhe de precisar de ninguém. Essa postura costuma vir acompanhada de um esquecimento simples: no básico, todos nós dependemos de outra pessoa, em algum momento, para alguma coisa, seja com comida, moradia, transporte, cuidado, informação, saúde, laser... A lista é grande. A independência, quando levada ao extremo, não fortalece. Emperra.
Elementos sutis, mas que podem delinear sombras
Um vídeo recente sobre confiança e autoconfiança propõe que a confiança nasce de sermos úteis, reconhecidos e valorizados.
Faz sentido, em parte. Mas há um contraponto que o vídeo que eu fiquei encafifada: ser útil, ser reconhecido e ser valorizado também depende dos outros. Não está inteiramente sob controle de quem deseja ser essas três coisas. E se devemos partir disso para angariamos confiança, precisamos urgente pensar em como elaborar, engendrar, fazer rodar isso de forma diferente.
É incomum que as pessoas percebam o que mencionei acima, e eu entendo, porque nem sempre aparece de forma explícita, em geral opera nas entrelinhas ou em uma expectativa ou outra, meio que fica fica subentendido.
Como ser valorizado? Como ser reconhecido? Como ser útil?
E mais... Como manter a confiança sem se acotovelar com a hiperindependência e a consciência serena sobre interdependência construtiva?
Seja na vida pessoal, seja no trabalho editorial, existe uma sombra que pesa sobre a confiança e a autoconfiança de alguém, sem que a pessoa sempre perceba de onde vem o peso e de onde vem aquele vazio... "Ei, por que não consigo?" Simples. Porque não é nada fácil. É um labirinto. E porque não dá.
Claro, somos inteligentes (apenas, em alguns instantes, não nos é claro), mas sabemos que a interconexão saudável entre as pessoas é que mobiliza o reconhecimento, valorização, entre outros.
O não-resultado que o imediatismo deixa
A interdependência saudável é ganha-ganha e nela existe a possibilidade de crescermos juntos. Confere humanidade, estimula nossa criatividade, permite ir mais além do que a solidão.
Mas não pense que ela é mágica, que reverbere de forma instantânea, e muito menos que entregue resposta imediata. O imediatismo, aliás, nos tempos de hoje, tenta afiançar isso, mas não cumpre: promete resultado rápido e nem sempre entrega o esperado. A interdependência funciona diferente. Ela se consolida aos poucos, com tempo e repetição, não com um único gesto. E acrescento: é melhor marinar esse tema com leveza, honestidade, desprendimento.
Se você está acreditando que irá começar amanhã a cultivar a interdependência e terá resultado no dia seguinte, recomendo não contar com isso.
Agora, juntando "x" com "y"...
Se já é difícil, quase impossível, desenvolver-se sozinho, o que dirá um livro prosperar por si mesmo?
Dez, vinte, trinta livros para escrever um
Escritores também esquecem que o livro passa por pessoas e é feito para pessoas. Sabe? Bons livros nascem de pesquisa em outros livros e da experiência de leitura acumulada; para desfrutar da escrita, é preciso ler e pesquisar como escritor.
A prática mostra que escrever é ato solitário. Mas mesmo o que parece mais isolado, o momento em que alguém está sozinho diante da tela, dependeu anteriormente de socialização e busca de informações, aliás, seja o programa ou o seu caderno de apontamentos, acredite-me: há muita gente envolvida para que esses itens estejam nas suas mãos.
Um exemplo concreto. Na época dos projetos editoriais customizados, quando surgia um tema novo para desenvolver, autocuidado, por exemplo, o processo nunca começava e terminava numa única cabeça. Além de conversar com pessoas e profissionais da área, era comum ir até a livraria e voltar com cerca de dez livros sobre o assunto.
Essa relação entre conexão social e capacidade de lidar com desafios, não é apenas fruto da minha intuição ou do desejo de escrever o ensaio aqui.
Uma pesquisa sobre conexão social e bem-estar aponta que, quando os vínculos falham ou são muito limitados, isso pode comprometer a autorregulação, a segurança interna e até a capacidade de resolver problemas de forma criativa.
O livro, como a vida, precisa dessa rede para seguir em frente.
Por quantas vidas um livro deve passar
Alguns escritores/as acreditam que são capazes de transitar e operar todo o processo editorial sozinhos e que tudo se resolverá por si (digo isso, principalmente, em relação as vendas).
Isso faz com que a pessoa não enxergue o ideal do processo: leitor beta, leitura crítica, copydesk, edição, revisão, diagramação, capa, documentação, entre outras etapas que dão forma ao que antes era só rascunho.
Cada uma dessas etapas é feita por uma pessoa diferente, com um olhar complementar. O motivo? Nenhum texto se autoenxerga. É preciso outro olhar para revelar o que passou despercebido.
A palavra que ofereço, o livro que entrego
Minha profissão é prova viva dessa engrenagem.
No dia a dia, constato o quanto é importante oferecer (e também aceitar, claro!) algum tipo de apoio e o encadeamento dentro desse tipo de colaboração; isso faz com que a vida ganhe uma cor diferente, e os livros mais riqueza.
A experiência acumulada ao longo dos anos me mostrou (escancaradamente!) isso, assim como, lá atrás, quando exercia a atividade com terapias complementares, reforçando essa percepção sobre a importância da interdependência e levar uma palavra amiga.
Sempre que possível, entrego uma palavra que amplia possibilidade de compreensão, daquelas que traz acolhimento e, quem sabe, ajude a refletir.
Dica: Seja uma pessoa legal.
Vidas vivem de outras vidas. Livros são escritos por outros livros. E, no fim, talvez a diferença entre viver e escrever esteja na mesma resposta: reconhecer, com honestidade, tudo aquilo que não se faz sozinho.
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