segunda-feira, 13 de abril de 2026

Entrevista com Júlio A. Filho - do Mickey a Sherlock Holmes

A jornada de um autor que viveu o universo Disney e hoje cria seus próprios universos



Se você cresceu lendo revistas em quadrinhos da Disney no Brasil, entre as décadas de 1970 e 1990, é bem provável que já tenha embarcado em uma história criada ou editada por Júlio de Andrade Filho sem saber. Durante mais de duas décadas na Editora Abril, ele não só roteirizou as aventuras de Pato Donald, Mickey e Zé Carioca, como viveu a experiência dos sonhos de qualquer fã: um estágio nos Estúdios Disney, em Burbank, Califórnia, onde respirou a magia e conviveu com os lendários artistas e roteiristas que davam vida aos personagens mais amados do mundo.

Mas a história dele não para na porta da caixa-forte do Tio Patinhas. Ao sair da Abril, ele transportou sua habilidade de contar histórias para o universo corporativo, criando desde fascículos sobre bonsai até revistas de passatempos ensinando como usar o cartão de crédito. Depois, como tradutor, deu voz a dezenas de romances, biografias e obras de ficção científica, mergulhando ainda mais fundo nos mecanismos da boa literatura.

Hoje, Júlio reúne todo esse conhecimento em sua própria obra. Nesta entrevista, ele nos conta sobre a transição da “linha de criação” dos quadrinhos para a gênese de seus mundos particulares. E que mundos! Ele nos apresenta uma ratinha estrategista, um raposinho que encontra jacarés espaciais, uma gatinha super-heroína chamada Vingadora Noturna, um planeta onde os oceanos subiram e afogaram as cidades, até uma detetive de 22 anos, descendente de Sherlock Holmes, com Asperger e um QI de 160.

Prepare-se para uma conversa fascinante sobre criatividade, disciplina e o outro lado dos bichos (e dos livros).


1. Você passou mais de 20 anos dentro da “indústria” da criação, primeiro na Disney/Abril e depois no mercado corporativo. Como essa experiência de  produção de conteúdo para a “massa” influenciou a maneira como você escreve seus próprios livros hoje? Existe um lado artesanal que você sente falta?

Olha, foi uma escola e tanto. Na Abril, aprendi uma coisa que nenhum curso se preocupa em ensinar: entregar no prazo. E com qualidade. A redação era uma “linha de montagem criativa”, onde aprendi tudo na prática, com os mais talentosos artistas e jornalistas reunidos num só lugar. E tive a oportunidade de passar por todas as funções – fui roteirista, revisor, editor e, por fim, diretor. Isso me deu uma visão 360 graus do processo. Você aprende a olhar para um texto não apenas como autor, mas como quem vai ter que revisá-lo, diagramá-lo, desenhá-lo e depois apresentar pro leitor uma história que faça sentido.

O lado artesanal que sinto falta? Com certeza existe. Nos quadrinhos Disney, você está lidando com personagens que têm décadas de história. O Pato Donald já tem uma personalidade definida, você não pode simplesmente decidir que, dali em diante, ele vai virar um detetive durão para sempre. Existe um “molde” onde você precisa encaixar sua criatividade, e isso era o lado “artesanal”, o desafio de construir um bordado que se encaixasse naquele “tapete”. A mesma coisa na área corporativa, há manuais a seguir. Nas traduções, de certa forma a mesma coisa, embora aqui você tenha mais liberdade para criar o “bordado”, porque você precisa traduzir e adaptar os textos. Nos meus livros, eu mesmo construo esse molde. Posso fazer uma ratinha estrategista, um raposinho que encontra jacarés espaciais, uma gatinha justiceira... Não tem manual. É libertador e assustador, ao mesmo tempo.

Lembro que uma vez, nos estúdios Disney em Burbank, vi um storyboard sendo rabiscado e refeito umas cinco vezes na minha frente. Perguntei ao artista, Al Hubbard (o cara que criou o Peninha, primo doido do Donald), o que estava acontecendo e ele me respondeu: “Olha só, se eu mudar o olhar, a expressão dele muda completamente e a cena fica com outro sentido”. Hubbard me ensinou ali que contar história é uma “ciência” milimétrica. E isso carrego comigo até hoje, especialmente quando tento descrever uma cena ou um personagem.


2. Entre fascículos para a Schering, livretos para a Aché e revistas sobre cartão de crédito, o que o mercado corporativo te ensinou sobre contar histórias para quem “não tem tempo”?

Clareza e promessa cumprida. Texto institucional precisa explicar sem enrolar e respeitar quem está lendo no intervalo do trabalho. Isso me obrigou a transformar bula e manual em narrativa…  metáforas simples, exemplos do dia a dia, e sempre um “para que serve” logo de cara. Foi um treino ótimo para a tradução (romances, biografias, FC): ouvir a voz do autor e entregá-la limpa, no ritmo certo.


3. De onde saiu a ideia de misturar um raposinho faminto com… jacarés espaciais? Existe a preocupação de também agradar os pais que vão ler junto?

A coleção O Outro Lado dos Bichos nasceu de uma pergunta: e se os animais vissem o mundo pelo avesso? No primeiro livro, uma ratinha esperta apazigua uma confusão no sítio, porque ela entende que bagunça é, muitas vezes, falta de escuta. No segundo, o raposinho sai para “um almoço qualquer” e encontra uma invasão de jacarés espaciais. É meu jeito de falar de medo do desconhecido com humor: os “invasores” viram espelho das nossas próprias trapalhadas. E no terceiro, a Vingadora Noturna, uma gatinha, enfrenta pequenas injustiças… Ela tem algo do tipo: coragem em tamanho portátil.



Quanto a agradar aos pais, essa é famosa armadilha do “leitor duplo”. Quem escreve para criança sabe que quem compra o livro é o adulto, mas quem decide se gosta é a criança. E os dois precisam sair satisfeitos.

Minha abordagem sempre foi escrever histórias que eu gostaria de ter lido quando criança, mas com camadas que um adulto também pode apreciar. No primeiro livro, da ratinha é esperta, não é aquela esperteza malandra, é uma esperteza de organização, de liderança. A mensagem é sutil: você não precisa ser o maior ou mais forte para resolver problemas.

Já no segundo, dos jacarés espaciais, entrego de bandeja o absurdo. Um raposinho que só quer um almoço e dá de cara com uma nave cheia de jacarés? É uma porta de entrada para a ficção científica, mas pelo viés do humor. É meu lado mais '‘Disney’' falando alto...

E o terceiro, A Vingadora Noturna, é minha homenagem aos super-heróis, mas com um pé no real. A gatinha luta contra injustiças, mas são injustiças do cotidiano, na casa onde a gatinha vive.

Quando eu escrevia na Abril, aprendi uma máxima que corria por lá e vinha, de forma adaptada, do próprio Walt Disney: “Criança não é boba, ela sabe quando você está subestimando ela”. Quantas e quantas vezes meus mestres na Abril, os artistas mais experientes, viviam apontando uma incoerência num roteiro meu. Às vezes eram detalhes pequenos, mas eles sempre tinham razão. Nunca mais esqueci: respeito ao leitor é a base de tudo.

 

4. Depois de décadas editando personagens icônicos, você criou a Isabelle Holmes, uma detetive com Asperger e QI de 160. Como sua experiência traduzindo romances e biografias ajudou a moldar uma personagem tão complexa?

A tradução para mim foi a melhor escola para um escritor. Ao traduzir romances e biografias, você meio que “desmonta” o pensamento de outros autores.

A Isabelle, protagonista do livro Onde a verdade se esconde, nasceu de uma inquietação minha: o que acontece quando você herda um sobrenome pesado como Holmes, tem um cérebro privilegiado, mas o mundo não foi feito para pessoas como você? Eu queria alguém que tivesse a lógica de Sherlock, mas com as vulnerabilidades de uma jovem moderna. O Asperger dá a ela uma lente única sobre o mundo, ela vê padrões que nós ignoramos. E eu quis criar uma trama onde o mistério não é apenas '‘quem matou’', mas como a mente dela processava o trauma e a verdade.



Procurei evitar dois clichês comuns: o do '‘gênio excêntrico que todo mundo acha engraçadinho’' e o da '‘pessoa com Asperger que precisa ser consertada’'. A Isabelle não precisa ser consertada. O mundo é que é confuso demais para ela. O QI 160 dela faz com que interagir com as pessoas seja como tentar decifrar um código que muda o tempo todo.

E o trauma veio naturalmente. Alguém com uma mente tão analítica, que perdeu a mãe cedo e carrega o peso de um sobrenome mítico… como ela não teria traumas? O segredo foi tratá-la como uma pessoa real, não como um '‘caso interessante’'. Ela é forte porque sobrevive, não porque é indestrutível. É vulnerável porque sente, não porque é frágil.

Durante a pesquisa, eu me lembrei de um dos primeiros livros que traduzi, que era a biografia de uma pessoa que tinha essa condição, e conversei com pessoas no espectro autista para entender como descrever certas reações sensoriais. Uma delas me disse sobre a filha: '‘Você sabe quando entra num ambiente e a música está alta, mas você consegue ignorar e conversar? Minha filha diz que é como se aquela música estivesse dentro da cabeça o tempo todo, e não tem como desligar’'. Essa imagem me acompanhou durante toda a escrita. A Isabelle ouve o mundo num volume que ninguém mais ouve.


5. Como foi o processo de criar seus próprios universos e personagens do zero? Houve um momento de “eureca” ou foi um trabalho mais gradual?

Foi gradual, com pequenas '‘eurecas’' pelo caminho. Uma vez, fui para Goiânia de carro, a estrada era longa e, de repente, o horizonte aparecia. Foi assim, foram vários desses momentos de ver o horizonte.

O primeiro foi quando decidi escrever O Outro Lado dos Bichos. Eu pensei: '‘Se eu fosse um bicho, o que ninguém sabe sobre mim, como eu vivo, o que eu faço?” Daí surgiu a ideia de mostrar o '‘outro lado’' – o lado que não aparece no documentário, no desenho animado. O rato não é só uma praga, a raposa não é só esperta, o gato não é só independente. Eles têm dilemas, medos, ambições.

O segundo '‘eureca’' foi com Riquezas do Brasil. Ali era um trabalho mais encomendado, mas que me permitiu viajar sem sair de casa. Pesquisar sobre o frevo, os Lençóis Maranhenses, Ouro Preto… foi um mergulho no Brasil que eu não conhecia de verdade. Aprendi, por exemplo, que o frevo tem mais de 120 passos catalogados. Cento e vinte! Isso é coreografia para uma vida inteira.




O terceiro '‘eureca’', o maior deles, foi a Isabelle Holmes de Onde a Verdade se Esconde. Eu estava traduzindo um romance de ficção científica, e o protagonista tinha uma mente muito analítica. De repente, pensei do nada: '‘E se Sherlock Holmes tivesse uma herdeira? E se ela fosse mais brilhante que ele, mas carregasse o peso de viver num mundo que não foi feito para o jeito dela pensar?” Aí a ficha caiu: eu não estava criando só uma detetive, estava criando uma pessoa. E pessoas não cabem num único '‘eureca’', elas se revelam aos poucos.

Sobre Terra Líquida, foram duas as motivações principais: com o aquecimento global e os oceanos subindo de nível o tempo todo, o que vai acontecer? A outra motivação foi algo que sempre me intrigou, que é como a escassez revela quem somos. Em Terra Líquida, o oceano não é apenas um cenário, é um “divisor de águas” social. Criei esse mundo para questionar até onde vai a nossa empatia quando o privilégio é, literalmente, estar acima do nível do mar? É um romance sobre a verticalização da desigualdade, onde o trabalho sobe a montanha, mas a dignidade muitas vezes fica à deriva nas balsas...




6. Para quem está começando a escrever ou para os leitores que te acompanham desde a Disney: qual o segredo para uma história se tornar imortal?

A honestidade emocional. Não importa se você está escrevendo sobre um raposinho em busca de almoço ou sobre uma detetive com QI de 160 enfrentando criminosos. Se o leitor sentir que aquele medo ou aquele desejo do personagem é real, ele não abandona o livro.

Escrever, para mim, tem sido um exercício de empatia. Aos 73 anos, percebo que o que me move hoje é o mesmo que me movia lá atrás, ao criar HQs com os personagens Disney: a vontade de contar uma história que faça alguém, por um momento, ver o mundo com outros olhos.

7. O futuro: você já passeou pela vida real (Riquezas do Brasil), pelo absurdo (os jacarés espaciais), pela distopia (o mundo inundado) e pelo suspense (Isabelle Holmes). O que podemos esperar de Júlio de Andrade Filho no futuro? Existe um novo universo aí na sua cabeça esperando para sair?

Stephen King disse uma vez: ‘A coisa mais aterrorizante que eu temo? Minha imaginação’.

 Ao escrever Terra Líquida, entendi exatamente o porquê: imaginei um mundo onde a humanidade perdeu o chão, literalmente. Esse projeto me persegue há anos, porque eu não queria explorar o desastre, mas a adaptação a ele.

O que resta da arte, da memória e do amor quando as cidades viram ruínas submersas? É uma distopia com uma ponta de esperança… ou talvez não! Todo mundo diz que a história deve ter uma continuação, ainda estou decidindo.

Sobre continuação, a detetive Isabelle Holmes com certeza terá continuação. Onde a Verdade se Esconde é apenas o primeiro caso dela, e já estou trabalhando no segundo livro. Nele, veremos um lado mais vulnerável e, ao mesmo tempo, mais feroz dessa moça. Sinto que Isabelle tem muito mais a dizer e eu, muito a descobrir sobre ela.

E tenho muitas ideias, uma delas já em gestação avançada, não deve levar nove meses para vir à luz… Ah, ah, ah!

Lembro de algo que ouvi de um roteirista veterano e que me confidenciou, quando eu estava começando nesse trabalho (vou citar aqui, mas não lembro se foram exatamente essas palavras): “Você nunca termina uma história; apenas a abandona num ponto que parece certo a você”. Na época, achei que era filosofia barata, daquelas de livrinhos de frases que a gente comprava nas bancas de jornal – quando ainda existiam bancas de jornal. Até pode ser que ele tenha lido num desses livrinhos. Ou pode ter lido numa entrevista do George Lucas (criador de “StarWars” e que vivia sendo entrevistado porque o filme tinha sido lançado com muito sucesso): “Um filme nunca é terminado, apenas abandonado.”

Seja qual for a origem da frase, hoje eu entendo que as histórias continuam vivas na cabeça de quem lê. E que meu trabalho é dar a elas o melhor ponto de partida possível; o resto do mergulho é com o leitor.


8. Soube que um roteiro seu foi reprovado... E parece que deu maior bafafá. É verdade? Me conte. 


Sim. O roteiro que foi "rejeitado" pela matriz da Disney (O Casamento do Pato Donald) e o que tentei fazer para não obedecer e o que aprendi (eu tentei subverter o universo de Patópolis com "O Casamento do Pato Donald", trazendo um tom mais maduro – com humor, claro – e definitivo que a Disney, óbvio, barrou. No começo, vi isso como censura à minha criatividade; mais tarde, entendi que era a proteção de um legado. Aprendi que, ao trabalhar com ícones, somos "curadores" de arquétipos, não apenas autores. Levei para a vida a lição de que o verdadeiro desafio do roteirista não é quebrar as regras de um mundo pronto, mas encontrar a própria voz dentro das limitações, entendendo que o "não" geralmente protege a perenidade da obra, enquanto o autor passa. Aprendi o desapego, que a ideia não era "minha". Aprendi que as grandes marcas vendem a "eterna juventude", digamos assim, e mudanças drásticas rompem o contrato com o público infantil).



Sabe, uma das lições mais duras que aprendi sobre o mercado editorial veio de um impasse com a própria Disney. Eu escrevi um roteiro para uma HQ que, na minha cabeça, mudaria o status quo do universo dos Patos: foi o Casamento do Pato Donald.


Eu queria que fosse real. Queria que o Donald e a Margarida finalmente subissem ao altar, tivessem filhos e que o universo Disney evoluísse com eles. Afinal, por que os personagens precisam ficar congelados no tempo?



Mas a Disney é implacável com o seu "cânone". Foram semanas de briga criativa. A posição deles era clara: "O Donald não pode casar, ele é um eterno namorado". No fim, para a história não ser engavetada, tive que ceder. Refiz o roteiro inteiro com um artifício clássico, conforme eles ordenaram: no final da história, o Donald acorda. Tudo aquilo — o altar, as alianças, a vida de casado — tinha sido apenas um sonho.


Foi agridoce. Por um lado, vi a história ser publicada no Brasil e no mundo todo; por outro, ficou aquela sensação de que o Donald ainda me deve esse final feliz.

Esse episódio me ensinou muito sobre o equilíbrio entre a nossa paixão criativa e as regras do jogo. No começo, vi isso como censura à minha criatividade; mais tarde, entendi que era a proteção de um legado. Aprendi que, ao trabalhar com ícones, somos "curadores" de arquétipos, não apenas autores. Levei para a vida a lição de que o verdadeiro desafio do roteirista não é quebrar as regras de um mundo pronto, mas encontrar a própria voz dentro das limitações, entendendo que o "não" geralmente protege a perenidade da obra, enquanto o autor passa. Aprendi o desapego, que a ideia não era "minha". Aprendi que as grandes marcas vendem a "eterna juventude", digamos assim, e mudanças drásticas rompem o contrato com o público infantil.


9. Vi no seu portfólio que você aceitou O desafio de transformar “cartão de crédito” em algo divertido para uma revista de passatempos...

O desafio era fazer um jovem se interessar e entender a fatura do cartão de crédito tanto quanto se interessa por um game. Chegamos à conclusão que o segredo não era “ensinar”, mas '‘desafiar’'. Em vez de um manual, usamos na revista as páginas espelhadas: de um lado, o conteúdo; do outro, a cruzada ou caça-palavras. A mágica acontecia no meio: para preencher a grade, ele precisava '‘caçar’' a lógica no texto. Então, a educação bancária virou uma recompensa imediata. Entendi ali que a inteligência narrativa é a arte de esconder o aprendizado dentro do entretenimento, fazendo o leitor sentir que descobriu a solução sozinho.


10. É lenda urbana ou é verdade que o tradutor/escritor é solitário? 

Mais ou menos... Vamos lá! Ela acontece naquele silêncio, naquele vácuo, entre o que o autor sentiu ao escrever e o que o leitor brasileiro vai receber. São horas em busca de uma palavra, aquela que vai dar o tom exato de uma melancolia em um romance ou o peso técnico de uma descoberta, em uma ficção científica. É um trabalho invisível e solitário, onde você briga com o dicionário para não trair a intenção original, vasculha sem parar os sinônimos para não usar palavras repetidas. Foi quando assumi que o papel do tradutor não é apenas converter idiomas, mas ser uma ponte emocional. A solidão só acaba quando encontro a palavra ou expressão exatas e percebo que, embora o autor e o leitor jamais venham a se conhecer, eles finalmente estão falando a mesma língua, graças à minha escolha.


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Júlio de Andrade Filho – Tradutor Inglês/Português, Escritor, Roteirista de HQ, Blogueiro
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Sobre mim :) 

Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português), presto serviços de Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes.


Confesso que, de vez em quando, adoro entrevistar pessoas; e foi uma alegria e uma tremenda honra conversar com o Júlio de Andrade Filho, que aliás foi o meu grande mentor no setor editorial. Júlio, muito obrigada! 

(Como freelancer prestei serviços para as seguintes editoras: Melhoramentos, Abril, Larousse, Planeta do Brasil, Prumo, Ediouro, Letraviva, Évora, Girassol, Ave-Maria entre outras; e com Projetos Especiais Editoriais no Peru, até o momento, trabalhei em mais de 150 publicações.)

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sábado, 11 de abril de 2026

Zéfiro e Favônio: Bons Ventos na Vida e na Escrita

Zéfiro e Favônio: Uma leitura mítica-simbólica do vento

Quando ele volta a se mover e há oportunidade de encontrar uma passagem.



Zéfiro (grego) e Favônio (sincretismo romano) revelam o sentido dos Bons Ventos na vida e na escrita, mostrando como circulação, abertura e movimento transformam o que estava parado. Há divindades antigas que não estão ou ficaram estagnadas, elas se mantêm presentes, inclusive no cotidiano. Elas permanecem como imagens de grande potência para quem cria, decide e precisa se mover (ou ser movido/a). Ou quem sabe, dar alento ao que perdeu fôlego. E quem não sonha em que os Bons Ventos tragam alegrias, felicidade, boas descobertas? 

Zéfiro, na tradição grega, e Favônio, em sua correspondência romana, nomeiam um mesmo fenômeno: o vento favorável. Vinculam uma simbologia que nos traz conforto. Uma riqueza deles é que vão além do movimento físico do ar: em algumas tradições representam a mudança das estações, do clima, a fertilidade da terra, e a chegada de oportunidades favoráveis.  

Para os antigos romanos, o sopro do vento era a voz dos deuses. A ideia de "bons ventos" estava selada ao destino através do conceito de Ob portus: a oportunidade sagrada de alcançar o porto. Sob a regência dos Venti, os ventos personificados, navegar com brisas favoráveis era mais que fortuna; era a manifestação de que o universo conspirava para guiar o viajante exatamente para onde ele deveria estar ou chegar. E mais ainda: na agricultura, ainda para os romanos, Favônio era o "marido da flora", aquele que fertilizava a terra.

Spoiler: Embora dialogue com a escrita, este texto não se restringe a escritores e escritoras. Ele também pode interessar a quem deseja refletir sobre os Bons Ventos e o que eles significam, de forma mais ampla, na vida.

 

Na mitologia

Zéfiro é o deus grego do vento oeste (H.N.)*, um dos Anemoi, os ventos direcionais sob o domínio de Éolo, soberano dos ventos. Filho de Eos (a aurora — luz como confiança no dia que desperta) e de Astreu (associado às estrelas — esperança e direção nas noites escuras); ele representa o sopro mais suave entre os ventos: aquele que anuncia a primavera, abertura das flores e favorece o movimento. 

Favônio é sua correspondência romana. Em latim, a raiz do nome já indica sua natureza: favere, favorecer, inclinar-se positivamente. Um auspício de que algo começou a mudar. 

*Hemisfério Norte: Eles trazem ar marítimo temperado para as costas ocidentais (como Europa e Noroeste dos EUA), suavizando o inverno.


Etimologia

O nome Zéfiro vem do grego Zephyros, associado ao sopro suave e à direção oeste. Zéfiro anunciava o fim das geadas, ou seja, um tempo promissor estava por chegar, a promessa do renascimento. Já Favônio carrega, no latim, a raiz favere: favorecer, inclinar-se positivamente, soprar em direção a, tem relação com a prosperidade, fertilidade e proteção agrícola. 

Nomes distintos, mesma essência. Culturas diferentes reconhecem e nomeiam experiências semelhantes: o vento, o ar em movimento, e sua relação direta com a vida e a propagação dela. Que dias melhores virão (ou ao menos, diferentes). 

Quem pode esquecer que o vento equilibra o sistema ecológico da terra, dispersa poluentes e é um dos que trabalha para a polinização? Uma potente influência invisível. 


Simbologia 

O vento, em diversas tradições, está diretamente ligado ao sopro vital. Em grego, pneuma significa vento, alento, aquilo que anima e põe em movimento. Não se trata apenas de ar, há outra importância embutida: a propagação da vida. Traz consigo o atributo da renovação. Zéfiro/Favônio representa também a transição do estéril para o fértil. 

O que se move não é só o que está fora, mas também o que atravessa o interior: ideias, impulsos, decisões, aquilo que pede passagem.

Nesse sentido, esses ventos podem ser lidos como imagens daquilo que precisamos refrescar por fora e por dentro. Se há fatores, elementos ou circunstâncias que podem prosperar (mas ainda não havia condições), Favônio pode colocar em movimento.


Éolo: soberano dos ventos (só lembrando que esses atributos são do hemisfério norte, onde a mitologia greco-romana nasceu; portanto, aqui para o hemisfério sul, é o contrário). 

Éolo não os cria: guarda, reconhece, nomeia e libera. Sob seu domínio estão os Anemoi, cada um com uma direção e um atributo próprio de movimento.

Bóreas, o vento norte, traz o frio. Podemos pensar que o frio nos obriga ao recolhimento; e no recolhimento, podemos repensar ideias, valores, crenças — algo bastante importante para o processo criativo e, por que não, à sobrevivência. Convida à pausa, ao distanciamento, ao que precisa estabilizar/esfriar antes de seguir. Quem nunca ouviu: "Precisamos deixar esfriar, nada de decisões no calor do momento"?

Noto, o vento sul, chega úmido, morno, carregado. Pode pesar, desacelerar, tornar tudo mais denso. Mas também amolece o que estava endurecido, prepara o que pode começar a receber.

Euro, o vento leste, é úmido, quente, constante. Pode tanto ressecar quanto acender. Há momentos em que impulsiona calor criativo. Em outros, exige atenção ao excesso.

Zéfiro, o vento oeste; Favônio: o sopro favorável; a brisa que renova, o movimento que chega quando algo, há tempo, precisava circular.


A invisibilidade do vento

O vento não se vê, mas percebemos seus efeitos: a folha que se move, o fogo que se altera, a vela que se apaga, a semente que se espalha, a embarcação que avança. 

Indo para o outro lado do oceano, lembrei de uma vez eu ouvi um xamã norte-americano dizer: "Os ventos penteiam os cabelos da Mãe Terra e tudo o que há Nela", — ele fazia analogia com as árvores, plantas e com os pensamentos (cabeça humana (por ter citado os cabelos)).

Há momentos em que tudo circula, avança, encontra passagem; nossos "cabelos" são re-penteados. 

Há circunstâncias em que algo emperra, mesmo sem explicação evidente. Às vezes, é apenas excesso: de informação, de repetição, de adjetivos, de insistência. Falta ar. Falta uma brisa. Ou falta uma ventania. 

Pense: se há um bloqueio e o vento não passa, (algo óbvio, parece brincadeira de criança, mas aqui não é). Se pensarmos bem, se algo está estagnado em nossa vida e precisamos "novos ares", talvez seja o caso de abandonarmos algumas resistências. 


Refrescar por dentro

Respiramos o tempo todo sem perceber. O ar entra, o ar sai, e raramente nos detemos no que esse movimento contínuo representa além do biológico. Esses ventos convidam a deslocar o olhar.

Há momentos em que algo se torna represado e pede circulação, outros em que há vida, pulsação, mas falta deslocamento: ideias que tentam se mover e não encontram passagem; processos criativos que se tornam densos, não por falta de empenho, mas por falta de arejamento; situações em que uma pequena abertura já seria suficiente para permitir contato, troca, continuidade.

Nesse sentido, esses ventos não dizem apenas de um sopro que chega de fora, mas da capacidade de perceber quando algo interno precisa de movimento.


Que vento eu tenho a oferecer?

Quase sempre perguntamos o que os Bons Ventos podem nos trazer. Nem sempre dobramos, desdobramos ou invertemos a pergunta.

Que sopro eu tenho a oferecer? Que circulação eu posso gerar, em mim, ao meu redor, no que ainda está parado?

Sendo ainda mais direta:

Que bons ventos eu carrego em mim, que ainda não deixei sair, que ainda não ofereci ou não consigo desfrutar? Que palavras eu solto ao ar e que o vento irá levar? Que brisa favorável é possível acrescentar na narrativa? E na minha história pessoal, qual vento favorável eu deixei escapar? Ou que vento favorável que dispus a algo ou para alguém? 

Há culpa nisso? Jamais! Claro que não, porque os ventos e os ciclos naturais da vida são incontroláveis, nem sempre dependem de nós; é bacana ter essa consciência de que nem tudo depende de nós, e que, assim como os ventos são invisíveis, nem tudo conseguimos enxergar. Ou quem sabe, seja uma questão de absorvermos o fundamento da interdependência.


Na prática: o apoio simbólico à escrita

Nem todo escritor trabalha de forma explícita com mitologia, ela é uma sugestão criativa. Ainda assim, certas imagens arquetípicas e simbólicas oferecem uma via de percepção mais fina do próprio fazer literário, sobretudo quando o texto entra em zonas que a técnica, sozinha, não basta para esclarecer.


Na construção de personagens

Uma ideia: os ventos podem servir menos como tema e mais como conformidade e destino dos personagens. Há personagens que arejam uma cena apenas por entrar nela; outros deslocam o eixo de quem os cerca. Alguns chegam como brisa, mas alteram o ambiente; outros acumulam como ar pesado, interrompem a circulação, tornam tudo mais denso. Pensar assim não substitui a elaboração psicológica deles, mas pode aprofundar a atmosfera interna de cada figura.

Favônio, Zéfiro e os Anemoi podem inspirar personagens que: carregam um sopro interno que ainda não foi exalado — não descobriu o que lhe faz sentir vivo; são agentes de circulação na vida de outros personagens — mudam rotinas, rumos, abrem janelas e portas. 


Na estrutura de um livro

Essa composição (sobre ventos) também oferece uma leitura ou releitura da vida ou do original. Certos capítulos pedem contenção; outros reclamam abertura. Há trechos que precisam rarefazer a linguagem para que o leitor volte a respirar, e há passagens em que o adensamento é necessário, desde que não sufoque. O problema não está na densidade em si, mas na falta de modulação.

Essas imagens podem orientar: capítulos que marcam mudanças de ritmo e de direção narrativa; momentos em que a história precisa respirar antes de avançar; a alternância entre cenas densas e cenas que arejam; passagens em que há "ares" que transformam os eventos, personagens, circunstâncias, destinos.


No processo criativo

O escritor pode usar essas figuras como lentes simbólicas para se perguntar:

  • Meu texto está árido? Que leitura nova pode trazer novos ares?
  • Estou escrevendo sempre no mesmo tom, no mesmo ritmo, na mesma estrutura? Que brisa posso deixar entrar?
  • Há personagens ou cenas que não respiram; não por falta de técnica, mas por excesso de controle?
  • Estou segurando um texto na gaveta porque ainda não me sinto pronto? Que vento favorável eu precisaria sentir para deixá-lo circular?
  • Há algo na minha narrativa que está convulsionando, e que precisaria de Bóreas, ou seja, de um frio que esfria e reorganiza?
  • Estou pedindo inspiração ao vento ou estou esperando que ela venha sozinha, sem abrir nenhuma fresta?
  • Pense que conversar com alguém (algo muito importante no processo criativo) pode ser uma rica experiência de intercambiar "sopros".
  • O que o vento cobriu? E o que ele fez aparecer?(*)

(*) Amantes de arqueologia e arqueólogos entenderão sem precisar de explicações; sendo mais precisa: o vento leva o que sua força permite, e uma boa parte do que ele faz enquanto circula pela terra é carregar poeira e areia. Pois bem, vivi por muitos anos no Peru, na costa norte; fui casada com um arqueólogo, e não foi uma, nem duas, foram dezenas e dezenas de vezes que ouvi dele e dos amigos e amigas de profissão dizerem:

— Está vendo aquele monte ali?

— Sim, claro. 

— Não é uma pequena montanha. É uma pirâmide que o vento fez a gentileza de cobrir com terra e areia. Se escavarmos, haverá uma huaca.

E o contrário também acontecia: por vezes, andando pelo deserto (ia com frequência a uma determinada região), um dia havia apenas areia, e no outro aparecia um fardo cerimonial, ossos, colares (entre outros). Coisas do vento, que fazia voltar aos olhos o que estivera escondido por centenas de anos.


Exercícios dos Ventos Favoráveis

  • Pegue um trecho que não avança. Observe o que segura o movimento. Corte até algo começar a circular.
  • Escolha uma cena imóvel. Não mude o conteúdo; altere apenas onde ela começa e onde termina, pense como está tudo ao redor. Veja o que se desloca.
  • Pegue um parágrafo que diz demais. Retire metade. Leia o que permanece.
  • Leia um texto seu e localize onde há controle excessivo. Tente reescrever com leveza.
  • Imagine que em algum trecho do seu livro acontece um vendaval. O que acontece? As pessoas se unem mais ou se separam? Admitem verdades? Ou se autoprotegem ainda mais? 
  • Leia em voz baixa; não para corrigir, apenas para perceber onde falta ar, onde não flui.
  • Releia este texto com o propósito de pensar, repensar, refletir, filosofar sobre ele até que você encaixe uma nova ideia — que pode ser incrivelmente distante de tudo o que está sendo tratado aqui: por exemplo, você pode pensar nos rios, chuva, terra, fogo, etc.


O vento espalha o que está pronto para se mover. Como seres humanos, geramos sopros e miniventos o tempo todo: nas palavras que falamos, nas ideias que compartilhamos, nas histórias que contamos. A questão não é apenas que vento está soprando sobre mim, mas que vento (quais ares) eu estou gerando ao meu redor.





Sobre mim

Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost WriterCopydesk, Tradutora (Espanhol/Português), e presto Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes; AstroEscrita, Astrologia para Escritores.

Trabalhei como freelancer para as seguintes editoras: Melhoramentos, Abril, Larousse, Planeta do Brasil, Prumo, Ediouro, Letraviva, Évora, Girassol, Ave-Maria entre outras; e com Projetos Especiais Editoriais no Peru.  

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