Descubra quem é Ops na mitologia romana e como seus símbolos — semeadura, colheita e obra — nos convidam a reconhecer a abundância que já carregamos na vida e na escrita.
Spoiler: este texto fala para escritores, mas não só para eles. Quem vive um processo de criação — seja escrever, construir, plantar, educar — pode se beneficiar dessas reflexões.
Você já disse "ops" semana passada, ontem ou hoje?
Aposto que sim.
"Ops, esqueci de salvar o arquivo." "Ops, errei a grafia da palavra." "Ops, apaguei o parágrafo errado." "Ops, esqueci de fechar a porta."
Essa pequena interjeição que usamos para nomear deslizes e enganos guarda, dentro dela, um nome muito mais antigo. Um nome que significava exatamente o oposto de erro.
Significava abundância.
Riqueza.
A capacidade de produzir, guardar e oferecer.
Quem é Ops na mitologia romana
Ops — também grafada Opes ou Opis — era uma das mais antigas divindades da religião romana. Deusa da agricultura, fertilidade, da terra e da colheita, ela personificava a plenitude que a terra oferece depois do trabalho árduo.
Esposa de Saturno, era considerada a mãe de alguns dos deuses mais poderosos do panteão romano: Júpiter, Netuno, Plutão, Juno, Ceres e Vesta. Uma família que, sozinha, já diz muito sobre o alcance simbólico dessa figura.
Seu nome em latim carrega um campo semântico extraordinário: ops significa riqueza, bens, abundância, recursos, dons, generosidade, plenitude. Mas vai além. A mesma raiz op- deu origem a palavras que revelam, juntas, uma visão muito sofisticada do que é prosperar:
- Opus — obra, trabalho, produção deliberada
- Optimus — o melhor, o mais excelente
- Opulentia — opulência, riqueza extrema
- Opiparus — abundante, suntuoso, generoso
- Ops também está relacionada ao sânscrito ápnas — bens, propriedade
Repare: Ops é uma deusa que lida com as riquezas da terra, do trabalho, da paciência, da responsabilidade em se comprometer com o melhor, excelente... Não é uma riqueza celeste, veja a seguir...
Ops e a terra: uma deusa que mora dentro do chão
Ops era considerada uma divindade ctônica — ou seja, pertencente às forças que habitam o interior da terra.
Não era uma deusa dos céus. Era uma deusa do que germina nas profundezas, no escuro, antes de aparecer.
E há um detalhe extraordinário registrado pelo escritor romano Macróbio nos seus Saturnalia: os fiéis invocavam Ops sentados, com as mãos tocando o chão.
Não havia pedido de joelhos, olhos erguidos para o alto.
Era o gesto inverso: descer. Tocar. Conectar-se com a fonte que está embaixo, não acima.
Pense nisso por um momento.
Para pedir abundância, os romanos tocavam a terra.
Sensato, verdade?
Os festivais de Ops: agosto e dezembro
Ops era celebrada em duas datas no calendário romano, cada uma com um significado específico dentro do ciclo agrícola.
A Opiconsivia, em 25 de agosto, marcava o fim da colheita — o momento em que os grãos eram armazenados com segurança, o trabalho de meses finalmente protegido. Presidida pelo Pontífice Máximo e pelas Virgens Vestais, era um rito de salvaguarda do que foi conquistado.
A Opalia, em 19 de dezembro, acontecia durante as Saturnálias — o período festivo dedicado a Saturno — e celebrava a prosperidade guardada, pedindo continuidade e proteção para os meses seguintes.
Dois momentos. Um no calor do fim da colheita. Outro no frio do inverno que pede reservas.
Dois pensamentos-semente Ops insufla: o que, como, onde a colheita se manifestou? E: o que você guardou para sustentar (ou simbolicamente "semear, fecundar, alimentar") o que vem? Você tem condições? Caso contrário, como melhorar seus recursos, suas "terras" (no sentido simbólico)?
O que Ops carregava nas mãos
Nas estátuas e moedas romanas, Ops aparecia geralmente sentada — postura que reforçava sua natureza ctônica, sua relação com a terra — e segurava dois objetos:
A cornucópia: o chifre transbordante de frutos, grãos e flores. Símbolo da abundância que não se esgota, que continua se oferecendo.
O cetro: símbolo de autoridade. Mas não a autoridade que impõe — a autoridade de quem zela. De quem tem poder sobre o que cresce e o que é guardado.
Junto, às vezes, uma espiga de trigo. A forma mais simples e concreta da produção que sustenta.
Uma deusa que segura, ao mesmo tempo, a fartura, autoridade e o cuidado.
O "ops" cotidiano: de tropeço a ressignificação
Há uma ironia que vale pausar para observar.
A palavra que hoje usamos para nomear nossos pequenos erros — "ops, me enganei", "ops, não era isso" — vem do nome de uma deusa que simbolizava exatamente o contrário da falha: a plenitude, o recurso, a capacidade de produzir.
Não sabemos exatamente quando a palavra migrou de nome sagrado para interjeição de deslize. Mas essa trajetória diz algo sobre como tratamos nossa própria abundância.
Às vezes, o que nomeamos como erro é apenas um sinal de que estamos no meio de um processo que ainda não terminou.
A semente que ainda não brotou não é uma falha.
É uma obra em andamento.
E o que você acha de trocar daqui pra frente? Toda vez que conseguir alcançar um objetivo (não precisa ser exatamente grandioso) solte um vigoroso: "— Ops!"
A escrita como opus: o que Ops tem a dizer ao escritor
A palavra opus — de mesma raiz que Ops — significa obra, trabalho, produção. Em música, em literatura, em arte, um opus é a obra de uma vida, ou de uma fase dela. Algo que carrega o peso e o cuidado de uma criação deliberada.
E essa conexão não é apenas etimológica. É uma imagem poderosa para pensar o processo de escrever.
Porque a escrita tem muito da natureza de Ops.
Ela exige semeadura — as primeiras palavras lançadas ao papel sem garantia de colheita.
Exige paciência com o ciclo — o rascunho que precisa maturar antes de ser revisado.
Exige armazenamento — o caderno de ideias, as cenas guardadas que ainda não encontraram seu lugar.
Exige cuidado com o que foi colhido — a revisão, o copydesk, o olhar que lapida o que foi produzido.
E exige, talvez o mais difícil de tudo: reconhecer que a abundância já está aqui, está aí.
Não é algo que você vai adquirir quando estiver "pronto".
Já está dentro.
A pergunta que Ops nos faz
Costumamos perguntar o que a abundância pode nos dar.
Quando teremos mais tempo para escrever, mais inspiração, quando a vida vai se organizar para que a escrita finalmente aconteça.
Mas Ops, deusa que mora dentro da terra e não nos céus, sugere uma pergunta diferente.
Qual é a abundância que você já carrega?
Não a que você espera. A que você tem.
Que histórias já viveu e ainda não escreveu?
Que observações fez sobre o mundo que ninguém mais fez do mesmo jeito que você?
Que voz já existe em você, esperando ser confiada ao papel?
Que opus já está germinando dentro de você — talvez no escuro, como as sementes que Ops guarda na terra — esperando que você se sente, toque o chão com as mãos, e em seguida comece, ou recomece?
O que o escritor pode aprender com Ops
1. Abundância não é ausência de esforço
Ops não é a deusa da sorte ou do acaso (isso é com a deusa Fortuna), Ops é deusa da colheita — o que pressupõe semeadura, trabalho, tempo, cuidado.
A escrita fértil nasce da mesma lógica. Não da espera passiva pela inspiração, mas do cultivo diário: ler, observar, anotar, escrever mesmo quando parece que não vai dar em nada.
A semente que você planta hoje é o texto que você colherá depois.
2. Guardar também faz parte do ciclo
A Opiconsivia celebrava o armazenamento dos grãos. Não apenas a colheita — mas a guarda.
Para o escritor, isso tem um equivalente concreto: o caderno de ideias. O arquivo de esboços. As cenas que não cabem no texto atual mas que um dia vão servir.
Guardar não é acumular sem propósito. É reconhecer que nem tudo precisa ser usado agora.
Às vezes, o texto certo para aquela ideia ainda não chegou. E tudo bem.
3. O "ops" pode ser o início, não o fim
Quando erramos no texto — a frase torta, o parágrafo que não fecha, a cena que não funciona — tendemos a tratar isso como falha.
Ops sugere uma outra leitura.
O erro na escrita pode ser o momento em que a terra revira e mostra o que precisa ser semeado diferente. Não uma derrota, por favor, leia como "uma nova informação"; uma direção nova.
O que você chamaria de "ops" na sua escrita que, na verdade, é uma semente esperando outra abordagem?
Talvez você goste de ler sobre reler o próprio texto.
4. A riqueza do escritor está no que ele viveu, não apenas no que ele sabe
Ops era uma deusa do cotidiano concreto: grãos, terra, colheita. Não de ideias abstratas.
A abundância da escrita vem das experiências reais, das percepções singulares, das histórias que só você atravessou do jeito que você atravessou.
Isso não tem preço. Não tem equivalente.
E muitas vezes é exatamente o que o escritor iniciante não reconhece em si.
Talvez precise aprender a enxergar o que só você pode ver.
5 exercícios de escrita inspirados em Ops
Estes exercícios são reflexivos e ao mesmo tempo práticos. Não pedem técnica prévia. Pedem apenas que você sente, toque o chão, e escreva.
Exercício 1 — A cornucópia interior
Pegue um papel (de preferência, à mão) e escreva por 10 minutos sem parar respondendo à pergunta:
"Que abundâncias já carrego comigo — histórias vividas, aprendizados, percepções, perdas que me ensinaram algo — que ainda não viraram texto?"
Não filtre. Não julgue. Escreva como quem despeja o conteúdo de um chifre.
Depois, releia. Sublinhe o que mais pulsa. Guarde. Isso é matéria.
Exercício 2 — O gesto de Ops: tocar o chão
Antes de começar a escrever hoje, faça um gesto simples: coloque as mãos sobre a mesa, feche os olhos por um minuto, e pergunte a si mesmo:
"O que já está pronto dentro de mim para ser escrito hoje?"
Não o que você deveria escrever. O que já está pronto.
Escreva a partir disso.
Exercício 3 — O armazenamento
Reserve um espaço — pode ser um caderno, uma pasta no computador — e chame-o de "Opiconsivia": o lugar onde você guarda.
Durante uma semana, registre nele tudo que achar que pode ser matéria literária futura: observações, frases ouvidas, imagens, memórias, sentimentos difíceis de nomear, ironia do cotidiano.
Sem compromisso de usar. Apenas guardar.
Ao final da semana, releia. Veja o que germinou sozinho enquanto estava guardado.
Exercício 4 — O "ops" ressignificado
Releia um texto seu que você considera "com problemas". Algo que não saiu como você queria.
Agora, em vez de procurar o erro, pergunte:
"O que esse texto está tentando me dizer que eu ainda não ouvi?"
"Que caminho diferente ele está pedindo para ser contado?"
Escreva sua resposta. Ela pode ser o começo de uma reescrita muito mais honesta.
Exercício 5 — A obra que espera
Sente-se em silêncio por alguns minutos. Respire.
Depois, escreva livremente por 15 minutos a partir desta frase inicial:
"A obra que ainda não escrevi, mas que já mora em mim, é sobre..."
Deixe fluir sem julgamento. Não precisa virar um livro. Não precisa virar nada. Mas pode ser que, quando você terminar, algo que estava enterrado — como semente no solo de Ops — finalmente apareça.
Aqui tem um artigo sobre páginas matinais e outro (até divertido) "Cartas ao meu livro que não foi escrito"
Conclusão
Ops não era apenas uma deusa de um passado distante.
Ela é uma imagem de algo que continuamos precisando reconhecer: que a abundância não vem de fora, esperando ser concedida. Ela cresce de dentro. Exige trabalho, paciência com o ciclo, cuidado com o que foi semeado.
E às vezes, o que chamamos de "ops" — o erro, o deslize, o texto que não saiu como queríamos — é apenas o momento em que a terra revira e mostra que a colheita ainda está por vir.
Que sua escrita seja um opus: obra que carrega a marca do seu esforço, da sua observação, da sua voz singular.
Que cada "ops" no seu caminho seja um lembrete da deusa da abundância.
E que você nunca se esqueça de tocar o chão antes de começar.
*** E, me conte...
Virando uma pergunta do avesso...
O que há de próspero em você para oferecer para a abundância? ***
Sobre mim
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Referências
- Ops (mythology) — Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ops
- Opiconsivia — Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Opiconsivia
- Macróbio, Saturnalia, I:10 — sobre o ritual de invocar Ops tocando o chão
- Old World Gods — Roman Goddess Ops. Disponível em: https://oldworldgods.com/romans/roman-goddess-ops/
- Imperium Romanum — Ops. Disponível em: https://imperiumromanum.pl/en/roman-religion/gods-of-ancient-rome/list-of-roman-gods/ops/



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