quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ops, Deusa Romana da Abundância: o que ela ensina sobre a vida e a escrita criativa

Descubra quem é Ops na mitologia romana e como seus símbolos — semeadura, colheita e obra — nos convidam a reconhecer a abundância que já carregamos na vida e na escrita.


Deusa Romana Ops 

Spoiler: este texto fala para escritores, mas não só para eles. Quem vive um processo de criação — seja escrever, construir, plantar, educar — pode se beneficiar dessas reflexões.


Você já disse "ops" semana passada, ontem ou hoje?

Aposto que sim.

"Ops, esqueci de salvar o arquivo." "Ops, errei a grafia da palavra." "Ops, apaguei o parágrafo errado." "Ops, esqueci de fechar a porta."

Essa pequena interjeição que usamos para nomear deslizes e enganos guarda, dentro dela, um nome muito mais antigo. Um nome que significava exatamente o oposto de erro.

Significava abundância.

Riqueza.

A capacidade de produzir, guardar e oferecer.


Quem é Ops na mitologia romana

Ops — também grafada Opes ou Opis — era uma das mais antigas divindades da religião romana. Deusa da agricultura, fertilidade, da terra e da colheita, ela personificava a plenitude que a terra oferece depois do trabalho árduo.

Esposa de Saturno, era considerada a mãe de alguns dos deuses mais poderosos do panteão romano: Júpiter, Netuno, Plutão, Juno, Ceres e Vesta. Uma família que, sozinha, já diz muito sobre o alcance simbólico dessa figura.

Seu nome em latim carrega um campo semântico extraordinário: ops significa riqueza, bens, abundância, recursos, dons, generosidade, plenitude. Mas vai além. A mesma raiz op- deu origem a palavras que revelam, juntas, uma visão muito sofisticada do que é prosperar:

  • Opus — obra, trabalho, produção deliberada
  • Optimus — o melhor, o mais excelente
  • Opulentia — opulência, riqueza extrema
  • Opiparus — abundante, suntuoso, generoso
  • Ops também está relacionada ao sânscrito ápnas — bens, propriedade

Repare: Ops é uma deusa que lida com as riquezas da terra, do trabalho, da paciência, da responsabilidade em se comprometer com o melhor, excelente... Não é uma riqueza celeste, veja a seguir... 


Ops e a terra: uma deusa que mora dentro do chão

Ops era considerada uma divindade ctônica — ou seja, pertencente às forças que habitam o interior da terra.

Não era uma deusa dos céus. Era uma deusa do que germina nas profundezas, no escuro, antes de aparecer.

E há um detalhe extraordinário registrado pelo escritor romano Macróbio nos seus Saturnalia: os fiéis invocavam Ops sentados, com as mãos tocando o chão.

Não havia pedido de joelhos, olhos erguidos para o alto.

Era o gesto inverso: descer. Tocar. Conectar-se com a fonte que está embaixo, não acima.

Pense nisso por um momento.

Para pedir abundância, os romanos tocavam a terra.

Sensato, verdade?


Os festivais de Ops: agosto e dezembro

Ops era celebrada em duas datas no calendário romano, cada uma com um significado específico dentro do ciclo agrícola.

A Opiconsivia, em 25 de agosto, marcava o fim da colheita — o momento em que os grãos eram armazenados com segurança, o trabalho de meses finalmente protegido. Presidida pelo Pontífice Máximo e pelas Virgens Vestais, era um rito de salvaguarda do que foi conquistado.

A Opalia, em 19 de dezembro, acontecia durante as Saturnálias — o período festivo dedicado a Saturno — e celebrava a prosperidade guardada, pedindo continuidade e proteção para os meses seguintes.

Dois momentos. Um no calor do fim da colheita. Outro no frio do inverno que pede reservas.

Dois pensamentos-semente Ops insufla: o que, como, onde a colheita se manifestou? E: o que você guardou para sustentar (ou simbolicamente "semear, fecundar, alimentar") o que vem? Você tem condições? Caso contrário, como melhorar seus recursos, suas "terras" (no sentido simbólico)? 





O que Ops carregava nas mãos

Nas estátuas e moedas romanas, Ops aparecia geralmente sentada — postura que reforçava sua natureza ctônica, sua relação com a terra — e segurava dois objetos:

A cornucópia: o chifre transbordante de frutos, grãos e flores. Símbolo da abundância que não se esgota, que continua se oferecendo.

O cetro: símbolo de autoridade. Mas não a autoridade que impõe — a autoridade de quem zela. De quem tem poder sobre o que cresce e o que é guardado.

Junto, às vezes, uma espiga de trigo. A forma mais simples e concreta da produção que sustenta.

Uma deusa que segura, ao mesmo tempo, a fartura, autoridade e o cuidado.


O "ops" cotidiano: de tropeço a ressignificação

Há uma ironia que vale pausar para observar.

A palavra que hoje usamos para nomear nossos pequenos erros — "ops, me enganei", "ops, não era isso" — vem do nome de uma deusa que simbolizava exatamente o contrário da falha: a plenitude, o recurso, a capacidade de produzir.

Não sabemos exatamente quando a palavra migrou de nome sagrado para interjeição de deslize. Mas essa trajetória diz algo sobre como tratamos nossa própria abundância.

Às vezes, o que nomeamos como erro é apenas um sinal de que estamos no meio de um processo que ainda não terminou.

A semente que ainda não brotou não é uma falha.

É uma obra em andamento.

E o que você acha de trocar daqui pra frente? Toda vez que conseguir alcançar um objetivo (não precisa ser exatamente grandioso) solte um vigoroso: "— Ops!" 


A escrita como opus: o que Ops tem a dizer ao escritor

A palavra opus — de mesma raiz que Ops — significa obra, trabalho, produção. Em música, em literatura, em arte, um opus é a obra de uma vida, ou de uma fase dela. Algo que carrega o peso e o cuidado de uma criação deliberada.

E essa conexão não é apenas etimológica. É uma imagem poderosa para pensar o processo de escrever.

Porque a escrita tem muito da natureza de Ops.

Ela exige semeadura — as primeiras palavras lançadas ao papel sem garantia de colheita.

Exige paciência com o ciclo — o rascunho que precisa maturar antes de ser revisado.

Exige armazenamento — o caderno de ideias, as cenas guardadas que ainda não encontraram seu lugar.

Exige cuidado com o que foi colhido — a revisão, o copydesk, o olhar que lapida o que foi produzido.

E exige, talvez o mais difícil de tudo: reconhecer que a abundância já está aqui, está aí.

Não é algo que você vai adquirir quando estiver "pronto".

Já está dentro.


A pergunta que Ops nos faz

Costumamos perguntar o que a abundância pode nos dar.

Quando teremos mais tempo para escrever, mais inspiração, quando a vida vai se organizar para que a escrita finalmente aconteça.

Mas Ops, deusa que mora dentro da terra e não nos céus, sugere uma pergunta diferente.

Qual é a abundância que você já carrega?

Não a que você espera. A que você tem.

Que histórias já viveu e ainda não escreveu?

Que observações fez sobre o mundo que ninguém mais fez do mesmo jeito que você?

Que voz já existe em você, esperando ser confiada ao papel?

Que opus já está germinando dentro de você — talvez no escuro, como as sementes que Ops guarda na terra — esperando que você se sente, toque o chão com as mãos, e em seguida comece, ou recomece?


O que o escritor pode aprender com Ops

1. Abundância não é ausência de esforço

Ops não é a deusa da sorte ou do acaso (isso é com a deusa Fortuna), Ops é deusa da colheita — o que pressupõe semeadura, trabalho, tempo, cuidado.

A escrita fértil nasce da mesma lógica. Não da espera passiva pela inspiração, mas do cultivo diário: ler, observar, anotar, escrever mesmo quando parece que não vai dar em nada.

A semente que você planta hoje é o texto que você colherá depois.

2. Guardar também faz parte do ciclo

A Opiconsivia celebrava o armazenamento dos grãos. Não apenas a colheita — mas a guarda.

Para o escritor, isso tem um equivalente concreto: o caderno de ideias. O arquivo de esboços. As cenas que não cabem no texto atual mas que um dia vão servir.

Guardar não é acumular sem propósito. É reconhecer que nem tudo precisa ser usado agora.

Às vezes, o texto certo para aquela ideia ainda não chegou. E tudo bem.

3. O "ops" pode ser o início, não o fim

Quando erramos no texto — a frase torta, o parágrafo que não fecha, a cena que não funciona — tendemos a tratar isso como falha.

Ops sugere uma outra leitura.

O erro na escrita pode ser o momento em que a terra revira e mostra o que precisa ser semeado diferente. Não uma derrota, por favor, leia como "uma nova informação"; uma direção nova.

O que você chamaria de "ops" na sua escrita que, na verdade, é uma semente esperando outra abordagem?

Talvez você goste de ler sobre reler o próprio texto.

4. A riqueza do escritor está no que ele viveu, não apenas no que ele sabe

Ops era uma deusa do cotidiano concreto: grãos, terra, colheita. Não de ideias abstratas.

A abundância da escrita vem das experiências reais, das percepções singulares, das histórias que só você atravessou do jeito que você atravessou.

Isso não tem preço. Não tem equivalente.

E muitas vezes é exatamente o que o escritor iniciante não reconhece em si.

Talvez precise aprender a enxergar o que só você pode ver.


5 exercícios de escrita inspirados em Ops

Estes exercícios são reflexivos e ao mesmo tempo práticos. Não pedem técnica prévia. Pedem apenas que você sente, toque o chão, e escreva.

Exercício 1 — A cornucópia interior

Pegue um papel (de preferência, à mão) e escreva por 10 minutos sem parar respondendo à pergunta:

"Que abundâncias já carrego comigo — histórias vividas, aprendizados, percepções, perdas que me ensinaram algo — que ainda não viraram texto?"

Não filtre. Não julgue. Escreva como quem despeja o conteúdo de um chifre.

Depois, releia. Sublinhe o que mais pulsa. Guarde. Isso é matéria.

Exercício 2 — O gesto de Ops: tocar o chão

Antes de começar a escrever hoje, faça um gesto simples: coloque as mãos sobre a mesa, feche os olhos por um minuto, e pergunte a si mesmo:

"O que já está pronto dentro de mim para ser escrito hoje?"

Não o que você deveria escrever. O que já está pronto.

Escreva a partir disso.

Exercício 3 — O armazenamento

Reserve um espaço — pode ser um caderno, uma pasta no computador — e chame-o de "Opiconsivia": o lugar onde você guarda.

Durante uma semana, registre nele tudo que achar que pode ser matéria literária futura: observações, frases ouvidas, imagens, memórias, sentimentos difíceis de nomear, ironia do cotidiano.

Sem compromisso de usar. Apenas guardar.

Ao final da semana, releia. Veja o que germinou sozinho enquanto estava guardado.

Exercício 4 — O "ops" ressignificado

Releia um texto seu que você considera "com problemas". Algo que não saiu como você queria.

Agora, em vez de procurar o erro, pergunte:

"O que esse texto está tentando me dizer que eu ainda não ouvi?"

"Que caminho diferente ele está pedindo para ser contado?"

Escreva sua resposta. Ela pode ser o começo de uma reescrita muito mais honesta.

Exercício 5 — A obra que espera

Sente-se em silêncio por alguns minutos. Respire.

Depois, escreva livremente por 15 minutos a partir desta frase inicial:

"A obra que ainda não escrevi, mas que já mora em mim, é sobre..."

Deixe fluir sem julgamento. Não precisa virar um livro. Não precisa virar nada. Mas pode ser que, quando você terminar, algo que estava enterrado — como semente no solo de Ops — finalmente apareça.

Aqui tem um artigo sobre páginas matinais e outro (até divertido) "Cartas ao meu livro que não foi escrito"


Conclusão

Ops não era apenas uma deusa de um passado distante.

Ela é uma imagem de algo que continuamos precisando reconhecer: que a abundância não vem de fora, esperando ser concedida. Ela cresce de dentro. Exige trabalho, paciência com o ciclo, cuidado com o que foi semeado.

E às vezes, o que chamamos de "ops" — o erro, o deslize, o texto que não saiu como queríamos — é apenas o momento em que a terra revira e mostra que a colheita ainda está por vir.

Que sua escrita seja um opus: obra que carrega a marca do seu esforço, da sua observação, da sua voz singular.

Que cada "ops" no seu caminho seja um lembrete da deusa da abundância.

E que você nunca se esqueça de tocar o chão antes de começar.


*** E, me conte... 

Virando uma pergunta do avesso...

O que há de próspero em você para oferecer para a abundância? *** 




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