Bloqueio criativo, presença e o paradoxo da hóspede exigente: a inspiração
Tem dias em que o vazio de dentro é diferente do silêncio de fora, ou da ação.
O do mundo externo é (ou pode ser) apenas ausência de comunicação; o da ação, por vezes, parece indisposição.
O de dentro pesa (estranho pensar que o vazio pesa, mas em alguns instantes percebo isso).
Quem sabe seja algo preso na garganta, lágrimas que não caíram, um medo que tomou a decisão de se instalar, enfim, essas coisas que circulam que dificultam a palavra se tornar escrita.
Nesses dias, sentar para escrever parece uma piada de mau gosto.
E talvez seja. Às vezes.
Inclusive você pode escrever sobre isso.
Escrever sem vontade: desperdício ou exercício?
Aterrissando... É interessante, no mínimo incômodo lembrar... Escrever sem vontade nem sempre funciona para a narrativa que você está construindo.
O trecho produzido num dia árido pode representar algo como... um deserto gélido à meia-noite. Quem esteve num deserto durante a madrugada, entenderá; se você não esteve, tudo bem, tente imaginar. Ou converse com alguém que já esteve ou pesquise no Google.
Mas, vamos retomar. Não acredito que você tenha desperdiçado tempo (pense que está ganhando músculos); e, paralelamente, talvez também seja isso: jogá-lo fora também faz parte do processo — não é derrota, é triagem.
Pense que o papel do exercício da escrita cumpriu sua trajetória, mesmo que pequena, e isso é bacana.
Mas há outra camada aqui.
A hóspede insubmissa e exigente
Ela é a engrenagem sutil, e ao mesmo tempo, o coração dentro do mecanismo da escrita. E como tudo que pulsa, tem seu próprio ritmo e interesses.
A inspiração tem um comportamento peculiar. Não chega só porque queremos. Ela é insubmissa, independente, não aparece só porque você precisa dela.
Age mais como um hóspede com agenda própria: some por dias, retorna sem avisar, senta ao seu lado no meio de uma frase qualquer — justo naquele momento em que você escrevia quase por teimosia, quase sem querer. Quando isso acontece, merece um brinde. Tin! Tin!
De repente, você desviou o olhar e ela foi embora. Talvez, ela tenha partido porque você, sem perceber, não conseguiu lhe dar atenção.
Calma, é compreensível. Sei que a vida nunca cansa de seguir vivendo, e isso também faz parte do processo.
Só que há um paradoxo nessa história: ela pode até ser hóspede, mas não é você quem dita as regras, mesmo que a casa seja sua — ela mantém o controle das próprias escolhas — logo, não se deixará influenciar.
Exigente e fugaz, mas também generosa, ela dirá, de maneira quase inaudível, exatamente o que você precisa ouvir.
Por isso ela exige uma única coisa: sempre tenha algo à mão para anotar. É a forma que ela interpreta que a sua casa pode ser seu lar — mesmo que temporário.
O que você tem dentro da casa?
Ela quer encontrar uma casa com vida dentro. Quer saber o que você tem lido, que museus visitou, quais quadros te detiveram por mais de trinta segundos, se você tem prestado atenção nas pessoas falando, nas pausas, nos desvios, nas discrepâncias, nos desacordos, nas palavras que escolhem quando estão nervosas e as cores que estavam ao redor naquele momento em que as emoções eclodiram.
Isso é quase o imaterial que se torna material; melhor, é o que alimenta a materialização da escrita.
O conteúdo, então, aparece e pode ser dobrado, desdobrado, ampliado e enriquecer a sua história.
Escrever sem vontade é um gesto, uma atitude, de optar por estar presente; mas presença, aqui, tem sentido mais amplo, esférico, multifacetado.
Não é só sentar.
É também o que você acumulou antes de sentar (se quiser, inclua tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores): mais o cheiro de eucalipto daquela pequena trilha onde você caminhou às 6h50 quando o sol estava oblíquo — deixando o verde praticamente dourado; a frase ouvida no ônibus; a textura e a temperatura de um muro que você tem evitado, mas que te provoca curiosidade para saber o que há além dele.
A duração da visita? Não cabe a você decidir.
O corpo tem que pedir para a alma conferir o rito (e vice-versa): a cadeira, a luz da tela, o atrito dos dedos sobre o teclado, trazer para junto de si aquela caneta que não está falhando, as lembranças, a imaginação, a disposição interna para não se perder entre as distrações externas.
E falando de luz, sua luz interna deve ser acesa — você escolhe como isso poderá ser feito.
Deve conferir a taquicardia contente ou certificar-se que o lenço de papel está ao seu alcance, afinal, nós também choramos de alegria.
Esse conjunto (o material, o sensorial e o energético), sinaliza que, possivelmente, é hora. Não é uma determinação, é uma sugestão apenas.
No fundo, às vezes eu me pego refletindo, que a inspiração seja leve demais; qualquer vento que sopre a leva para longe. Por isso a importância de optar por estar presente.
Convide o imaginário para sentar-se ao seu lado. Na personificação, me envolve uma suspeita: se a Inspiração fosse escolher um par, escolheria o Imaginário.
Quando ela chega e entra, creia-me, não irá te informar por quanto tempo ficará; tenho um palpite que a inspiração não gosta de dar satisfação para ninguém.
Aproveite estas horas de fluxo; aquela sensação rara em que as palavras chegam antes dos dedos (é preciso retê-las com todas as forças) e que os dedos (ufa!) conseguem acompanhar. Saiu com um monte de erros de digitação, mas não importa, depois você corrige na releitura. Um único parágrafo, uma imagem bem descrita, uma frase que ilumina... Depois, você irá constatar que tomou corpo na tela que estava em branco ou no papel.
Mesmo no meio desse turbilhão, alguns trechos podem fazer o motor da narrativa funcionar.
A estadia é dela. Aprender a trabalhar com o tempo que ela oferece, seja curto ou longo, também faz parte do ofício.
E se pensarmos ao contrário?
Ela, a inspiração, não desaparece, penso que nem faz parte da sua essência simplesmente sumir (não identifico vantagem nenhuma nisso); mas, tampouco acredito que ela goste de ficar trancada em qualquer lugar que seja.
Pode ser que ela esteja numa estrada, num parque, ao lado de um bebê que está aprendendo a falar, naquele gatinho recém adotado que pede colo, numa consulta de tarot para escritores, no primeiro salto de uma paraquedista, num malabarista.
Ou ainda, a inspiração se ausente da sua casa para te convidar a visitar outros lares, outros ambientes, e quase te fazer perder o fôlego ao sentir as rajadas dos bons ventos durante o percurso.
Sobre manter a porta aberta para a inspiração
O que está do lado do escritor é a disposição de abrir a porta; perceber que a sua impermanência é real, mas ter algo dentro da casa que valha a visita.
(Se o tema de portas, limiares e o instante certo da abertura ressoa para você, talvez valha explorar Portunus e Jano — e o que as passagens têm a ensinar sobre escrita e vida.)
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