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terça-feira, 21 de julho de 2026

A importância do mistério para escritores e para a vida

Por que a busca pelo desconhecido ou a conexão com o mistério ainda molda quem escreve, quem lê e quem vive, mesmo na era das respostas prontas



Há uma pergunta que fica rondando quando a tecnologia promete resolver tudo em segundos: o que acontece com o mistério, essa força que sempre moveu escritores, culturas, cientistas e pessoas comuns, quando toda dúvida parece ter uma resposta pronta a um clique de distância? 

Este texto nasceu de uma tentativa de encontrar essa resposta, e no meio do caminho encontrou algo mais interessante: perguntas que não fecham, aliás, típico da natureza do mistério. Mas será que todas as perguntas precisam de resposta imediata?

Problema e mistério: uma distinção que muda tudo

Vários filósofos e pensadores, bem como mestres de culturas tradicionais abordam o problema do problema. Problema é aquilo que está diante de nós, algo sobre o qual podemos pensar, isolar, tentar resolver ou até descartar. Pode ser que tanto o problema como a solução tenham relação com nossa autoestima, capacidade de percepção, histórico pessoal ou desenvolvimento intelectual ou intuitivo. 

Bem, foi tratado acima (parcialmente) o assunto "problema". Agora vamos falar do outro.

Mistério é aquilo em que estamos envolvidos (ou que se apresenta), algo sem resposta imediata e sem solução a médio e longo prazo. 

O primeiro pode dissolver ou criar mais variantes quando abandonado. 

O outro se aprofunda justamente quando investigado, para isso, precisamos da "picada" da curiosidade. E paciência. E quem sabe, desfrutar do "maravilhamento" que o mistério nos proporciona. Não significa que será confortável ou desconfortável. 

Um problema resolvido pode eventualmente gerar outro problema, um mistério solucionado pode gerar outro mistério — parece uma piada de mau gosto, mas não é. 

Porém... Esses tipos de sutilezas, as IAs raramente captam. 

O que acontece quando ignoramos um problema

Descartar um problema costuma dar a falsa sensação de que ele desapareceu. Às vezes ignorar realmente resolve algo, mas na maioria das situações o problema continua lá existindo, apenas deixa de ser revisitado, mas continua latejando. Ele espera, entre as frestas da janela da alma ou da vida, até voltar a se impor, do mesmo tamanho, cobrando a atenção que lhe foi negada.

O que é, de fato, um mistério

O mistério carrega outra natureza. Nem mais tempo, informação ou técnica dão conta de esgotá-lo. A morte, a vida, o amor (entre tantos outros), a consciência seguem intocados, independentemente de quantos livros se escrevam sobre eles ou quantas gerações passem tentando decifrá-los. 

O convite do mistério é outro: habitá-lo, geração após geração, com boa dose de ousadia de não se ter pressa para resolver. 

Claro está, que quando se trata de saúde, o peso é outro, não é nada razoável ficarmos à mercê. 

O que as inteligências artificiais e outras tecnologias fazem com o mistério

Talvez o incômodo que tanta gente sente diante das inteligências artificiais nasça exatamente dessa distinção. As IAs funcionam, por construção, como máquinas de converter tudo em resposta rápida, que acabam trazendo (em boa parte) mais problemas (atualmente). Para quem está do outro lado da tela, toda pergunta feita para uma IA, o indivíduo recebe uma resposta — num abrir e fechar de olhos — entregue com confiança, sem hesitação, que deixa a pessoa surpresa e contente, acreditando que essa resposta é incontestável. 

Bem, e isso treina a mente humana a esperar resolução instantânea onde quer que vá ou esteja, onde antes havia permanência na dúvida (por vezes, necessária).

Isso impacta as relações, diminui a empatia, traz problemas sociais, nos perdemos em vieses cognitivos. 

Respostas fechadas

As respostas de uma inteligência artificial podem ser aprofundadas, reformuladas, questionadas de novo quantas vezes for preciso. 

A questão central mora no formato: uma resposta entregue pronta treina o hábito de buscar fechamento, e esse hábito acaba se espalhando para territórios que nunca foram feitos para fechar. 

Veja o vídeo do Leandro Karnal conversando com uma IA.

A peregrinação do não saber

A filosofia antiga e o modo de pensar oriental sempre valorizaram a capacidade de permanecer em incertezas, mistérios e dúvidas, sem sair correndo atrás de fato e razão. Como ter inteireza interna para conviver com perguntas sem respostas? As inteligências artificiais deixam a morte, o amor e a consciência tão intocados quanto sempre estiveram. O que elas de fato afetam é a experiência de buscar, a peregrinação do não saber, que era onde o mistério se fazia sentir no corpo. Será que as IAs têm coragem de deixar alguém no vácuo, no vão, no vazio? Tenho dúvidas. 

O mistério não está só lá fora

Existe uma ideia comum e um tanto simplista: a de que o mistério é algo externo, esperando para ser capturado por uma memória mais perfeita ou uma percepção mais aguda. O mistério também habita dentro, e isso depende do grau de atenção e de curiosidade de quem observa. 

Duas pessoas diante do mesmo fato podem viver experiências completamente diferentes: uma vê um problema à espera de solução, outra sente um mistério que se recusa a se fechar e quer conversar com ele. 

Primeiro vem a expressão de espanto — abre a boca, arregala os olhos e a garganta fica seca; daí você suspende a respiração, fecha os olhos e a boca, e entra em silêncio; quem sabe você sinta vontade de se retirar, se esconder diante dele. Essa descrição parece ter raízes etimológicas que confirma a origem do termo. 

*** 

Aquela frase clichê (parafraseando), que aqui até soa interessante: "Ao observar o Mistério, o Mistério também passará a observar você." 

Só que ele está em vantagem... Ele está lá todo pimpão sabendo de todo o seu poder. 

Ou não...

Será que o Mistério tem autoconhecimento suficiente para saber que ele é um mistério?


O vão entre o que se intui e o que se consegue dizer

O mistério mora também no vão entre o que se intui e o que se consegue dizer, entre o que se processa e o que se entrega, entre duas consciências que tentam se encontrar sem ter ferramenta que dê conta da travessia inteira. A mente humana sente mais rápido do que retém, enfim, não conseguimos reparar, apurar, absorver tudo o que nos rodeia; várias e várias coisas se perdem no meio do caminho.

A inteligência artificial retém de um jeito próprio, sem nada (ou sem respaldo ou consciência) por trás daquilo que retém. 

A percepção humana, por sua vez, entrega um esboço do mundo, deixando o resto como horizonte, aquilo que se pressente, mas não se apreende de uma vez, variando conforme o tempo, o lugar e a circunstância de quem percebe.

Fragmentos que não se costuram

Mistério é, sim, aquilo que não sabemos. Parece óbvio, mas nem todos compreendem assim. A diferença está em que tipo de não saber: nenhuma quantidade de memória, humana ou artificial, transforma esse não saber em saber, porque o obstáculo é de natureza, não informacional. 

Esse obstáculo também depende da circunstância, do espaço, do tempo e da capacidade real de identificar o mistério, já que existem mistérios profundamente subjetivos; enigma para uma pessoa e fato resolvido para outra.

Por que uma pista destruiria o mistério

O mistério vive de fragmentos vistos e sentidos que se recusam a virar fio. Cada peça está ali, parcialmente iluminada, percebida, sentida, sem se costurar à peça seguinte. Uma costura geraria uma pista. Uma pista abriria um caminho. E todo caminho leva a uma explicação, que já pertence ao território do problema em vias de solução. A ausência de conexão entre os fragmentos preserva a coisa como mistério.

A ponte como imagem central

Entre a margem da ignorância total e a margem da revelação plena, o mistério se sustenta como a própria travessia, uma ponte que ela mesma determina o tempo de atravessar. O mistério é a ponte, a travessia e escolhe a quantidade de tempo. 

O quase-assombro

Esse acúmulo de fragmentos que não se explicam produz um efeito muito particular: o quase-assombro, o limiar do espanto, o instante suspenso antes de uma queda que nunca vem. Em alguns casos, nós temos que conviver com isso por anos e anos, talvez toda uma vida. 

Devoradoras de mistério, ou não (ainda bem!)

As inteligências artificiais conseguem funcionar como devoradoras de mistério, entregando tudo pronto, fechado, digerido. 

Isso depende de quem está do outro lado da tela. 

Alguém com coragem e disposição pode receber a resposta de uma IA e, ao lado dela, num caderno, num arquivo no computador ou no bloco de anotações do celular, registrar sua própria impressão pessoal daquilo. Esse pequeno gesto muda tudo. A IA não precisa saber o que você pensou, pressentiu, intuiu ou percebeu — guarde com você. 

O gesto de anotar a impressão pessoal ao lado da resposta

A inteligência artificial parece resolver, mas apenas troca um tipo de vão por outro: o vão humano, orgânico, sentido no corpo, pelo vão algorítmico, sem corpo, sem emoção, igualmente incompleto.

Escrever a própria impressão ao lado da resposta pronta recupera o corpo dentro do processo e lembra que uma resposta tecnicamente completa não esgota a experiência de quem pergunta.

O mistério como motor da cultura

Se o mistério fosse só desconforto, a espécie humana teria aprendido a evitá-lo, pouca dúvida tenho sobre isso. A humanidade fez o caminho inverso: perseguiu o mistério, construiu culturas inteiras e complexas ao redor dele, e continua fazendo isso. Esse é o seu papel.

Curiosidade, arte que se revisita, humildade intelectual

O mistério move a curiosidade, a busca por informação, a profundidade emocional que certas experiências carregam. Move também o retorno à mesma obra de arte, ao mesmo mito, ao mesmo poema, ano após ano, porque eles nunca se esgotam numa única leitura. 

E exige, de quem o encara com honestidade, uma humildade intelectual difícil de sustentar: admitir que uma pergunta pode não se fechar nunca.

Mitos, lendas e enigmas como amálgama social

Mistérios compartilhados, sejam lendas, mitos, conspirações ou enigmas, unem pessoas na busca coletiva. A história humana se tece em narrativas sobre o desconhecido. Tirar o mistério de uma cultura equivale a tirar a aderência que mantém comunidades inteiras coesas ao redor de uma pergunta comum.

Liberdade interpretativa versus controle

Onde há mistério, há espaço para múltiplos pontos de vista convivendo lado a lado. 

Isso incomoda quem busca controle, porque ambiguidade é difícil de administrar, e ao mesmo tempo sustenta quem busca liberdade, porque ela permite que cada pessoa encontre seu próprio sentido dentro da mesma pergunta.

Além disso, sempre é bom lembrar: nem tudo depende de nós, independentemente das nossas escolhas. 

Para quem escreve

O mistério como matéria-prima da escrita

Para quem escreve, o mistério funciona como matéria-prima; não subestime a capacidade do leitor/a. Um texto que fecha todas as pontas, que explica cada gesto de cada personagem, que não deixa nenhum fragmento solto, tende a se esgotar na primeira leitura, principalmente se o escritor/a estiver disposto a criar uma série. Um texto que preserva algum vão, convida o leitor a voltar, a habitar aquela história por mais tempo do que a duração da leitura. 

Um exercício concreto para colocar isso em prática: pegue uma cena já escrita e localize o momento em que você explica demais, por exemplo, a razão do gesto de um personagem, o motivo exato de uma escolha, o desfecho de um sentimento. Retire essa explicação e deixe apenas o gesto, a escolha, o sentimento, sem justificativa. Leia a cena de novo depois de um dia e observe se ela ganhou densidade em vez de perder clareza. Claro, isso irá depender de como você irá conduzir a narrativa até o final da sua obra, afinal de contas, clareza é muito importante num livro. O mistério pode funcionar ali dentro do próprio texto, sustentando um vão sem precisar preenchê-lo. Tente. 

Para a vida

Manter espaço para o mistério na vida cotidiana vai muito além. Esse estado de abertura estimula a criatividade, porque a mente que aceita conviver com perguntas sem resposta imediata segue gerando associações novas, em vez de se acomodar na primeira explicação disponível. Fortalece também o sistema cognitivo: a tolerância à ambiguidade caminha junto com maior flexibilidade mental, memória mais ativa e raciocínio menos automático. 

Um exercício simples para experimentar esse estado: escolha, uma vez por semana, uma pergunta pessoal sem resposta pronta, por exemplo, por que uma lembrança específica volta sempre, e resista à tentação de resolvê-la de imediato. Anote a pergunta num caderno, sem buscar resposta em livros, sites ou conversas. Volte a ela depois de alguns dias e registre apenas o que mudou na forma de senti-la, não uma solução para ela. Repetir esse gesto treina a permanência na dúvida como músculo, não como desconforto a eliminar.

Grata pela companhia nesta travessia.

Clene Salles



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segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Inocente: o arquétipo que confunde ingenuidade com um jeito de estar no mundo

Um mergulho no arquétipo do Inocente: suas características, seus conflitos, e o que ele carrega e não revela.


O arquétipo do Inocente une confiança, otimismo e simplicidade. Veja suas características, exemplos de personagens inocentes na literatura e no cinema, conflitos e como aplicar esse arquétipo na escrita de personagens marcantes.




Existe uma cena que se repete em incontáveis histórias, e você já viu essa cena, mesmo sem ter prestado muita atenção ou ficar na dúvida em como identificá-la e, tampouco, entender a motivação. Alguém confia, mesmo depois de ter motivos de sobra para não confiar mais. Alguém insiste em ver o lado bom, mesmo cercado por evidências do contrário. E o leitor sente duas coisas ao mesmo tempo: vontade de proteger e um aperto no estômago, porque já sabe que algo vai doer.

Esse alguém é o arquétipo do Inocente. E ele é bem mais complexo do que a palavra "ingênuo" sugere.


Reforçando o conceito de arquétipo

Antes de entrar no Inocente propriamente dito, vale reforçar do que estamos falando quando dizemos "arquétipo".

Carl Jung, ao estudar mitos, contos de fadas e símbolos de culturas completamente distintas entre si, notou algo curioso: os mesmos padrões de comportamento e de personalidade se repetiam, independentemente de época ou lugar. Ele chamou isso de inconsciente coletivo, um repertório psíquico compartilhado por toda a humanidade, do qual emergem figuras recorrentes, os arquétipos.

Um arquétipo não é um personagem pronto. É um padrão, uma energia, uma forma de estar no mundo que qualquer personagem, ou qualquer pessoa real, pode expressar em maior ou menor grau. Por isso um mesmo arquétipo aparece em Frodo Baggins, em Forrest Gump e na sua vizinha que ainda acredita que todo mundo merece uma segunda chance. Formas diferentes, mesma energia por baixo.

Para quem escreve, entender arquétipos não é sobre encaixar personagens em gavetas fixas. É sobre reconhecer a energia que move cada um deles, para então construir gente de verdade em cima disso, com contradição, historia e peso.


O arquétipo do Inocente

O Inocente é, na maioria dos sistemas de arquétipos usados na escrita e na psicologia (incluindo o modelo de doze arquétipos de Carol Pearson, hoje uma referência central no assunto), o ponto de partida da jornada. 

É o arquétipo da fé na bondade fundamental da vida, do desejo de segurança, simplicidade e pertencimento. O Inocente seja, talvez, aquele que ainda não fez as pazes com a complexidade do mundo, porque se machucou muito ou não tenha encontrado boas razões para isso. 

Os medos mais profundos do Inocente não é a morte, nem o fracasso, ele entende que a vida é feita de altos e baixos como ninguém. Ele teme o abandono (e é o que sempre acontece). O inocente sabe que jamais será verdadeiramente amado. Teme receber a culpa, ser punido ou traído por algo que ele nem sabia que tinha feito de errado. Que seus planos e projetos virem nada. 

Principais características

  • Confiança quase automática nas pessoas e nas intenções alheias.
  • Otimismo genuíno, não algo aprendido ou decorado. O Inocente não finge acreditar que vai dar certo, ele de fato acredita.
  • Simplicidade na forma de enxergar situações complexas, o que pode ser tanto uma virtude quanto uma cegueira.
  • Desconforto profundo diante de conflito, ambiguidade moral ou dubiedade nas pessoas.
  • Uma espécie de vontade de manter as coisas como estão, mas possui uma resiliência instintiva à mudança.
  • Bondade que não é estratégica, ele é gentil porque essa é a sua natureza, não porque calculou vantagem nisso.
  • Capacidade de encantamento fácil diante do mundo, um jeito de se maravilhar que outros arquétipos já perderam.


O Inocente na literatura e no cinema

Poucos arquétipos atravessam tão bem culturas e séculos quanto este.

Na literatura, Cândido, de Voltaire, é talvez um bom exemplo: um jovem otimista que atravessa guerra, naufrágio, terremoto e traição sem largar a crença de que vive no melhor dos mundos possíveis, até a realidade cobrar seu preço. Frodo Baggins, em O Senhor dos Anéis, é o Inocente clássico: seu único desejo é que o Condado continue como sempre foi, e sua jornada nasce justamente da perda dessa segurança.

No cinema, Forrest Gump é provavelmente a expressão mais citada do arquétipo, um homem cuja simplicidade de olhar contrasta com décadas de acontecimentos históricos complexos, e que, apesar disso (ou por causa disso), toca a vida de todos ao seu redor. Dorothy, em O Mágico de Oz, atravessa um território estranho sem nunca perder a fé de que existe um caminho de volta para casa.

Vale notar uma coisa importante nesses exemplos: o Inocente raramente permanece intocado até o fim. A boa escrita costuma testar essa inocência até o limite, porque é nesse teste que a história ganha peso.


Função narrativa do Inocente

Por que as histórias precisam desse arquétipo?

Primeiro, porque o Inocente funciona como um espelho comportamental e, talvez, alguma bússola moral. Ao ver o mundo sem os filtros cínicos que os outros personagens já desenvolveram, ele expõe contradições, hipocrisias e injustiças que passariam despercebidas aos olhos de alguém mais "experiente". É como a criança que pergunta o óbvio e desmonta o argumento adulto.

Segundo, porque ele carrega esperança dentro de narrativas duras. Numa trama sombria, o Inocente é o contraponto que lembra ao leitor que ainda existe algo a se preservar.

Terceiro, porque sua transformação (ou sua dificuldade em se transformar) é, em si, uma das jornadas mais universais que existem: a passagem da inocência para a experiência. Toda pessoa já viveu uma versão pequena dessa travessia.


Desafios e conflitos do Inocente

Na mão de quem o Inocente sofre

O Inocente costuma sofrer nas mãos de quem entende exatamente como a confiança dele funciona, e decide explorá-la. Manipuladores, golpistas, figuras de autoridade que abusam da posição, todos encontram no Inocente um terreno fértil, porque ele demora a admitir que alguém possa estar agindo de má-fé. A traição, quando vem, machuca mais fundo justamente porque ele não a viu chegar, e nem queria vê-la.

Quem sofre na mão do Inocente

Existe um lado que costuma passar despercebido: o Inocente também pode causar dano, sem intenção alguma. Sua recusa em enxergar a complexidade de uma situação pode machucar quem depende dele para agir com mais discernimento. 

Um Inocente que insiste em confiar numa pessoa perigosa pode expor terceiros a esse perigo. Um Inocente que evita o conflito pode deixar alguém sem defesa numa disputa que precisava ser enfrentada. A inocência, levada longe demais, deixa de ser inofensiva.

Isso é relevante para quem escreve, porque cria uma camada moral (ou ética) interessante: o personagem que machuca sem querer, só de tanto insistir em não ver.

O que o Inocente não sabe lidar

O Inocente costuma travar diante de:

  • Ambiguidade moral, situações em que não existe um lado claramente certo.
  • Conflito direto, ele prefere evitar o confronto a enfrentá-lo.
  • Traição e desonestidade, que desmontam a estrutura básica com a qual ele entende o mundo.
  • Perda da sensação de segurança, mesmo quando essa segurança nunca foi tão sólida quanto parecia.


O que o Inocente vê, mas não conta pra ninguém

Aqui mora talvez a camada mais interessante deste arquétipo, e a que menos se explora.

O Inocente não é, necessariamente, alguém que não percebe as coisas. Muitas vezes ele percebe, sim, a maldade, a mentira, o defeito na pessoa amada, a rachadura na situação perfeita. Só que guarda isso para si, porque admitir em voz alta significaria abrir mão da própria estrutura de crença, e isso custa caro, dói demais.

Essa é uma diferença sutil e detém poder significativo na hora de escrever: existe o Inocente que genuinamente não vê, e existe o Inocente que vê, e escolhe não contar, nem para si mesmo. O segundo tipo é mais complexo, mais humano, e cria um narrador (ou personagem) muito mais rico, porque o leitor pode perceber, nas entrelinhas, o que o próprio personagem se recusa a admitir.


Não é a aparência, é o jeito de falar e lidar com a vida

Um erro comum ao escrever o Inocente é reduzi-lo a uma estética: roupas claras, aparência frágil, jeito infantilizado. Isso não define o arquétipo. O que define o Inocente é o modo como ele fala (frases diretas, sem ironia, sem segundas intenções) e o modo como ele lida com o que a vida apresenta (com confiança, sem cálculo, sem cinismo).

Dito isso, também é comum, sim, encontrar Inocentes com vestimentas simples e costumes singelos, e essa simplicidade acaba, por vezes, causando surpresa em quem espera outra coisa. Mas isso é consequência, não definição. Um Inocente pode estar num terno caro, numa sala de reunião, dizendo a verdade mais desconfortável da reunião sem perceber que não devia. O que trai o arquétipo não é o figurino, é a ausência de filtro cínico.


Relação com outros arquétipos

O Inocente ganha profundidade quando colocado ao lado de outros arquétipos, porque o contraste revela o que cada um é.

Diante do Órfão, que já perdeu a inocência e aprendeu (às vezes de forma dura) a desconfiar do mundo, o Inocente parece quase infantil, e é justamente esse choque que costuma gerar boas tramas.

Diante do Sábio ou da Mulher Sábia, que busca a verdade através da razão e da experiência acumulada, o Inocente busca a verdade através da fé e da simplicidade. Um confia no que sabe, o outro confia no que sente.

Diante do Governante, que constrói estrutura e controle para manter o caos afastado, o Inocente é quase o oposto: ele não constrói defesa nenhuma, porque não acredita que precise.

E diante do Bobo da Corte, o parentesco é mais próximo do que parece. Os dois recusam o cinismo, os dois preservam uma leveza que outros arquétipos já perderam. A diferença é que o Bobo escolhe essa leveza como estratégia consciente de sobrevivência, enquanto o Inocente simplesmente não conhece outro jeito de estar no mundo.


Vida prática do Inocente

Problemas materiais e financeiros

Aqui existe uma bifurcação interessante. Alguns Inocentes enfrentam dificuldades financeiras justamente por confiarem demais, em pessoas, em negócios, em promessas que não deveriam ter aceitado sem questionar. Outros, no entanto, vivem numa redoma de conforto material que nunca foi testada, e é exatamente essa falta de teste que os mantém inocentes por tanto tempo. A escassez, quando aparece na vida do Inocente, costuma ser o primeiro empurrão para fora do Éden.

A dificuldade em manter laços de amizade verdadeiros

Por mais que o Inocente atraia afeto com facilidade (sua abertura é convidativa e é real, porque são definitivamente muito afetivos), manter amizades profundas e duradouras costuma ser um desafio. Isso acontece porque amizade verdadeira exige, em algum momento, atravessar desacordo, mágoa e reparação, e o Inocente tende a evitar exatamente esse tipo de atrito. O resultado é, com frequência, um círculo social amplo, mas raso, muitas pessoas que gostam dele, poucas que o conhecem de fato, porque ele mesmo nunca deixou ninguém entrar tão fundo assim.

Histórico familiar: possibilidades e surpresas que rompem o padrão

O senso comum sugere que o Inocente vem de uma infância protegida, sem sobressaltos. E, de fato, esse é um caminho possível. Mas existe uma exceção que rende personagens muito mais interessantes: o Inocente que atravessou uma infância dura, e mesmo assim escolheu (ou desenvolveu, quase como mecanismo de sobrevivência psíquica) essa fé na bondade da vida. Esse tipo de Inocente carrega uma camada de resistência silenciosa que o torna muito mais complexo do que o estereótipo do protegido de berço.

Profissões típicas

O Inocente costuma se encaixar bem em profissões ligadas ao cuidado, ao ensino infantil, à arte, à espiritualidade, ao voluntariado, a áreas onde a fé na bondade humana é, na verdade, uma ferramenta de trabalho. Também aparece com frequência em ambientes mais protegidos ou familiares, negócios de família, pequenas comunidades, onde o mundo exterior mais hostil demora a bater à porta.


Crenças, valores e referenciais do Inocente

O Inocente acredita, no fundo, que o mundo é seguro e que as pessoas são, em essência, boas. Valoriza a simplicidade, a honestidade direta, a lealdade e a manutenção do que já funciona. Seus referenciais tendem a vir de figuras que representam pureza e continuidade (uma mãe, uma tradição, uma fé religiosa, um lugar de origem idealizado), mais do que de figuras que representam ruptura ou reinvenção.

É esse conjunto de crenças que sustenta o arquétipo, e é exatamente esse conjunto que, quando testado pela narrativa, produz as histórias mais duradouras sobre o assunto: o que sobra de nós quando a inocência não segura mais o peso do mundo, e o que, ainda assim, decidimos preservar.

Claro, nem todas as características do Arquétipo do Inocente foram descritas, se eu fizesse isso, viraria um capítulo de um livro (risos). Mas você já tinha parado para pensar o quanto que os arquétipos enriquecem a história? E nas variantes possíveis? Ou viradas que podem surpreender o leitor/a? 

Dê uma busca no lado direito da sua tela: aqui no Blog ECS há mais artigos sobre arquétipos. 



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domingo, 21 de junho de 2026

Escrevendo com os cinco sentidos, o sexto e o sétimo também

Como usar os sentidos na escrita para criar textos que o leitor sente, não apenas lê.



Tem um tipo de leitura que acontece no corpo. Você está lendo e de repente sente o cheiro de terra molhada dentro da cena, ou a aspereza de um tecido que o texto nem descreveu direito, mas que você jura que tocou. Algo no texto ativou uma memória sensorial que você nem sabia que estava guardada. E mais, o autor dá uma pista falsa para que você "intua" que irá para um lado "x" ou "y" e, para sua surpresa, você acerta. 

Isso não é coincidência. É o que o cérebro faz com linguagem quando ela é construída com precisão sensorial: ele reconhece, reencena, sente.

E é exatamente isso que separa um texto que informa de um texto que permanece.


O que acontece quando lemos com o corpo

O cérebro não processa linguagem sensorial de forma abstrata. Quando você lê "o café estava quente demais e queimou o canto da boca", as regiões associadas à temperatura e à dor se ativam, mas não com a mesma intensidade de queimar a boca de verdade, mas com o suficiente para criar uma experiência real. Os neurocientistas chamam isso de simulação incorporada: o leitor não imagina a cena, ele a habita brevemente.

Isso significa que quando um escritor escolhe palavras com carga sensorial, não está decorando o texto. Está criando condições para que o leitor viva o que está sendo narrado.

A consequência prática é direta: quanto mais o texto aciona os sentidos, mais profundo é o rastro que deixa.


Os cinco sentidos na escrita

Cada sentido tem um peso diferente na página, e um risco diferente quando mal usado.

A visão é o sentido mais explorado e, por isso, o mais fácil de usar mal. Descrever o que se vê não é suficiente: é preciso selecionar o detalhe que carrega significado. Um rosto não é descrito inteiro, é o jeito como a pessoa desvia o olhar que diz tudo.

A audição é o sentido do ritmo e do silêncio. O escritor que ouve o próprio texto percebe quando uma frase arrasta, quando uma palavra bate errado, quando o parágrafo precisa de uma pausa. Sons dentro da cena, por exemplo, o rangido de uma porta, o volume baixo de uma televisão no quarto ao lado, criam localização.

O olfato é o sentido da memória involuntária. Um cheiro bem colocado no texto é um atalho direto para a parte do cérebro que processa emoção e memória. O cheiro de naftalina numa gaveta diz mais sobre o passado de uma personagem do que três parágrafos de explicação.

O paladar é o sentido mais íntimo e, talvez por isso, o menos usado. Quando aparece com precisão — a acidez metálica do medo, a aparente doçura, que por fim se torna gordurosa de um afeto que sufoca — cria uma proximidade imediata com o leitor.

O tato é o sentido do contato com o mundo. Textura, temperatura, pressão, resistência. É também o sentido do próprio corpo: a tensão nos ombros que endurece o pescoço, o peso das pálpebras, uma folha solta que rodopia numa ventania e que, por sua vez, esbarra no braço e causa arrepios, o nó na garganta que a personagem jura que apenas irá chorar sozinha em casa, ali jamais.


O sexto sentido: intuição

A intuição(*) na escrita não é exatamente mística, é a soma de vários fatores e eventos. É o reconhecimento rápido que vem de ter lido muito, escrito muito, errado muito. O escritor que desenvolveu esse sentido sabe quando uma cena está errada antes de conseguir explicar por quê. Sente quando um personagem tomou uma decisão que não é dele. Percebe quando o texto está performando uma emoção em vez de vivê-la.

Diferente dos cinco sentidos, a intuição não aponta para fora, ela sinaliza para a coerência interna do texto. É o sensor que detecta falso mesmo quando tudo parece certo na superfície.

E ela se desenvolve. Não com fórmulas, mas com atenção: prestar atenção no que incomoda sem saber nomear, no impulso de apagar uma frase antes de relê-la, no momento em que algo cede e o texto finalmente respira. Esses sinais são a intuição trabalhando.

(*) Intuição é a capacidade de chegar a uma conclusão ou percepção sem passar pelo raciocínio consciente, a resposta chega antes do processo. Neurologicamente, é o cérebro processando padrões acumulados em velocidade tão alta que a consciência não acompanha os passos, só recebe a conclusão.

O sétimo sentido: o que o corpo sente por dentro

Aqui chegamos ao menos óbvio dos sete.

Os neurocientistas chamam de interocepção a capacidade de perceber o que acontece dentro do próprio corpo: o coração que acelera antes de uma notícia, o peso no peito quando algo não está certo, o relaxamento nos ombros quando finalmente chega o alívio, uma sensação de bem-estar ao saber que estará, em breves momentos, caminhando em meio ao campo florido. Não o que você vê ou ouve, mas o que você sente internamente.

Na escrita, a interocepção é o que permite que uma personagem sinta o medo antes de entender que tem medo. É o que cria verdade emocional: não dizer "ela estava nervosa", mas escrever o que o corpo dela estava fazendo enquanto a explosão da crise estava prestes a acontecer.

E há uma dimensão ainda mais direta para o escritor: o seu próprio corpo enquanto você escreve. Quando uma frase está errada, muitos escritores sentem antes de ver um leve desconforto, uma resistência difícil de identificar. Quando está certa, algo cede. Aprender a reconhecer esses sinais é desenvolver o sétimo sentido da escrita: a escuta do próprio corpo como instrumento de revisão.


Cinco exercícios práticos

1. A cena de um minuto Escolha um lugar onde esteve recentemente. Escreva uma cena de um minuto nesse lugar, mas proíba-se de usar o verbo "ver" e qualquer palavra diretamente visual. Force os outros sentidos a carregarem a cena. Depois releia e observe quais detalhes ficaram mais vivos. 

Aqui um artigo que fala sobre reler o próprio texto.

2. O objeto com história Pegue um objeto qualquer que tenha alguma memória associada — uma chave, um copo, um lenço. Escreva sobre ele usando pelo menos três sentidos diferentes. Depois acrescente um parágrafo descrevendo como o seu corpo reage ao segurar esse objeto. Isso é interocepção na prática.

3. A emoção sem nome, sem etiqueta Escreva uma cena em que uma personagem sente uma emoção intensa — raiva, amor, medo, nojo, tristeza, alegria — sem usar o nome da emoção em nenhum momento. O leitor precisa identificá-la apenas pelo que o corpo da personagem faz e pelo que ela percebe ao redor. Esse é um dos exercícios mais difíceis, eu sei, mas entrega muito ao leitor/a. 

4. O reescritor sensorial Pegue um parágrafo seu antigo, busque aquele que pareça explicativo demais. Releia e marque cada frase que conta algo. Reescreva cada uma dessas frases mostrando o mesmo conteúdo através de detalhe sensorial. Compare os dois parágrafos e observe onde a resistência foi maior.

5. O diário do sétimo sentido Por uma semana, ao final de cada sessão de escrita, anote brevemente: o que você sentiu no corpo enquanto escrevia? Havia tensão? Fluxo? Em que ponto algo cedeu? Em que ponto você travou? Não é análise, são registros para seu futuro. Aliás, um dia qualquer você pode escrever sobre isso. Com o tempo, você começa a reconhecer os sinais que o seu próprio corpo envia sobre o que o texto precisa. 

Recomendo escrever sempre (mesmo sem vontade); este artigo aqui pode ajudar.


Escrever com os sentidos é uma técnica para capturar a atenção do leitor, além disso, respeitá-lo. Em vez de pedir que ele acredite no que você conta, você cria as condições para que ele sinta por conta própria.

O texto que fica é sempre aquele que o corpo lembrou antes que a mente percebesse. 


Logo abaixo, as explicações científicas para os sentidos humanos :) 

O ser humano possui dez sentidos principais que vão muito além dos cinco tradicionais que aprendemos na escola. Os primeiros são os sentidos exteroceptivos, que captam o mundo externo. A visão processa a luz e as cores através dos olhos, enquanto a audição traduz as vibrações do ar em sons por meio do sistema auditivo. O olfato reconhece moléculas químicas dispersas no ar pelo nariz, trabalhando em conjunto com o paladar, que identifica os sabores básicos na língua. O tato fecha esse grupo tradicional, registrando o contato físico e texturas por meio de receptores na pele.
Em seguida, entramos nos sentidos interativos e de posicionamento. O sistema vestibular, localizado no ouvido interno, funciona como o sentido do equilíbrio e da orientação espacial. A propriocepção atua como a consciência corporal interna, permitindo que o cérebro saiba exatamente onde os músculos e articulações estão posicionados sem que você precise olhar para eles. A interocepção avalia o estado dos órgãos internos, sendo responsável por avisar o cérebro sobre a fome, a sede, o cansaço e os batimentos cardíacos. Há também a termocenção, que é a capacidade exclusiva de detectar variações de temperatura externa e interna, e a nocicepção, o sentido especializado em registrar e enviar sinais de dor física para o cérebro como mecanismo de defesa.
Por fim, a intuição completa essa lista quando adaptada pela neurociência. Cientificamente, ela não é um poder místico, mas sim o sentido do processamento preditivo inconsciente. O cérebro funciona como uma máquina de prever o futuro imediato, cruzando milhares de memórias, microexpressões e padrões ambientais em milissegundos. Antes mesmo que a mente consciente perceba o perigo ou a oportunidade, esse supercomputador biológico envia uma resposta física imediata pelo corpo, gerando aquele famoso frio no estômago ou um aperto no peito, servindo como um alerta rápido para a tomada de decisões. 





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domingo, 7 de junho de 2026

O Que Você Vê Sem Saber Que Viu — Como Isso Transforma a Sua Escrita

O que está entre as linhas da vida, e o que isso pode fazer pelo seu texto

Há coisas que o texto pode dizer sem etiquetar. Este artigo é sobre afinar o olhar — porque o que você vê, e como vê, é o que difere um texto do outro.




"Nas refeições engolia antes de mastigar. Assim que o prato ficava vazio, ruborizada, abaixava os olhos até que o queixo quase esbarrasse no osso esterno; depois se esforçava para manter na memória o aroma daquela comida. Aprendeu a registrar e catalogar outros cheiros: das pessoas, da natureza, do ar, do asfalto diurno e noturno, e também o cheiro do nada que tenta se esconder.   

Os amigos eram os que a escolhiam; ela aceitava sem critérios, e chamava isso de sorte. 

Olhava seus pés ressecados e sujos, e pensava: Que importa? Eles sentem quando o chão irá tremer. 

Escrevia o nome no vidro embaçado do restaurante, da doceria, da livraria, antes que a enxotassem. Fazia com que seus pulmões expelissem ar quente e úmido, e por apenas alguns segundos, seu nome ficaria ali.

Quando alguém se aproximava o coração acelerava, e ela já ensaiava o que diria, o que responderia, como sobreviveria à conversa. A saliva espessava. Uma frase errada poderia levar ao resultado de sempre. Sorria, mas os músculos ao redor dos olhos ficavam tensos, um sorriso incompleto, a felicidade poderia ser apenas um sonho ou o mais provável: um perigo.

Crianças num parque de diversão lhe causavam um tremor nas mãos e pernas, e também um frio, uma suspensão no estômago, e que piorava ao tentar admirar o algodão doce sendo embalado ou durante a expressão convidativa da vendedora de lanches.

Ao receber algo não pegava exatamente para si, apenas cuidava devagar, escondia, deixava estragar sem usar, era interessante lembrar que estava lá, intacto. 

Quando amava alguém esperava, quieta, que em breve fosse desaparecer, era sempre assim, afinal, um raso colapso qualquer a levaria embora; a mesma coisa com outros objetos ou promessas. 

Estudar custava o que não havia, então aprendeu nos intervalos, nas sobras, nos subempregos, através dos livros descartados; fossem os descartes por abandono ou por preconceito.

O salário, minguado, doía; era ferida exposta ter que bancar seu quarto, gastar era uma forma de acabar, aquele dinheiro era testemunha dos vãos, do vazio maçante sem fim. Mas a fome não conhece economia.

Com dificuldade, compreendeu que o amanhã era possível, desconhecia se havia nele alguma coisa que se pudesse chamar de vida, talvez o mais coerente fosse apenas sobrevivência. 

Em reuniões, quando alguém perguntava sobre a família, sobre as origens, ela apertava os olhos e contraía a mandíbula, mordiscava os lábios para que a resposta não saísse através de lágrimas quentes. Demorava alguns segundos. 

Sentada numa mesa de mogno, muitos anos depois, segura a caneta tinteiro enquanto vê refletida a sua imagem no tampo de vidro azulado. Hesita antes de assinar. Pensa nas mãos que cortaram a madeira, nas que poliram o vidro, nas que fundiram o metal da caneta, nas que colheram a cana, secaram a tinta — quantas mãos trabalharam antes que as suas chegassem ali. Olha para o relógio: ele marca 23h45, por hoje, ainda não chega. Seus pés não estão mais sujos como antes, agora estão gelados, tornozelos inchados; mas continuam desconhecendo a próxima direção."

©Clene Salles


Em nenhum momento desse trecho apareceu a palavra órfã ou outras "etiquetas" possíveis.


É o que está nas entrelinhas: não o que falta, mas o que sobrou de uma experiência que não cabe em declaração direta. O que antecede cada gesto, escolha, detalhe, silêncio. O que opera por baixo da superfície, antes da frase, no meio dela, e ainda depois que ela acabou, e tudo isso respeitando a verossimilhança.

O escritor que aprende a enxergar isso não precisa "etiquetar" seus personagens. Não precisa nomear o que ficou, explicar o comportamento, sublinhar o sentimento. Ele coloca na cena o que o corpo já sabe — e o leitor reconhece antes de entender. Sente antes de processar.

Mas para colocar na cena, é preciso primeiro ter visto.


Ver nas entrelinhas... Não se aprende em cinco passos, não se treina com exercícios de observação forçada. É, antes de tudo, uma disposição. Sentir. Intuir. Não julgar. Absorver. Um olhar relaxado — não tenso, não analítico, não em busca de provas. O corpo e a mente abertos ao que está acontecendo por baixo do que está acontecendo.

Quem tenta capturar entrelinhas com esforço geralmente captura só a superfície com mais detalhes. O esforço fecha. A disponibilidade abre.

O que alimenta esse olhar é simples e difícil ao mesmo tempo: estar presente sem agenda. Deixar que o que é pequeno chegue sem ser descartado. A taquicardia de quem conversa com alguém diferente. Os ombros que encolhem um pouco mais do que o necessário. O sorriso que não chega aos olhos; não porque a pessoa é falsa, mas porque algo nela está guardado com muito cuidado. O nó na garganta quando alguém pergunta, já adulto: e seus pais?

Nada disso precisa de legenda. Precisa de um escritor que não passou rápido demais do que a vida e a imaginação mostram. 

Para desenvolver esse olhar — e levá-lo para o texto — o que segue não são exercícios de escrita. São cenas para estimular a percepção e a escrita criativa. O que se pede não é descrever o que se vê, mas perceber o que não foi dito, o que ficou suspenso, o que o espaço e os corpos sombreiam sem anunciar. 



Exercício 1:

Um hospital, horas depois de um acidente com muitas vítimas.

O barulho já baixou um pouco. As macas mais urgentes passaram. O que ficou é outro tipo de caos — o das pessoas que esperam sem saber o que esperam.

O que observar: quem está organizado demais, fazendo ligações, resolvendo coisas — e por que esse controle é a única forma de não desabar. Nesse ambiente (e tantos outros, compreendemos, por fim, sobre interdependência).

Quem pergunta pela terceira vez a mesma coisa para a mesma enfermeira. A criança sentada quieta num canto que não chora e não pergunta nada. O médico que desvia o olhar um segundo antes de falar. A mãe que já sabe a resposta pelo rosto de quem se aproxima, e mesmo assim pergunta.

Outros campos possíveis: uma delegacia de madrugada. Um aeroporto com voo cancelado sem previsão. A inspeção de uma casa abandonada. 


Exercício 2:

Um asilo, na manhã seguinte ao dia de visita aberta.

As famílias foram embora. O que ficou é o depois — e o depois tem uma qualidade diferente de qualquer outra hora do dia.

O que observar: a cadeira que ficou no lugar errado e ninguém moveu ainda. O velho que não saiu do quarto durante a visita toda. A que ficou na janela depois que o filho foi embora e ficou assim até o jantar — não triste, exatamente, mas acomodada a uma distância que já tem forma. A funcionária que distingue, sem precisar pensar, quem vai ter visita semana que vem e quem não vai.

Outros campos possíveis: uma escola depois que os pais foram embora na primeira semana de aula. Um porto depois que o navio partiu.


Exercício 3:

Um homem no campo, numa quarta-feira de verão. A terra está agrietada.

Não é segunda, que ainda tem o impulso do começo. Não é sexta, que já pressente o descanso. É quarta-feira — o meio que não promete nada, que só exige duramente que se continue.

O sol está alto. A terra rachada não é metáfora: é o chão mesmo, partido de sede, que ele pisa todo dia. O corpo dele já sabe os movimentos sem precisar pensar. As mãos sabem. Os pés sabem. A cabeça pode estar em outro lugar — e provavelmente está.

O que observar: onde vai o olhar de um homem quando o corpo trabalha sozinho. O que significa parar um segundo, olhar para o horizonte, e voltar. O silêncio que não é paz, é resistência. A diferença entre um homem que ainda acredita na chuva e um que parou de esperar por ela.

Outros campos possíveis: uma costureira em linha de produção numa tarde de quinta-feira. Um pescador voltando sem peixe.

***

As entrelinhas estão em todo lugar. Em qualquer cena, pessoa, evento, hora do dia ou da noite. O que muda é se o escritor estava disponível para vê-las — antes de sentar para escrever.

O texto que só você pode escrever não nasce somente através de técnicas. Nasce também do que você foi capaz de ver quando apenas poeira pairava no ar. 


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😊 Como sempre eu falo: tome ou deixe, fique com aquilo que faz sentido para você; apenas compartilho aqui no Blog o que percebo que faz um texto ganhar mais vida, e talvez, o leitor se emocionar. 😉 

📚🖉📖




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