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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Pela Fresta Te Vi, de Cesar de Mello Campos (Poética Sincera do Cotidiano)

 "Pela Fresta Te Vi – Relatos em Dois Tempos", de Cesar de Mello Campos, é um livro que se abre como uma janela entreaberta: não revela tudo de uma vez, mas convida o leitor a espiar, a sentir o vento que entra pela fresta, a pressentir o que está além do visível (porém, está no psíquico). É uma obra que se constrói na tensão entre o dito e o não dito, entre o que se mostra e o que se esconde, entre o que somos e o que poderíamos ter sido.





A Fresta como Metáfora

A "fresta" do título não é apenas uma abertura física, mas um espaço de ambiguidade, de dúvida, de revelação parcial. Cada conto, cada personagem, é uma fresta por onde espreitamos a complexidade humana: a crueldade e a ternura, a arrogância e a fragilidade, a certeza e o desamparo. Os relatos são como retratos tirados de um ângulo inesperado, onde a luz incide de forma a revelar sombras que, muitas vezes, preferiríamos ignorar.

Dois Tempos, Uma Só Alma

A divisão em "dois tempos" não é apenas estrutural, mas existencial. Há o tempo da infância, da descoberta, da ingenuidade que se perde; e há o tempo da idade adulta, das máscaras, das escolhas, resultados que nos definem e nos aprisionam. Em "Não", o narrador se apresenta como um ser formado pela negação, pela rejeição ao outro, pela certeza de sua própria superioridade; uma armadura que, no fundo, esconde o medo de não ser suficiente. Em "Primeiros", a voz é a de uma criança que ainda não sabe que o mundo é feito de perdas, que o amor dos pais é finito, que o brinquedo favorito um dia desaparecerá.

E assim, entre um tempo e outro, o livro nos pergunta: o que perdemos ao crescer? Não apenas a inocência, mas a capacidade de nos surpreendermos, de nos permitirmos ser frágeis, de aceitarmos que a vida é feita de frestas, e não de portas largas e seguras.

A Poética do Cotidiano

Cesar de Mello Campos escreve com uma linguagem que oscila entre o lírico e o cru, entre o poético e o prosaico. Há uma beleza nas pequenas coisas: no cheiro do café da manhã, no vento que bate no rosto durante um passeio de bicicleta, no gesto de uma mãe que cuida do filho. Mas há também a dureza do cotidiano: a solidão que se disfarça de independência, a raiva que se veste de orgulho, a tristeza que se camufla em ironia.

Os personagens são anti-heróis modernos: pais que não sabem amar, filhos que não sabem ser amados, mulheres que se perdem na busca por um amor que as complete, homens que se afogam na própria rigidez. São pessoas que, como nós, tentam se salvar da própria humanidade.

Filosofia da Imperfeição

O livro é uma meditação sobre a imperfeição como condição humana. Não há redenção fácil, não há finais felizes garantidos. Há apenas a vida, com suas frestas, suas rachaduras, suas janelas entreabertas. A pergunta que fica é: o que fazemos com o que vemos pela fresta? Fechamos os olhos? Tentamos abrir a porta à força? Ou aprendemos a viver com a luz que entra, e com a sombra que ela projeta?

Em "Deus me perdoe", a personagem feminina é uma mulher que se debate entre o desejo de posse e a consciência de que nada (nem mesmo o amor) é eternamente seu. Em "Eu me perdi", o narrador é um homem que se pergunta se ainda existe fora das máscaras que vestiu ao longo da vida. São todos seres em trânsito, que não encontraram ainda (e talvez nunca encontrem) um lugar seguro para pousar.

Por Que Ler Este Livro?

"Pela Fresta Te Vi" não é um livro para quem busca respostas. É um livro para quem ousa fazer perguntas: sobre si mesmo, sobre os outros, sobre o amor, a solidão, a passagem do tempo. É uma obra que incomoda, porque nos mostra que, muitas vezes, somos tão cegos quanto os personagens, e que, como eles, também vivemos à beira de um abismo, fingindo não ver.

Ler este livro é como olhar pela fresta de uma porta: você não vê tudo, mas vê o suficiente para saber que há algo além. E isso, por si só, já é uma revelação.


Trecho que fica: "Eu me perdi, mas ainda estou aqui. E estar aqui, mesmo perdido, é já uma forma de resistência."


Para quem é este livro?

  • Para quem gosta de literatura que corta como uma faca — não pela violência, mas pela precisão.
  • Para quem busca retratos humanos sem retoques, sem romantismos fáceis.
  • Para quem acredita que a poesia está no cotidiano, mesmo quando o cotidiano é feio, difícil, contraditório.


Nota final: ★★★★ (5/5) — Um livro que exige coragem do leitor, porque não oferece consolo fácil. Mas é justamente por isso que vale a pena: porque, ao final, você se sente menos sozinho na sua própria fresta.




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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Pela Fresta Te Vi (Livro Impresso/e-Book), César de Mello Campos (autor)

 

Pela Fresta Te Vi – consciência escrita em movimento 

Há livros que não se oferecem à pressa.
Pela Fresta Te Vi, de Cesar de Mello Campos, é um deles. Não se apressa porque é feito de zonas de silêncio, de pensamentos que disparam vozes e de vozes que, não resistindo, se tornam escrita.




 

As palavras nascem de um atrito; cercado de múltiplos conflitos.

A escrita ultrapassa o descrever: torna visível o invisível que habita cada consciência.

Encarna o que arde dentro de cada personagem.


Cada conto é uma superfície onde fé, culpa, desejo e memória se entrelaçam em tensão constante, compondo um retrato sensível e inquieto da alma contemporânea.

Aqui, a ficção não se limita ao enredo: é uma forma de pensamento.


Os personagens falam como se algo neles precisasse atravessar a linguagem para existir. 

Não há narradores condescendentes, nem moralizações: há consciência em ebulição, vidas que se revelam sem filtro nem defesa.

A escrita de Campos tem precisão e vertigem.
Move-se entre o humano e o simbólico, entre o cotidiano e o psíquico. Nos detalhes (um gesto mínimo, um olhar distraído, uma frase suspensa) a narrativa se inscreve com força e permanência. Cada história parece conter outra, subterrânea, que não se deixa capturar por inteiro.

Não é um livro de respostas, mas de reverberações.
As vozes atravessam o/a leitor/a e continuam ecoando quando a página se encerra.


É literatura que expõe o que pulsa, sem perder a delicadeza.

Distribuição gratuita da versão impressa (por tempo limitado) reforça a proposta do autor: a literatura como experiência partilhada, aberta à leitura, à escuta e à ressonância interior.


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Crédito do vídeo: Abstrato – vídeos de arquivo por Vecteezy






quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pela Fresta Te Vi (e-Book/Impresso), Cesar de Mello Campos (autor) – Uma Obra Que Registra O Movimento: Do Olhar, Do Tempo, Do Erro

 

Pela fresta te vi — quando a literatura descreve o silêncio do humano

Entre o adulto que se justifica e a criança que observa, Cesar de Mello Campos escreve um espelho em duas vozes: uma ficção que se lê como confissão e se sente como cicatriz.




Ver e ser visto não são atos neutros: revelam o poder, a fragilidade e o silêncio profundamente psíquico de quem observa; e de quem é observado. Entre o adulto que se defende e a criança que ainda não sabe nomear o mundo, Cesar de Mello Campos constrói uma narrativa que reflete o tempo: o que ele apaga e o que insiste em permanecer.

Há livros que vão muito além do comum: abordam verdades nuas e cruas; não denunciam nem absolvem, apenas revelam.


Pela fresta te vi, de Cesar de Mello Campos, é desses. A cada página, o autor abre um vão entre o mundo e a consciência, entre o que se diz e o que se cala, e não poupa palavras nesse processo.

O resultado é uma narrativa em dois tempos, mas de um mesmo ser que tenta se reconhecer: o homem que fala de si com lucidez brutal e a criança que ainda não entende o peso do que vê.


A primeira voz (quase um monólogo interior) exibe um personagem que acredita dominar a razão, a moral, a família e o próprio destino. Ele se diz reto, fiel, firme. Mas o leitor, pela fresta, enxerga o avesso: o medo travestido de orgulho, o controle disfarçado de virtude, a fé que serve apenas de espelho para o ego.


A segunda voz é outra: a da essência, da inocência da infância que descreve o mundo com uma ternura confusa, tentando entender o amor, o silêncio dos pais, o lugar que ocupa no olhar de quem o criou. São páginas de pureza e desamparo, em que o autor toca o coração do leitor sem precisar de sentimentalismo.


Entre uma parte e outra, há um fio invisível: a passagem do tempo como uma ferida que nunca cicatriza, apenas muda de forma. O adulto que narra poderia ter sido aquela criança; a criança, o esboço de quem um dia será esse homem. Não há resposta definitiva; apenas o reflexo de um olhar que tenta se entender antes que a vida se apague.


Uma literatura que revela sem acusar

Cesar de Mello Campos escreve com precisão cirúrgica, uma gramática impecável, mas sem frieza. Cada frase tem o peso de quem conhece o abismo humano e, mesmo assim, escolhe descrevê-lo com ternura, poesia e nuances filosóficas – no entanto, suas palavras são carregadas de humanidade. Ele não julga os personagens: os observa.


E talvez essa seja a força do livro: a recusa do maniqueísmo; o convite à empatia abrangente, que se deixa sussurrar em cada conto. .

Você conhece alguém que, em nome da retidão, esqueceu a delicadeza?
Alguém que, ao querer ensinar virtudes, acabou ferindo sem perceber?
O livro não aponta o dedo: apenas abre uma fresta para que a luz entre.

O leitor percebe, aos poucos, que há beleza também naquilo que dói, e que reconhecer a própria sombra é uma forma de salvação.


O tempo como espelho

Nas duas partes de Pela fresta te vi, o tempo não é linear.
Ele se dobra sobre si mesmo, ao mesmo tempo que desdobra, entra e sai de um labirinto,  como se o passado e o presente se observassem em silêncio.

A criança descreve o mundo como quem o inventa; o adulto o narra como quem tenta reescrevê-lo.


Entre ambos, o autor revela a mais filosófica das perguntas: o que resta de nós quando o tempo passa; e quando tudo o que fomos ainda respira dentro do que somos?

Essa indagação atravessa o texto com sutileza, sem discursos nem teorias. O livro fala de memória, culpa, desejo e esquecimento, mas com uma linguagem poética, de cadência lenta, que convida o leitor a contemplar.

Cesar escreve o invisível: o intervalo entre o pensamento e o gesto, entre a fala e o silêncio.
É ali, nesse espaço pequeno e essencial — nessa fresta — que nasce a literatura.


Pela fresta te vi não procura comover, mostra o abismo.
Ele observa o humano na contradição; e ali encontra a sua força.
Nenhum gesto é puro, nenhuma voz é inocente.
É dessa imperfeição que o livro extrai a sua beleza.

O humano é observado como um fenômeno, não um mero evento.

Cesar de Mello Campos escreve a partir da distância justa: aquela que permite ver, sem precisar julgar.


Em tempos de pressa e ruído, Pela fresta te vi é um livro que devolve ao leitor o direito de escutar e interpretar as entrelinhas, os gestos, os silêncios... Aquele instante curioso em que a lucidez se mistura à ternura. 


Uma obra que se inscreve na tradição da literatura brasileira contemporânea de introspecção, ao lado de nomes que exploram a interioridade sem medo do desconforto.

Ler Pela fresta te vi, de Cesar de Mello Campos, é observar o ser humano em sua complexidade: sem condenar, sem redimir, apenas ver (ou apenas assimilar pessoas com quem "esbarramos" por aí).


Pela fresta.









Distribuição gratuita da versão impressa (por tempo limitado)


São histórias que caminham entre fé, culpa e desejo: ecos de uma literatura brasileira contemporânea que não oferece atalhos, mas provoca e permanece.
Em Pela fresta te vi, cada conto traz a tensão dos contos psicológicos — heranças familiares, afetos imprevistos, dilemas sem resposta. É ficção literária que se inscreve no detalhe, no gesto mínimo capaz de transformar destinos.


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terça-feira, 27 de maio de 2025

Trechos Impactantes do livro "Pela Fresta Te Vi" de Cesar de Mello Campos

Livro/e-Book: "Pela Fresta Te Vi" de Cesar de Mello Campos


Leia a sinopse longa e alguns trechos impactantes do conto Não 







Sinopse

No livro Pela fresta te vi, Cesar de Mello Campos constrói um mosaico literário que transita entre a crueza existencial e a ternura sutil, costurado por narradores densos, em relatos que espelham a condição humana em camadas superpostas de tempo e subjetividade. 

A obra, dividida em duas partes, apresenta contos curtos que mais se assemelham a movimentos confessionais, registros de memória e introspecções profundas do eu. Cada texto opera como uma fresta aberta para o universo interno dos personagens – frágeis, contraditórios, complexos –, que se revelam ao leitor sem filtros nem adornos.

Com linguagem refinada e ritmo envolvente, o autor explora temas como identidade, afeto, poder, ausência, masculinidade e autoimagem, provocando desconforto e empatia na mesma medida. 

O conto inaugural, “Não”, impressiona pela construção de um narrador narcisista, autossuficiente, mas humanamente fraturado, enquanto “Primeiros” oferece um olhar delicado e visceral do mundo visto por uma criança. 

Essa alternância de vozes e experiências expande a potência narrativa da obra e convida o leitor a um exercício de escuta e percepção mais atento, como quem, de fato, espreita pela fresta algo que não ousaria olhar de frente.

Ao mesmo tempo introspectivo e crítico, o livro ultrapassa os limites do conto tradicional ao se aproximar da crônica poética e da autoficção filosófica. 

A densidade psicológica das personagens, combinada à sutileza das imagens e à precisão da linguagem, revela um escritor maduro, sensível ao detalhe e à complexidade do ser. 

Pela fresta te vi não entrega respostas – ao contrário, impõe perguntas incômodas sobre o que vemos e o que somos quando ninguém está olhando. É leitura para quem aceita ser atravessado por sombras e silêncios.


Trechos impactantes do conto Não, do livro Pela Fresta Te Vi 

Uma bomba, um estrondo, um traque, um espasmo. Foi assim que nasci. Desse estrondo diminuendo fui parar numa família que eu não conhecia, rigorosa, e que, querendo eu ou não, me formou. 


(...)


De mim pouco tinha de inato, mas esse pouco era barulhento e forte e me determinou, me disse quem eu era e para onde eu deveria ir, para onde eu deveria querer ir. Meu pai era inteligente, mas como ele era eu sou mais, sou melhor que ele. Se quisesse algo, quando ainda era bem novo, levava um sonoro “não”, mas não me importava, eu nunca me assombrava. Eu estirava as cordas até onde conseguisse, ainda que depois mal lembrassem de mim. A lembrança se desfaz com o tempo. Acreditava e acredito na transitoriedade da raiva, da indignação, da revolta. Acredito na efemeridade da febre que agita a vingança. Não persistirão para mim más energias. 


(...)


Quando olho para outras pessoas, sempre abaixo de mim, debaixo da poeira da minha sola, não é o desejo por aquelas pessoas que me move ou me instiga. Não desejo ninguém, desejo apenas o que as pessoas possam trazer para mim. Eu desejo os tons que não tenho, eu desejo o que minha família não me traz. Eu desejo ter o que é dos outros, mas só o que me interessa. Ignorantes diriam que é inveja, mas não é. Não sinto inveja. 



Pela Fresta Te Vi - Relatos em Dois Tempos de Cesar de Mello Campos 

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Para versão impressa, envie um e-mail solicitando seu exemplar: cesardemellocampos@hotmail.com 

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Pela Fresta Te Vi – Relatos Em Dois Tempos – Autor: Cesar de Mello Campos

Pela Fresta Te Vi – Relatos Em Dois Tempos

Cesar de Mello Campos



Sinopse

Cesar de Mello Campos, em "Pela fresta te vi - Relatos em dois tempos", oferece ao leitor uma jornada literária de rara profundidade. Estruturado em duas partes que dialogam entre si, o livro traça um painel multifacetado da experiência humana, revelando as vozes íntimas de personagens que oscilam entre a força e a fragilidade, a memória e o esquecimento, o silêncio e a palavra. Com uma escrita marcada por ritmos fluídos e uma prosa quase poética, o autor constrói um universo onde o banal se transforma em transcendência, e os detalhes cotidianos tornam-se fragmentos de uma realidade maior.

Na primeira parte, os narradores conduzem o leitor por memórias e reflexões de um mundo interno pulsante, frequentemente desconfortável, mas sempre cativante. As narrativas se entrelaçam em uma teia de contradições, onde a voz que se confessa é ao mesmo tempo o espelho de um coletivo que observa e julga. Já na segunda parte, a materialidade do mundo exterior ganha destaque, explorando relações e dilemas que desafiam os limites da ética, da lealdade e do amor. Cada texto é um microcosmo que reflete o todo, criando uma obra polifônica e profundamente meditativa.

Cesar de Mello Campos apresenta uma literatura que ultrapassa a experiência de leitura convencional, um texto que exige do leitor não apenas atenção, mas uma entrega emocional e intelectual. Pela Fresta, Te Vi é um convite ao diálogo com o invisível, com as verdades ocultas nas frestas das nossas próprias vidas. Uma obra que ecoa as grandes tradições da alta literatura, ao mesmo tempo em que carrega a originalidade de uma voz inconfundível.


O livro é composto por 21 contos, conheça aqui a resenha de cada um deles.


Pela Fresta Te Vi – Relatos em Dois Tempos
Primeira parte


Não 

Se ele quisesse algo, quando ainda era bem novo, e levava um sonoro “não”, isso não lhe importava, nunca lhe assombrava. Ele estirava as cordas até onde conseguisse, ainda que depois mal lembrassem dele. Segundo ele, é despropositado sentir medo, o mais interessante é que sintam medo dele. O que importa é o que ele é, no que ele conseguiu se tornar; ele é único, impactante, isolado, indiscutível. Não se deixa abalar por nada e nem ninguém – além disso, sempre consegue o controle absoluto, não importa as consequências.  


Primeiros 

“Primeiros” mergulha na perspectiva de uma criança que observa o cotidiano com olhos curiosos, ora incomodada ao depender da mãe, ora maravilhada por poder comer pão de queijo sem precisar de nada além de sua própria vontade. A chegada de um irmão mais novo bagunça a rotina e destaca o amadurecimento forçado do protagonista, que se sente ora relegado, ora acolhido pelos pais. A narrativa expõe, com ternura, a complexidade de crescer, enfrentar inseguranças e descobrir que cada momento simples carrega um universo de emoções.


Certo

É um conto que disseca a obsessão pela perfeição humana e a rigidez moral, mostrando como esses ideais podem se tornar opressores, manipuladores e contraditórios. 

Por meio de um narrador introspectivo e detalhista, a narrativa revela um personagem que, ao tentar ser irrepreensível, se torna refém de suas convicções e de uma figura misteriosa que dita seu comportamento (e talvez, nas entrelinhas, tem uma relação de amor, medo e ódio com ela). Uma reflexão profunda e poderosa sobre a moralidade, a liberdade e as influências que moldam nossas escolhas.

Aqui você verá o que há por trás da mente do “aparente” de algumas pessoas que se dizem “politicamente corretas”.


Eu me perdi

Trata de um mergulho na mente de um protagonista que equilibra afeto familiar e descrença no sucesso mundano, tão comum nos dias atuais. O texto cria uma atmosfera de reflexão íntima, expondo as inseguranças e esperanças de alguém que busca, na rotina solitária e no amor pelos filhos, uma forma de se reencontrar e se reencaixar. A narrativa convida o leitor a repensar e a olhar sob outras perspectivas as pressões sociais, a importância de pequenas alegrias cotidianas e o contraste entre as ambições do passado e a serenidade desejada no presente.


Deus me perdoe

O salto alto, que já é como uma extensão dos seus pés, a machuca, mas não se importa muito. Mentira, ela se importa, sim, afinal, pagou caríssimo pelo par de calçado. Em “Deus me perdoe”, a protagonista exibe uma vida de luxo e excessos enquanto administra sentimentos, ressentimentos e desejos conflitantes. Ela quer manter Artur, seu marido, totalmente sob seu controle, ao mesmo tempo em que despreza os filhos dele e até ignora a própria filha. Suas idas ao shopping, sua indiferença pelos funcionários e os jantares opulentos escondem a dúvida e um vazio pessoal que ela tenta preencher com poder e ostentação.

O conto revela as tensões familiares que emergem a cada encontro, expondo a necessidade – quase uma obsessão —, que a narradora tem por aprovação, enquanto ela disfarça seus sentimentos e esconde sua insegurança. Entre olhares de reprovação, ameaças veladas e momentos íntimos carregados de interesse e alguma hesitação, ela demonstra uma certa culpa, mas que na prática, pouco altera sua conduta. Assim, “Deus me perdoe” mergulha na complexa psique de alguém que oscila entre preservar e expor laços afetivos e exercer poder e influência. 


Choveu

É um relato poético e introspectivo de alguém que transita entre a arte e as exigências práticas do dia a dia. O protagonista, ao mesmo tempo solitário e cercado de pequenos apoios, revela como a música funciona como fonte de energia em meio às incertezas. A narrativa em fluxo de consciência convida o leitor a refletir sobre a dureza da vida artística e o peso das escolhas –, e por fim, a recusa em aceitar o passar dos anos, oferecendo uma leitura sensível que alterna momentos de desalento e sutil esperança. 


Eu, minha você 

Retrata o cotidiano de um homem que, após perder a esposa, vive cada manhã imerso em lembranças. O texto explora como a velhice agrava a sensação de solidão, deixando claro que o amor compartilhado se mantém na memória, apesar da distância irreversível entre os dois.


Quem saberá

É um conto envolvente que captura a essência do pensamento corrido e mergulha no íntimo de um sacerdote em constante luta entre a santidade e a humanidade. A narrativa, rica em sensações e reflexões, explora temas como vocação, tentação e o peso das responsabilidades espirituais. A escrita, profundamente sensorial, transporta o leitor para o ambiente da paróquia, onde a quentura dos corpos e o murmúrio das orações contrastam com o frio externo e as inquietações internas do protagonista.

O autor oferece uma visão complexa e intimista do que imagina que significa carregar o fardo da fé. O conto não apenas humaniza o sacerdote, mas também nos faz refletir sobre a dualidade de viver entre o sagrado e o mundano. Uma leitura densa e instigante, ideal para quem aprecia narrativas introspectivas e reflexivas.


Roupa que cai

Poderia ter sido um dia comum, mas não foi. "Roupa que cai" é um conto que explora com maestria a mente fragmentada de um homem que vive à margem das urgências modernas. Narrado em fluxo de pensamento, o texto mistura reflexões cotidianas com percepções sensoriais, criando um retrato sensível e, por vezes, melancólico de sua existência. A virada narrativa – uma traição inesperada – adiciona profundidade à história, revelando como as pequenas e grandes tragédias da vida podem coexistir no mesmo espaço emocional. E agora? O que será do filho pequeno do protagonista?


Assim, se me vai

É um mergulho franco e filosófico na mente de um médico que, ao longo de suas reflexões, revela as dores e as belezas de sua profissão. O texto é narrado em um fluxo de pensamento contínuo, carregado de descrições poéticas que transportam o leitor para o âmago das emoções do protagonista. O conto explora temas como o peso das escolhas, a efemeridade da vida e a dificuldade de se manter empático em meio a um cotidiano que desgasta.

As situações apresentadas, desde os diálogos com pacientes até os momentos de introspecção solitária, são carregadas de simbolismos e toques sensoriais – o cheiro de chá, a visão de um ônibus verde, o silêncio carregado de significado. A escrita, que flui como um pensamento contínuo, captura com precisão a luta entre a racionalidade e a vulnerabilidade humana. Uma leitura que provoca introspecção e desafia o leitor a encarar suas próprias paciências que se vão.


Sobrevoo

É uma imersão emocional na psique de uma protagonista multifacetada. Entre reflexões sobre poder, beleza e as armadilhas da vida moderna, o conto destaca a busca por autenticidade em meio a papéis sociais sufocantes. A narrativa envolve o leitor com descrições que despertam os sentidos, como o impacto de um simples sabor de sorvete que transcende o cotidiano, oferecendo momentos de pausa, introspecção e autenticidade pessoal.

Com toques sutis de ironia e uma abordagem profundamente humana, "Sobrevoo" nos faz questionar as escolhas que moldam nossa identidade e a fragilidade de nossos desejos reprimidos. Este conto é uma obra que convida à contemplação e oferece um retrato sensível das complexidades de um ser que determinou que sua vida, sim ou sim, será incomparável.


Pela Fresta Te Vi - Relatos em Dois Tempos
Segunda parte

Lutar ou fugir

É um conto visceral que transporta o leitor para o núcleo de uma tragédia familiar, explorando os limites do enfrentamento humano à dor. Através de descrições intensas, a narrativa revela a luta interna de um homem que se refugia em uma realidade ilusória para escapar da culpa e da perda de seu filho. Enquanto isso, sua mulher, marcada pelo luto genuíno, carrega a dura tarefa de lidar com a realidade e as consequências do silêncio e da ausência emocional do marido.

O conto mergulha em questões universais, como o confronto com a mortalidade e a fragilidade das relações humanas. A escrita poética e envolvente de Cesar de Mello Campos captura as nuances da alma humana em momentos de colapso, provocando no leitor uma reflexão inquietante sobre coragem, covardia e o significado do amor nos momentos mais difíceis.


Importância

A narrativa disseca a superficialidade de uma vida focada apenas no prazer e na autopreservação. O protagonista é apresentado como alguém que se considera inabalável, mas um pequeno acidente catalisa uma sequência de eventos internos que desconstroem sua aparente fortaleza emocional. A narrativa alterna entre os cheiros úmidos da rua e a frieza das máquinas, enquanto a tensão psicológica cresce.

Com uma escrita que traz alguma crítica social, o autor nos conduz pela psique de um personagem que, embora busque evitar responsabilidade e conexões profundas, não consegue escapar das rachaduras em sua armadura emocional. É um convite para refletir sobre a fragilidade escondida sob a carapaça da autossuficiência.


Desfazimento 

O texto ressoa pela profundidade emocional e pelas camadas sensoriais habilmente tecidas em sua narrativa. Cesar de Mello Campos constrói uma atmosfera íntima, onde o frio do ambiente hospitalar, os ruídos intermitentes e os cheiros evanescentes criam uma paisagem emocional que reflete a jornada interna do protagonista. A história explora o ato de "desfazer-se" não apenas de objetos, mas também de expectativas, ressentimentos e medos, enquanto se conecta ao reencontro tardio e poderoso com o filho e à presença vigilante da esposa.

Com uma escrita poética e introspectiva, o conto captura a essência da mortalidade e a complexidade das relações humanas. É uma obra que inspira a contemplação sobre os ciclos da vida, mostrando que mesmo os momentos mais frágeis podem ser permeados de beleza e significado. A sutileza com que o autor conduz a narrativa convida o leitor a refletir sobre o que realmente importa no desfecho de nossas histórias.


Folha caída

Em "Folha Caída", o autor revela com destreza os detalhes da alma humana em um conto que combina introspecção e lirismo. A história acompanha uma mulher idosa enquanto ela reflete sobre os ciclos de sua vida – as alegrias compartilhadas, os deslizes ocultos e as tensões do cotidiano. A simplicidade de um gesto, como acariciar os cabelos do marido, serve de porta para um turbilhão de memórias, iluminando as contradições e ressignificações que moldam sua trajetória.

A narrativa prende o leitor pela sutileza de percepção – os toques, os cheiros e os sons que embalam as lembranças – e pela universalidade de suas questões: amor, arrependimento, resiliência. Quando o filho retorna, quebrando o silêncio com um telefonema, a narrativa encontra sua redenção, ao mostrar como pequenas ações podem dissolver anos de ressentimentos e reafirmar o vínculo familiar. Uma obra de rara sensibilidade, "Folha Caída" emociona por sua verdade e simplicidade.


Desinfecção

É um conto poético que explora as sombras e as luzes da alma humana em momentos de despedida. O autor pinta um retrato íntimo de alguém que, cercado por simbolismos cotidianos como a pipa que dança no horizonte ou o olhar aflito de sua mãe, enfrenta sua vulnerabilidade com uma resignação melancólica, mas esperançosa.

Com descrições que despertam os sentidos e diálogos internos que ecoam em quem lê, a narrativa nos convida a refletir sobre os pesos que carregamos e as despedidas que nos transformam. A mistura de cenas cotidianas e reflexões profundas faz do conto uma experiência emocional que ressoa mesmo após a última linha.


Arrasadura

Ambientado em um hospital, a narrativa acompanha os pensamentos fragmentados e sensações físicas de uma mulher em seus momentos finais, oferecendo ao leitor uma experiência sensorial e introspectiva. A relação entre a protagonista e Rafael, um jovem que equilibra juventude e desencanto, é o fio condutor que conecta os temas de amor, perda e aceitação.

Com uma escrita lírica e visualmente evocativa, o conto transporta o leitor para o silêncio das emoções não ditas e os sons das máquinas que acompanham a protagonista em sua última jornada. "Arrasadura" é uma obra que reverbera com uma melancolia suave, capturando a essência da fragilidade humana e a beleza contida nos detalhes mais simples da vida e da morte.


Calisto

O protagonista, moldado por idealismos e frustrações, vive a tensão entre sua essência simples e o mundo complexo de relações humanas que nunca pôde compreender inteiramente. A ambientação rica – do cheiro de lenha queimada às jabuticabas consumidas no isolamento – transporta o leitor para um universo onde cada detalhe revela a profundidade dos sentimentos do personagem.

Neste conto, o autor consegue capturar a natureza cíclica das lutas internas, representadas por uma luta física quase ritualística, que simboliza a tentativa desesperada de reconciliar o passado e o presente. O texto equilibra sutileza e intensidade, revelando camadas de significado em cada cena. "Calisto" é uma reflexão pungente sobre solidão, arrependimento e os paradoxos do autoconhecimento, que promete ressoar com leitores atentos às nuances da experiência humana.


E fez sol

A narrativa acompanha um homem que, ao lidar com a morte de sua mãe, enfrenta não apenas o vazio deixado por ela, mas também reflexões profundas sobre si mesmo e suas relações. Com uma escrita que combina leveza e melancolia, o autor captura momentos de aparente simplicidade – o som de um violão, o toque do sol sobre a madeira gasta – e os transforma em metáforas poéticas sobre a transitoriedade da vida e a possibilidade de renovação.

A presença de Juliana na história é um contraponto luminoso, trazendo equilíbrio e suavidade à dor do protagonista. Seu dedilhado despretensioso no violão reflete a própria essência do conto: uma beleza que surge entre o desassossego e a serenidade. Repleto de camadas sensoriais, "E fez sol" convida o leitor a contemplar os pequenos gestos que, como raios de sol, aquecem até os momentos mais frios da existência.


Espelho

É um conto que mergulha profundamente na complexidade da psique humana, explorando as nuances de desejo, culpa e renascimento. Narrado com uma intensidade sensorial e emocional única, ele desenha uma protagonista que flutua entre a certeza de suas escolhas e a dúvida corrosiva que vem com o tempo. A história é um retrato da decadência e busca de sentido, onde a casa vazia e os arranjos de flores frescas tornam-se metáforas para o vazio interior e os ecos de uma vida passada.

A narrativa encanta pela profundidade com que aborda temas como a autenticidade, o luto e a necessidade de redenção, convidando o leitor a refletir sobre a linha tênue entre o controle e o abandono. É uma obra para ser lida com calma, absorvendo as sutilezas de uma escrita que transforma o comum em extraordinário.


Ainda estou aqui

No conto "Ainda Estou Aqui", Cesar de Mello Campos constrói um retrato visceral e melancólico da degradação humana em um espaço confinado. A narrativa, conduzida por um observador enigmático, revela o cotidiano de um homem esquecido e aprisionado, cujas convicções inflexíveis se transformam em um fardo pessoal. Por meio de descrições sensoriais intensas, como a sujeira que pesa e a claridade que hesita em iluminar, o conto explora os efeitos da tortura física e psicológica, a erosão da identidade e a força contraditória da solidão.

A jornada do protagonista é marcada pela tensão entre a perda e a transformação, confronto com os resultados de seu narcisismo e prepotência. O ambiente claustrofóbico e as experiências de violência revelam tanto a resistência quanto as fragilidades do espírito humano. O conto deixa o leitor entre ecos de esperança e resignação, culminando em uma libertação simbólica, onde o peso da culpa e da memória confronta a possibilidade de recomeço. A prosa de Campos envolve, sutilmente, o leitor em reflexões sobre a natureza da verdade, a inflexibilidade das convicções e a resiliência da condição humana.

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A importância do mistério para escritores e para a vida

Por que a busca pelo desconhecido ou a conexão com o mistério ainda molda quem escreve, quem lê e quem vive, mesmo na era das respostas pron...