quarta-feira, 11 de março de 2026

Cartas Ao Meu Livro Que Não Foi Escrito

Cartas ao meu livro que não foi escrito

Um texto em forma de cartas para quem sente que carrega um livro por dentro, mas ainda não conseguiu começar. Reflexão sobre escrita, medo, bloqueio criativo

O Livro Que Não Foi Escrito implorou que eu lesse estas cartas para ele.




Carta 1

Querido livro,

Não sei em que momento você começou; nem me lembro como, quando, onde, e o motivo que eu quis que você exista... 

Talvez tenha sido numa lembrança que nunca se dissolveu por completo, numa cena da vida que ficou girando por dentro. Houve a tentativa de encontrar paz para isso, mas não consegui. Talvez numa frase ouvida ao acaso, dessas que parecem pequenas por fora, mas abrem um vão (cheio de micro explicações) por dentro de quem escuta, no caso, eu mesma; até rabisquei alguns post-its. 

Só sei que você existe antes da página.

Existe no que retorna, insiste, no que não se acomoda. Como uma experiência sem arquitetura, quase num bordado fantasmagórico. Não tem forma estável, não tem começo definido, mas já espírito, já chama, já pede algum tipo de conexão, porque quer enviar sua mensagem.

Durante muito tempo, eu achei que precisava compreender você inteiro antes de começar. Hoje suspeito que não. Talvez seja justamente o contrário: talvez eu só venha a entender você quando aceitar o risco de tocar sua/minha matéria imperfeita.

Você ainda não foi escrito, mas já modificou a minha maneira de olhar.

Olho para a página em branco, e só suspiro. 


✦ ✦ ✦


Carta 2

Querido livro,

Preciso lhe confessar uma coisa: eu o adiei mais vezes do que gostaria de admitir.

Nem sempre por falta de tempo. Nem sempre por cansaço. Muitas vezes, por receio. Um medo mais teatral do que parece. Tenho vergonha de não conseguir fazer justiça ao que sinto quando penso em você.

Há ideias que, dentro de nós, parecem vastas. Será que você me entende? Respiram de um jeito próprio, como se tivessem espessura, relevo, temperatura. Então vem o susto: e se, ao passarem para a linguagem, perderem grandeza ou a relevância? E se aquilo que em mim parece vivo demais, no papel parecer estreito, opaco, insuficiente?

Talvez eu tenha confundido cuidado com recuo.

Quem sabe, eu tenha chamado de prudência aquilo que, no fundo, era o velho temor de me ver em voz alta.

Você esperou muito por causa disso.

Por favor, não cerre tanto, dessa forma aí, as suas sobrancelhas para mim. Não é só você que está indignado, irritado... 


✦ ✦ ✦


Carta 3

Querido livro,

Houve noites em que quase comecei.

O caderno aberto. O cursor aceso. A inspiração parece estar tão longe... 

A primeira frase andando pelo quarto antes de chegar à mão. Às vezes, eu me sentava diante da possibilidade com uma seriedade quase solene, como se o instante exigisse alguma espécie de pureza que a vida real nunca oferece. O que eu disse, espere aí. Melhor, o foi mesmo o que eu escrevi? Pureza? E os tão aclamados personagens cinzentos, vilões... como são construídos?

Bastavam poucos minutos até a dúvida entrar. E se não for isso? E se já tiver sido dito melhor? E se eu estiver exagerando a importância deste texto, matéria, ensaio, ou sei lá eu? E se não houver sustância suficiente para sustentar tantas páginas?

É curioso como a mente sabe sabotar com voz de uma pseudo lucidez. 

Ela nem sempre passa do limite no tom da voz. Muitas vezes, fala baixo, com aparência de argumento sensato. Faz-se passar por critério, por maturidade, por exigência estética. E assim o que era impulso vira suspensão, o que era início volta a ser espera.

Você conhece esse movimento. Eu também.


✦ ✦ ✦


Carta 4

Querido livro,

Durante muito tempo, tratei você como se dependesse de uma estação ideal da vida.

Uma fase mais limpa, mais organizada, menos interrompida. Um intervalo em que o mundo finalmente me deixaria em paz o bastante para eu lhe oferecer atenção inteira. Esperei por dias mais largos, por menos ruído, por uma espécie de margem que nunca chegava.

Agora começo a perceber uma coisa incômoda: a vida não funciona dessa maneira.

Ela não se arruma para receber um livro. Ela segue com seus atrasos, suas urgências, seus desvios, suas contas, suas fadigas, seus pequenos desastres domésticos e emocionais. Se eu for esperar uma calmaria absoluta, talvez o que amadureça não seja o texto, mas o silêncio. Hum... Até pensei agora em escrever um ensaio sobre a maturidade do silêncio: que tal escrever sobre uma anciã com seu xale, com sua xícara de chá fumegante de alecrim, se aquecendo com suas pantufas de coelhinho, falando do inexorável que é o tempo? Pronto, comecei de novo...

Possivelmente escrever seja menos um acontecimento ideal e mais um gesto de insistência. Algo que se faz entre frestas, sem triunfalismo, sem cenário perfeito. Vamos lá, livro, me ajude a escrever as não-perfeiçoes da vida...

Você não precise de uma vida pronta, apenas precise que eu pare de usá-la como desculpa. Até eu já estou cansada de desculpas, imagine você!

Ah... Quero te contar algo, meu querido Livro Que Não Foi Escrito... Deixei de usar post-it e bloco de anotações e comecei a anotar as ideias num caderno 14x21 (fica mais fácil para levar na mochila, bolsa), além disso é espiral - daí eu encaixo a caneta. 


✦ ✦ ✦


Carta 5

Querido livro,

Há outra coisa que preciso reconhecer: escrever expõe.

Mesmo quando ninguém está contando a própria biografia; ou quando o texto parece distante, inventado, deslocado, enlouquecido, quebrado da vida pessoal. Sempre escapa alguma coisa. Um modo de recortar o mundo. Uma preferência de luz. Um tipo de som ainda não verbal. Uma obsessão. Um desconforto. Uma ternura com uma bobagem qualquer. É isso! Escrever sobre a ternura de coisas que aparentemente são totalmente irrelevantes.

É por isso que tanta gente trava antes de começar. Não por incapacidade, mas porque percebe, que insiste em ser confusamente invasiva, que cada frase carrega assinatura, um paradigma, uma contradição. Não apenas a assinatura do nome na capa, mas a do olhar e da mente do possível leitor. Ou do meu olhar. Ou das minhas lágrimas. Da minha tensão nas têmporas. 

E o olhar, quando ganha corpo, pode ser recusado, mal lido. Pode tocar onde não se previa. Pode também dizer mais do que a pessoa gostaria de revelar. 

Talvez eu venha tentando me proteger de tudo isso, ou seja, será que sensível demais?

Mas começo a achar que proteção demais também, paradoxalmente, piora o bem estar. Isso, esse excesso de cautela seca a linguagem antes mesmo de ela nascer. Deixa os dedos com seus nós esbranquiçados, lembrando da minha artrite. Ou sinalizando uma  artrose futura. 

Livro... Me conte... Que tolice é a nossa de acreditar que podemos controlar algo na vida, ainda mais a opinião alheia? 

Pois é... Como eu posso te pedir que me conte algo, se eu não te alimentei, verdade? 

Ah, quero te dizer algo, meu estimado Livro Que Não Foi Escrito... Meu caderno, lembra aquele que eu contei, 14x21? Curiosamente, começou a ficar mais pesado depois que eu comecei a escrever... Que peso é esse? Da tinta? Ou do conteúdo. 


✦ ✦ ✦


Carta 6

Querido livro,

Nem toda demora é fuga. Há esperas que decantam, intervalos em que a vida vai depositando sedimentos, e o que parecia solto começa, causar constrangimento. Que farei eu com o material decantado? 

Que seja, vá. Talvez eu precise apenas ser mais justa comigo mesma, ser justa no sentido de aceitar o que ficou separado no processo. 

Ei! Quero que saiba que nem tudo o que não foi escrito ficou perdido; bem, é o que eu desconfio...  Algumas partes estão verdes, com circunferência e eixos tortos. Outras dependem de uma dor baixar de temperatura, ou de uma pergunta ganhar contorno (já nem sei mais onde colocar (bem) o ponto de interrogação, viu?) ou de uma experiência semi-deixar de ser apenas impacto para se tornar linguagem.

Existe um tempo estéril, eu sei. Mas acho que estou abusando disso. 

Meu desafio agora é olhar de novo, para a página em branco.

Ou será que estou cansada? 

Quero te contar algo que sinto vergonha, mas como teremos uma longa relação, preciso confessar... 

Tenho uma outra caderneta onde anoto (pelo menos uma parte) os filmes, séries, vídeos no YouTube, blogs que tenham como tema central a escrita. Fui checar no histórico e fiquei constrangida o quanto acabei, indiretamente, humilhando a mim mesma... Provoco, diariamente, uma auto dispersão assumida.  

Dezenas e dezenas de interações em coisas que não tem absolutamente nada a ver. Sim, eu perdi tempo também com redes sociais (porque achava que iria "captar inspiração") e, na verdade, só fiquei no vai e vem dos memes e idiotices. 


✦ ✦ ✦


Carta 7

Querido livro,

Você não me pede perfeição; isso parece, em alguns momentos, ser mais afronta do que libertador. Sinto o rubor estampar meu rosto. Não sei explicar o motivo, mas fico com a boca seca, respiração curta, tremor nos olhos começo a escrever as cartas para você. Sendo sincera, nem sei porque decidi escrever cartas para você, meu indecifrável Livro Que Não Foi Escrito. 

Toda a minha encenação de controle, toda a minha vontade de chegar pronta, toda a minha necessidade de saber antes de fazer, nada disso parece interessar muito a você. O que você pede é menos majestoso: presença, trabalho, constância. Se eu vestir um tailleur, calça jeans, camiseta roxa e chinelo de dedo (chinelo de dedo parece pegadinha da língua portuguesa, pobre estrangeiro quando chega no Brasil... Nem quero imaginar o redemoinho na cabeça dele quando ouve "chinelo de dedo") Bem, mas voltando ao assunto, meu amadinho, será que se eu me vestir meio diferentona eu consigo abrir o Word com aquele ar de "Desafio Aceito"? 

Tá, tá, tá bom, não precisa responder. Que eu me sente e escreva, oras... 

Que eu fique um pouco mais, mesmo quando a frase não vem limpa e nem olhe de soslaio . Mesmo quando o resultado inicial não corresponde ao que imaginei e eu caia no desespero de ver aqueles garranchos. Afinal, o descontrole é meu e não seu, verdade? E a encenação também, claro. 

Ou talvez o rascunho tenha sido esquecido,  por tempo demais.

Ele não é a versão amarelada do texto — preciso lembrar que é possível negociar. Onde há excesso, falha, desvio, mas também algum tipo de verdade bruta que a lapidação posterior não cria, apenas organiza. 

Você não me pede clarão ou disciplina rígida. Volto a dizer, escrever: pede continuidade.


✦ ✦ ✦


Carta 8

Querido livro,

Um livro não é feito só do tema que escolhe abordar. É feito também da sensibilidade que intui, ou de um tipo de ferida ou espanto que o move. Dois autores podem tocar a mesma matéria e, mesmo assim, produzir obras que não se parecem em nada, porque a diferença não está apenas no conteúdo, mas na emoção, cada um deles sabe provocar uma taquicardia diferente. 

Você será escrito com o meu repertório, minhas hesitações, minhas leituras, minhas faltas, meus excessos, minhas loucuras, minha forma de notar o que passa despercebido e minha forma de falhar diante do que não sei nomear. Que eu lute e busque os dicionários para nomear o que me foge. 

Não há neutralidade nisso. E ainda bem.



✦ ✦ ✦


Carta 9

Queridíssimo livro,

Às vezes penso em quem poderia encontrar você. Pensamento, no mínimo, curioso: "quem poderia encontrar você". 

Ah, adoraria tomar um café com você.

Não falarmos no sentido grandioso, quase publicitário, de “mudar vidas”, mas de tocar uma pessoa num ponto exato. Alguém que abra uma página e reconheça ali uma pergunta, um incômodo, uma imagem, um modo de sentir que até então estava sem expressão.

Os livros fazem isso. Você fará isso? Que pergunta besta! Se tudo depende de mim...

Tive uma ideia... Que tal entrevistar você? Seria genial, hein? 

Olha eu aqui inventando mais uma...

Mas nada disso acontecerá enquanto você, através de mim, apenas permanece no imaginário. Tudo bem, vai... Eu até já escrevi umas dez páginas no Word. 

Um livro guardado no cabeça ou em dez páginas de Word não protege somente quem o escreve e, muito menos, dialoga com alguém.


✦ ✦ ✦


Carta 10

Querido livro,

Você está quase deixando de ser o Livro Que Não Foi Escrito.

Cheguei à parte em que preciso parar de falar sobre você como hipótese.

Talvez eu não saiba a forma definitiva, nem conheça a melhor abertura, pelo menos, já tenho começo, meio e fim. 

Eu não prometo genialidade, nem velocidade, ou outras coisas mirabolantes que vemos por aí...  Prometo outra coisa, menos vistosa e mais séria: não continuar fingindo que você não existe. Vou escrever de forma poética, mas me manterei coerente com a verossimilhança.  Aqui eu consegui expressar do meu jeito, com o que tenho, com o que posso, com o que aguento. E se não aguento, lavo o rosto, esfrio a nuca, massageio as mãos e sigo em frente.

Posso pedir para você não me abandonar?

Eu entendi (corretamente) o que você me respondeu? Foi isso mesmo? Você repetiu a pergunta que eu fiz para você para mim? Agora me senti encolhida, hesitante, tonta pela minha insensatez. Lógico, para você não me abandonar, sou eu que não posso abandoná-lo. Por que sinto um tremor no estômago?  

Com respeito, um abraço, 

De quem demorou, hesitou, recuou, mas decidiu escrever e, inclusive, já tem um rascunho; e que teve a pachorra de numerar as cartas... 




Se você se reconheceu nestas cartas

Talvez o que falte não seja talento, e sim direção

Talvez o problema não seja ausência de talento. Talvez também não seja falta de repertório. Em muitos casos, o que falta é direção, método, interlocução honesta e um olhar de fora capaz de perceber o livro possível dentro daquilo que parece fragmento.

A Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes existe para isso: ajudar você a encontrar forma, estrutura e voz para o livro que já vive aí, mas ainda não ganhou corpo.



Seu livro existe, mesmo que ainda não tenha páginas

Se estas cartas tocaram alguma parte do que você vem adiando, talvez seja hora de dar forma ao que está no rascunho.

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