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quinta-feira, 11 de junho de 2026

O Mito da Página em Branco e Como Abraçar o Caos Criativo

Quando o bloqueio criativo é o Caos pedindo passagem

O bloqueio criativo pode ser sinal de que o caos interno ainda não foi identificado, ou talvez, falte aceitação e paciência com ele. Entenda por que a página em branco é campo de possibilidades, e o que Mnemósine, mãe das Musas, tem a dizer sobre isso.




Sentir travamento diante da página em branco é uma das queixas mais comuns entre escritores iniciantes, e também entre os experientes. Mas e se o bloqueio criativo não fosse um problema a resolver, e sim um caos a reconhecer? Descubra por que o mito não está na página, e o que a mitologia grega tem a dizer sobre memória, criação e o momento de se lançar.

A página em branco tem sido tratada, por gerações de escritores, como um obstáculo a ser vencido. Acumularam-se técnicas, rituais, promessas de como superar o bloqueio criativo (não se trata de serem ineficientes, mas possivelmente porque alguns ângulos de análise sobre isso ficaram para trás). E, seja como for, ainda assim, a paralisia persiste. 

Talvez porque o problema nunca tenha estado na página.

A página vazia é um campo de possibilidades, sem julgamento. O que pode estar acontecendo, quando a escrita não flui, é que internamente algo ainda não encontrou forma: as possibilidades se acumulam sem hierarquia, as prioridades se embaralham, e o escritor chega à página carregando um caos que ainda não foi reconhecido como tal.

Reconhecer tudo isso é que faz a diferença.



O Caos não é o problema — é o princípio

Nas cosmogonias antigas, o Caos precede tudo — antes dos deuses, da ordem, das formas. 

Do Caos emergiram as divindades primordiais, entre elas Urano, o Céu, e Gaia, a Terra. E foi dessa linhagem que nasceu Mnemósine, a titã da memória, figura anterior às próprias Musas.

As Musas, filhas Mnemósine com Zeus, nasceram de uma gestação em que estiveram juntos por nove noites. E qual o "segredo" das Musas para inspirar deuses, deusas e humanos? 1 Dom da Verdade e Memória Absoluta 2 Controle Sobre a Verdade e a Ilusão 3 Cura Pelo Esquecimento das Dores. 

Em um famoso trecho da mitologia, as Musas dizem a Hesíodo: "Sabemos dizer muitas mentiras semelhantes aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir verdades."

Interessante, hein? Como dizem as IAs, isso é ouro! 

A inspiração, nessa lógica, não cai do céu. Ela emerge do que foi acumulado, sedimentado, lembrado. Mnemósine não entrega ideias prontas para escrever um livro. Ela funciona como um espelho: devolve ao escritor o que já existe nele, mas que ainda aguarda ser convocado pela imaginação. Sem imaginação ativa, a memória fica muda. E sem memória alimentada, a imaginação gira em falso.


A fase anterior que a maioria ignora

Há algo que acontece antes de a escrita começar, que é uma desordem caótica que se "apazigua um pouco" quando se começa, por fim, a escrever com inteireza. 

O caos interno precisa de algum lugar para se exteriorizar antes de ganhar forma no texto. Por isso faz sentido o gesto simples, quase artesanal, de abrir o computador com um caderno ao lado. Para quem escreve à mão, um segundo caderno de apontamentos cumpre a mesma função: guardar o fragmento solto, a imagem que apareceu sem aviso, a frase que chegou antes da hora.

Desbloquear a escrita, muitas vezes, começa por aí — não em frente ao cursor piscando, mas nesse espaço de rascunho anterior, onde nada ainda precisa ser bom.

A vertente que corre em paralelo

E há também o que acontece durante a escrita: uma corrente subterrânea que corre ao lado do texto principal, quase em paralelo. Às vezes mais viva do que o que está sendo escrito. Uma observação lateral, uma dúvida, uma associação inesperada. O caderno ao lado existe para isso também: para não perder essa vertente enquanto o texto principal avança.

O escritor que se senta diante da página precisando produzir algo acabado está pedindo ao Caos que se comporte. E o Caos não se comporta. Ele fervilha, bifurca, contradiz, volta atrás. É gerador exatamente porque não obedece.


A pergunta que fica

Como superar o bloqueio criativo pode ser a pergunta errada. 

O bloqueio criativo pode ser sinal de que o caos interno ainda não foi identificado e que a escrita está esperando, não por inspiração, mas por coragem e força de ação. 

A página aberta não pede organização prévia, provavelmente apenas peça que o escritor se lance.


* * *

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* * * 


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sexta-feira, 17 de abril de 2026

A Inspiração Para a Escrita Não Mora Aqui — Mas Pode Entrar

Bloqueio criativo, presença e o paradoxo da hóspede exigente: a inspiração


Tem dias em que o vazio de dentro é diferente do silêncio de fora, ou da ação. 

O do mundo externo é (ou pode ser) apenas ausência de comunicação; o da ação, por vezes, parece indisposição. 

O de dentro pesa (estranho pensar que o vazio pesa, mas em alguns instantes percebo isso).  

Quem sabe seja algo preso na garganta, lágrimas que não caíram, um medo que tomou a decisão de se instalar, enfim, essas coisas que circulam que dificultam a palavra se tornar escrita.

Nesses dias, sentar para escrever parece uma piada de mau gosto.

E talvez seja. Às vezes.

Inclusive você pode escrever sobre isso. 


Escrever sem vontade: desperdício ou exercício?

Aterrissando... É interessante, no mínimo incômodo lembrar... Escrever sem vontade nem sempre funciona para a narrativa que você está construindo. 

O trecho produzido num dia árido pode representar algo como... um deserto gélido à meia-noite. Quem esteve num deserto durante a madrugada, entenderá; se você não esteve, tudo bem, tente imaginar. Ou converse com alguém que já esteve ou pesquise no Google. 

Mas, vamos retomar. Não acredito que você tenha desperdiçado tempo (pense que está ganhando músculos); e, paralelamente, talvez também seja isso: jogá-lo fora também faz parte do processo — não é derrota, é triagem. 

Pense que o papel do exercício da escrita cumpriu sua trajetória, mesmo que pequena, e isso é bacana. 

Mas há outra camada aqui.


A hóspede insubmissa e exigente

Ela é a engrenagem sutil, e ao mesmo tempo, o coração dentro do mecanismo da escrita. E como tudo que pulsa, tem seu próprio ritmo e interesses. 

A inspiração tem um comportamento peculiar. Não chega só porque queremos. Ela é insubmissa, independente, não aparece só porque você precisa dela.

Age mais como um hóspede com agenda própria: some por dias, retorna sem avisar, senta ao seu lado no meio de uma frase qualquer — justo naquele momento em que você escrevia quase por teimosia, quase sem querer. Quando isso acontece, merece um brinde. Tin! Tin!

De repente, você desviou o olhar e ela foi embora. Talvez, ela tenha partido porque você, sem perceber, não conseguiu lhe dar atenção.

Calma, é compreensível. Sei que a vida nunca cansa de seguir vivendo, e isso também faz parte do processo.

Só que há um paradoxo nessa história: ela pode até ser hóspede, mas não é você quem dita as regras, mesmo que a casa seja sua — ela mantém o controle das próprias escolhas — logo, não se deixará influenciar.

Exigente e fugaz, mas também generosa, ela dirá, de maneira quase inaudível, exatamente o que você precisa ouvir.

Por isso ela exige uma única coisa: sempre tenha algo à mão para anotar. É a forma que ela interpreta que a sua casa pode ser seu lar — mesmo que temporário. 


O que você tem dentro da casa?

Ela quer encontrar uma casa com vida dentro. Quer saber o que você tem lido, que museus visitou, quais quadros te detiveram por mais de trinta segundos, se você tem prestado atenção nas pessoas falando, nas pausas, nos desvios, nas discrepâncias, nos desacordos, nas palavras que escolhem quando estão nervosas e as cores que estavam ao redor naquele momento em que as emoções eclodiram. 

Isso é quase o imaterial que se torna material; melhor, é o que alimenta a materialização da escrita.

O conteúdo, então, aparece e pode ser dobrado, desdobrado, ampliado e enriquecer a sua história. 

Escrever sem vontade é um gesto, uma atitude, de optar por estar presente; mas presença, aqui, tem sentido mais amplo, esférico, multifacetado. 

Não é só sentar. 

É também o que você acumulou antes de sentar (se quiser, inclua tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores): mais o cheiro de eucalipto daquela pequena trilha onde você caminhou às 6h50 quando o sol estava oblíquo — deixando o verde praticamente dourado; a frase ouvida no ônibus; a textura e a temperatura de um muro que você tem evitado, mas que te provoca curiosidade para saber o que há além dele. 


A duração da visita? Não cabe a você decidir. 

O corpo tem que pedir para a alma conferir o rito (e vice-versa): a cadeira, a luz da tela, o atrito dos dedos sobre o teclado, trazer para junto de si aquela caneta que não está falhando, as lembranças, a imaginação, a disposição interna para não se perder entre as distrações externas. 

E falando de luz, sua luz interna deve ser acesa — você escolhe como isso poderá ser feito.

Deve conferir a taquicardia contente ou certificar-se que o lenço de papel está ao seu alcance, afinal, nós também choramos de alegria. 

Esse conjunto (o material, o sensorial e o energético), sinaliza que, possivelmente, é hora. Não é uma determinação, é uma sugestão apenas. 

No fundo, às vezes eu me pego refletindo, que a inspiração seja leve demais; qualquer vento que sopre a leva para longe. Por isso a importância de optar por estar presente. 

Convide o imaginário para sentar-se ao seu lado. Na personificação, me envolve uma suspeita: se a Inspiração fosse escolher um par, escolheria o Imaginário.

Quando ela chega e entra, creia-me, não irá te informar por quanto tempo ficará; tenho um palpite que a inspiração não gosta de dar satisfação para ninguém.

Aproveite estas horas de fluxo; aquela sensação rara em que as palavras chegam antes dos dedos (é preciso retê-las com todas as forças) e que os dedos (ufa!) conseguem acompanhar. Saiu com um monte de erros de digitação, mas não importa, depois você corrige na releitura. Um único parágrafo, uma imagem bem descrita, uma frase que ilumina...  Depois, você irá constatar que tomou corpo na tela que estava em branco ou no papel. 

Mesmo no meio desse turbilhão, alguns trechos podem fazer o motor da narrativa funcionar. 

A estadia é dela. Aprender a trabalhar com o tempo que ela oferece, seja curto ou longo, também faz parte do ofício. 

E se pensarmos ao contrário?

Ela, a inspiração, não desaparece, penso que nem faz parte da sua essência simplesmente sumir (não identifico vantagem nenhuma nisso); mas, tampouco acredito que ela goste de ficar trancada em qualquer lugar que seja.

Pode ser que ela esteja numa estrada, num parque, ao lado de um bebê que está aprendendo a falar, naquele gatinho recém adotado que pede colo, numa consulta de tarot para escritores, no primeiro salto de uma paraquedista, num malabarista. 

Ou ainda, a inspiração se ausente da sua casa para te convidar a visitar outros lares, outros ambientes, e quase te fazer perder o fôlego ao sentir as rajadas dos bons ventos durante o percurso. 


Sobre manter a porta aberta para a inspiração

O que está do lado do escritor é a disposição de abrir a porta; perceber que a sua impermanência é real, mas ter algo dentro da casa que valha a visita.

(Se o tema de portas, limiares e o instante certo da abertura ressoa para você, talvez valha explorar Portunus e Jano — e o que as passagens têm a ensinar sobre escrita e vida.)






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sexta-feira, 27 de março de 2026

O que acontece quando o texto não avança — mesmo havendo ideias

Há textos que não avançam mesmo com boas ideias... Entenda como identificar o que impede a escrita de estruturar e desenvolver aquilo que já existe dentro de você.




Sabe aquele momento em que você não sabe se está mergulhado no caos ou se é o vazio atrevido que começa a se insinuar? A confusão parece ocupar cada espaço? 

Fique aqui: vamos dar nome e direção ao que lateja na hora de escrever; quando os dedos na tela ou no caderno (como se tivessem vontade própria) se recusam a corresponder.

Não é falta de assunto, nem ausência de repertório. A ideia existe, às vezes até com nitidez: você sabe o que quer dizer, reconhece o ponto central, enxerga cenas, argumentos ou imagens. Ainda assim, o texto não avança.

Ele começa. Primeiras palavras. Para. Duvida. Passa a dúvida. Retorna. Escapa.

E, quanto mais se tenta insistir, mais ele se contorce e resiste.


Quando a dificuldade não está na ideia, mas na construção

Possivelmente o problema não está no que se quer dizer, mas em como isso se sustenta, se organiza, se desdobra por escrito.

A ideia pode estar clara internamente, mas ainda não se organiza no papel. Falta sequência, encadeamento, continuidade. As frases não se apoiam, os parágrafos não se desenvolvem, e o texto não ganha corpo.

Isso costuma gerar uma sensação específica: a de estar sempre começando, sem conseguir avançar de fato.

Talvez falte chão. Mas o que seria esse chão, aqui?

Pode ser estrutura mínima. Pode ser um esboço que ainda não foi feito. 

Uma sugestão: Fichas de personagens, um rascunho do universo, anotações mais organizadas — às vezes, não é a ideia que precisa de mais força, é o terreno que ainda não foi preparado.


O excesso também interrompe

Existe uma ideia (pré-concebida) meio repetida — quase automática — de que travamento vem da falta: seja de ideia, inspiração, repertório… o tal “bloqueio criativo”. 

Pode ser que sim. Pode ser que não. Mas nem sempre.

Há textos que não avançam justamente porque há demais:

  • caminhos possíveis
  • interpretações que se abrem sem parar
  • variações que não chegam a se fixar

O texto não para por ausência, mas talvez... esteja sendo difícil decidir.

Provavelmente, o ponto aqui seja a coragem de escolher. 

Escolher um caminho. Sustentar essa escolha e o caminho. E aceitar que, ao fazer isso, outras possibilidades ficam de fora. E está tudo bem! 


Quando a expectativa interfere

E, quando isso acontece, escrever deixa de ser um gesto mais solto, mais divertido e começa a ganhar uma espécie de tensão. 

Você escreve um parágrafo e já olha para ele com desconfiança. Volta. “Não, não está perfeito.” Ajusta. Procura no dicionário. Revisa. Edita. Entra um calor pela mandíbula e, na impaciência, você decide apagar.

Por favorzinho, não apague. Deixe como está e reinicie o parágrafo. Às vezes, ele pode se completar em outro espaço.

É como se algo ali precisasse de um cuidado especial… Por outro lado, o cuidado excessivo, justo no momento criativo, pode virar trava. Fique de olho e seja mais complacente com a sua escrita.

Se fizer assim, o texto avança.


O texto ainda não encontrou o seu ritmo

Alguns textos precisam de um certo tempo até engrenar. Não é sobre ter ou não ter ideias, é sobre encontrar um jeito de seguir: mais direto, mais sinuoso, mais fragmentado, mais contínuo… cada texto irá responder num andamento próprio.

Novamente, voltamos para a questão: decida, escolha. Pelo menos até deslanchar um pouco. Depois você pode des-decidir ou des-escolher (risos) e tente novos rumos. 

Enquanto isso não se mostra, tudo parece meio desalinhado mesmo. 

E aí vem aquela sensação incômoda de que tem algo errado. E, quero deixar claro aqui, que não tem nada errado não, combinado? Talvez seja bacana lembrar: pensar e escrever é o primeiro passo; repensar e reescrever é a jornada. 

Às vezes, o texto só ainda não encontrou o seu jeito de acontecer.


Quando o autor já sabe demais

Faz alguns dias, estive conversando com uma advogada e, logo depois, chegou outra profissional da mesma área. Nem preciso dizer que, depois de 10 minutos de conversa entre elas, eu não entendia absolutamente nada. Em seguida, li os textos delas e brinquei: “Onde está a tecla SAP?” (risos)

Vamos ao caso do escritor/a que ama o mundo da leitura e os assuntos editoriais. Posso até afirmar que quem se dedica à escrita também desenvolve uma linguagem própria entre seus pares.

Quando há consciência técnica, referências, noções de estrutura, de estilo, de efeito, tudo isso pode interferir no fluxo inicial. A escrita deixa de ser tentativa e expressão criativa e passa a ser uma construção monitorada desde o primeiro momento.

Importante lembrar que, como em todo processo de construção, para caminhar é preciso ter a consciência de que o desenvolvimento é inerente antes da edificação final. O texto vai sendo elaborado, encaixado…


Há um ponto em que é preciso escrever mesmo sem certeza

Nem todo avanço vem da clareza. Talvez seja interessante permitir-se escrever alguns textos para nada, por nada — afinal, a única pessoa que irá ler, pelo menos na fase inicial, é você mesma.

Há um estágio em que a escrita só se revela enquanto acontece. Esperar que tudo esteja no ápice da inspiração criativa, que tudo ao redor esteja na mais perfeita harmonia (sorry, aqui tem um pouco de ironia, para descontrair), que tudo esteja resolvido antes de escrever, pode manter o texto eternamente em estado de intenção.

Em alguns momentos, avançar significa aceitar (de verdade!) a imperfeição provisória:

  • sustentar frases ainda instáveis
  • permitir que o texto exista antes de ser compreendido por completo

É uma etapa. E ela também é importante.


Um deslocamento possível

Em vez de perguntar “por que não consigo escrever?”, talvez seja mais honesto perguntar:

O que, aqui, ainda não estou conseguindo estruturar?

Essa pequena mudança não resolve imediatamente o travamento. Mas muda a forma de olhar.

E, às vezes, é isso que permite que o texto volte a avançar — não por insistência, mas porque algo começa, aos poucos, a se organizar.








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terça-feira, 17 de março de 2026

Como o Tarot pode ajudar escritores: entrevista com Laura Bacellar sobre criatividade, arquétipos e narrativa

Entrevista com Laura Bacellar: Tarot e escrita criativa, como os arquétipos orientam o processo do escritor


Do bloqueio criativo ao desenvolvimento de personagens, o Tarot como ferramenta simbólica no processo de escrever

Por: Clene Salles

Breve História do Tarot

O Tarot chegou à Europa no século XV, provavelmente pelos portos de Veneza, no auge do comércio marítimo. Composto por 78 cartas — 22 Arcanos Maiores e 56 Menores —, nasceu como jogo de entretenimento nas cortes renascentistas italianas. Os Arcanos Maiores reúnem figuras arquetípicas mais encorpadas, robustas; já os Menores (não menos arquetípicas), se organizam em quatro naipes — espadas, copas, ouros e paus —, cada um associado a um elemento e a uma dimensão da experiência humana: pensamento, emoção, matéria e ação. No entanto, há quem afirme que é tão ou mais antigo do que as pirâmides do Egito; na verdade, sua real natureza e origem são incertos, desconhecidos. 

No entanto, foi Carl Gustav Jung quem deu ao Tarot uma legitimidade psicológica duradoura. Embora não tenha escrito diretamente sobre o baralho, Jung reconheceu nos Arcanos Maiores representações visuais dos arquétipos do inconsciente coletivo — padrões universais que habitam a psique humana e se manifestam em mitos, sonhos, arte e símbolos culturais. Sua aluna, Sallie Nichols, foi quem analisou e sistematizou as diferentes etapas da jornada arquetípica do tarot, no seu livro Jung e o Taro.

É nessa interseção entre símbolo, inconsciente e narrativa que o Tarot encontra a escrita. Quando um autor se senta diante das cartas com uma dúvida sobre sua obra, não está buscando uma resposta mágica — está convocando os arquétipos para iluminar o que a razão, sozinha, não alcança. É exatamente sobre essa prática que Laura Bacellar, editora, escritora, e xamã fala nesta entrevista: como o Tarot pode se conectar ao processo criativo para trazer clareza, desbloquear narrativas e revelar ao escritor aquilo que ele ainda não sabe que sabe.




1. Laura, como você orienta quem vai consultar o Tarot pela primeira vez com foco na escrita? Há algo que a pessoa deve trazer consigo além das dúvidas?

Peço que chegue com as perguntas já formuladas e com algo para anotar — tanto o que trouxe quanto o que surgir nas cartas. O Tarot é um sistema simbólico e arquetípico, e a qualidade do que se recebe tem relação direta com o grau de atenção e foco de quem pergunta. Quanto mais específica e presente a pessoa estiver, mais a consulta tem condições de responder ao que ela, de fato, precisa saber.

2. Você trabalha com as 78 cartas ou há situações em que recorre apenas aos Arcanos Maiores e/ou Arcanos Menores?

Trabalho com as 78. Mas a experiência mostra que é importante reconhecer que há um peso diferente que os Arcanos Maiores carregam quando aparecem — eles falam do que é essencial, do que é estrutural para aquele autor. Se aparecem no jogo são eles que costumam tocar nas dúvidas mais fundas do processo criativo: Sou capaz? Tenho algo a dizer? Estou no caminho certo? Os Menores podem trazer as nuances do cotidiano da escrita. Juntos, compõem uma leitura completa.

3. O Tarot para escritores serve a qualquer momento do processo — início, meio, fim — e a qualquer perfil de autor, do estreante ao consagrado?

Há uma longa história que responde por mim. Sylvia Plath recorria ao Tarot. Italo Calvino fez dele a própria estrutura de O Castelo dos Destinos Cruzados. Philip K. Dick, cujas obras estão na origem de Blade Runner, também se valia de sistemas oraculares. O ponto não é o estágio da carreira nem o da obra — o Tarot tem algo a oferecer em qualquer encruzilhada, impasse do processo criativo.

Para saber mais: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/os-escritores-que-usavam-taro-e-os-jogos-de-sorte-na-escrita-de-seus-livros.phtml / Italo Calvino: https://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=8256 


4. A especificidade da pergunta muda o alcance da resposta?

Muda tudo. Há uma diferença enorme entre chegar com "meu livro vai dar certo?" e trazer algo como: "Meu personagem é um soldado — ele fica nas trincheiras ou avança para a linha de frente?" O segundo tipo de pergunta permite que o Tarot responda com igual precisão. A vagueza na pergunta produz certa névoa na leitura.


5. Existe um intervalo recomendável entre uma consulta e outra?

A pessoa precisa de tempo para assentar o que surgiu, deixar que o conteúdo trabalhe nela e na narrativa, ou seja, colocar em prática no desenvolvimento do seu texto. Consultar repetidamente sem esse ciclo de integração é desperdiçar o que foi revelado.

Há, porém, situações que justificam retornar antes: quando surge um personagem novo com peso narrativo significativo, ou quando o processo traz uma intuição inesperada que muda o que havia sido antes planejado. Um exemplo concreto: uma autora que decidiu que sua protagonista vai se separar do marido: o casamento está em conflito, a direção parecia clara. Mas no meio da escrita, ela intui que um plot twist interessante seria a personagem descobrir que está grávida. O que fazer com isso? Ela segue com a separação mesmo assim? Adia? Esse tipo de dilema, que surge do próprio processo criativo, pode muito bem pedir uma nova consulta.


6. O que o Tarot costuma revelar quando um escritor pergunta sobre um bloqueio?

Não remove o bloqueio, esclarece o motivo, ilumina sua razão. Mostra o que está na raiz, o que está por trás do emperramento. E muitas vezes a própria carta já carrega a chave para lidar com isso. Se surgir a Estrela, o bloqueio pode ter origem na perda de fé no próprio trabalho — o autor que não consegue mais enxergar sentido no que escreve, ou que idealizou tanto a obra que o que sai no papel nunca está à altura do que imaginou. A esperança, paradoxalmente, virou obstáculo. Já o Dez de Espadas fala de esgotamento extremo — o autor que chegou ao limite, que foi longe demais sem se recolher, e cujo corpo e mente simplesmente recusam continuar. Não é falta de talento, não é falta de ideia. É colapso. E o Tarot tem a precisão de mostrar exatamente isso: não o que o autor não tem, mas o que ele não aguenta mais carregar.


7. O que o Tarot oferece à criatividade que os métodos de escrita criativa não alcançam?

Os cursos ensinam estrutura, técnica, método. O Tarot opera em outro registro — ele acessa recursos do inconsciente que a pessoa talvez ainda não saiba que tem. Por meio de símbolos e arquétipos, abre portas que a razão não abre. E o que surge é sempre singular: o Tarot não dá respostas genéricas. Ele responde àquele escritor, àquela obra, àquele momento.


8. Quando um arquétipo surge para um personagem, como o escritor pode trabalhar essa informação depois?

Pesquisando a fundo. O Rei de Copas, por exemplo, tem suas características, seus símbolos, sua própria jornada interna e externa. A partir daí, o autor desenvolve, decanta, burila — e incorpora na narrativa apenas o que é oportuno. É um processo criativo em si: receber, aprofundar e deixar que a informação se transforme em substância literária.


9. O arco do próprio escritor — não somente o do personagem, mas o da pessoa que escreve — também pode ser lido?

Sim, desde que ela pergunte sobre isso. O jogo mostra em que ponto ela está, o que precisa acontecer primeiro, qual é o próximo passo mais honesto conforme a tiragem. Se surgir a Sacerdotisa, por exemplo, é sinal de que ainda não é hora de agir — é hora de escutar, recolher, deixar o conhecimento sedimentar, silenciar-se, principalmente, em relação ao projeto. O Tarot orienta não apenas a obra, mas o caminhar do autor dentro dela.


10. Você consegue perceber, pela consulta, quando um autor está escrevendo longe do que realmente lhe pertence — seja o estilo, seja o tema?

É um dos aspectos mais reveladores. O Tarot trabalha com a noção junguiana de Luz e Sombra — o que não reconhecemos em nós mesmos. Quando alguém está escrevendo para agradar, para seguir uma tendência ou para corresponder a uma expectativa que não é sua, o jogo mostra. A Lua é a carta da névoa, do que está oculto, da confusão sobre a própria voz. O Eremita pode sinalizar que é preciso um recolhimento antes de qualquer avanço. O Tarot tem uma forma muito precisa de nomear o descompasso entre o que o autor escreve e o que ele, de fato, identifica o que é melhor escrever.


11. Você consegue dar exemplos de correspondências entre alguns arcanos e gêneros ou territórios narrativos?

Claro. Se alguém chega com a dúvida "devo escrever um romance romântico ou erótico?" e sai o Ás de Paus — fogo, impulso, desejo — a resposta aponta para o erótico. Se sair o Ás de Copas — água, emoção, profundidade afetiva — o caminho é o romântico. Para uma pergunta mais aberta, como "qual gênero me corresponde?", o Diabo pode indicar uma narrativa de tensão, poder e transgressão — tramas envolvendo obsessão, dinheiro, jogos de controle. O Louco, por sua vez, pode sugerir uma narrativa de liberdade radical — alguém que parte sem mapa e sem destino definido. Cada arcano é uma porta. E cada porta abre para um universo narrativo distinto.


12. O que este trabalho desperta em você?

O que continua me surpreendendo é que o Tarot frequentemente responde de um modo que eu, como editora, não responderia. Não tenho nenhuma ingerência na resposta que surge nas cartas — ela não passa por mim. Essa independência entre o que penso e o que o jogo revela é, para mim, um dos aspectos mais fascinantes, intrigantes e honestos de todo o processo. O Tarot não me reflete. Ele revela o que está além do que eu poderia oferecer só com minha experiência profissional.


Fechamento
Laura, para encerrar, uma consulta ao "vivo"; aqui, nesta conversa, neste sábado, 14 de março de 2026, às 20h:


"Tarot, o que esperar desta entrevista?"
As cartas: Oito de Ouros, O Sol, A Roda da Fortuna e A Imperatriz.

Que conjunto. O Oito de Ouros fala de dedicação e maestria — há aqui um trabalho feito com cuidado, muito bem pensado e comprometimento genuíno. O Sol traz clareza e visibilidade: esta conversa tem potencial para chegar às pessoas certas. A Roda da Fortuna anuncia movimento, um ciclo que se abre; o que começa aqui pode gerar desdobramentos que ainda não se veem. E a Imperatriz é a carta da criatividade fértil, do que floresce e se multiplica. Juntas, essas quatro cartas dizem que esta entrevista tem vida, tem substância e tem futuro.

 

Agradecimento

Conversar com Laura Bacellar é uma oportunidade de rever e introjetar a forma como os arquétipos funcionam em nós, e perceber que dessa compreensão nasce uma abertura ao mesmo tempo psíquica, espiritual e criativa. 

Obrigada por mostrar, com generosidade, clareza e precisão, como o Tarot e a escrita podem se conectar a serviço de uma narrativa, de uma resposta, de um caminho, uma direção que é uma verdadeira joia para escritores/as, autores/as. Que estas cartas, e estas palavras, cheguem a quem precisa encontrá-las.



Laura Bacellar, Tarô para Escritores e Consultoria sobre o Mercado Editorial

Escreva Seu Livro

Laurabacellar@escrevaseulivro.com.br

WhatsApp +55 11 99801-3090 

YouTube: Canal Escreva Seu Livro



Sobre mim :) 



Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português)

Trabalhei como freelancer para as seguintes editoras: Melhoramentos, Abril, Larousse, Planeta do Brasil, Prumo, Ediouro, Letraviva, Évora, Girassol, Ave-Maria entre outras; e com Projetos Especiais Editoriais no Peru. 

Além disso, para quem não sabe, eu sou Astróloga, Orientadora de Feng Shui e Litoterapeuta (segundo a tradição da MTC) há mais de 40 anos (sim, eu comecei bem jovenzinha (risos)).

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