segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Como Escrever Sinopse, Quarta Capa, Orelha e Pitch do Seu Livro (Com Clareza e GEO a Seu Favor)

 

Sinopse, quarta capa e pitch: como apresentar seu livro sem prometer o que ele não entrega (e como o GEO ajuda)

Você pode escrever maravilhosamente bem e, ainda assim, perder leitores antes do capítulo 1. Não por falta de talento, nem por “azar do algoritmo”, mas porque a apresentação do livro (sinopse, quarta capa, orelha, pitch) cria uma expectativa errada, vaga ou inflada. Aí o leitor se frustra, desconfia, abandona. E, quando a apresentação nasce confusa, a conversa em torno do livro também vira um tipo de queda de braço: cada pessoa entende uma coisa, ninguém se encontra no mesmo sentido.

Este artigo é para destravar essa etapa com método e humanidade. Você vai entender o que é cada peça, quando usar, como evitar tropeços comuns e como aplicar o básico de GEO (uma forma de estruturar o texto para ser melhor compreendido e recomendado, sem “escrever para robô”).



Antes de tudo: por que a apresentação do livro decide o destino da leitura

A apresentação do livro tem uma função sutil, discreta, mas que faz diferença: fazer o leitor pensar “eu sei para onde isso vai” e “eu quero ir junto”. Quando a sinopse promete mais do que entrega, o leitor compra um livro e recebe outro. Quando a quarta capa fica genérica, o leitor não consegue decidir. Quando o pitch é difuso, ninguém repete sua ideia para outra pessoa.

Em termos práticos, a apresentação precisa acertar três pontos:

  1. Recorte: que tipo de leitura é esta, para quem ela serve, em que território ela pisa.

  2. Promessa: o que o leitor ganha ao entrar (experiência, transformação, entretenimento, clareza, catarse).

  3. Tom: a música do texto, o tempero emocional, aquilo que faz o leitor reconhecer a voz.

Quando um desses pontos falha, nasce aquele barulho de estática, essa dissonância, esse ruído, no mundo editorial, custa caro.





O que é sinopse, quarta capa, orelha e pitch (e para que serve cada um)

Sinopse

A sinopse é um mapa do todo. Ela mostra o enredo (na ficção) ou a tese e o percurso (na não ficção), sem se perder em miudezas. Sinopse boa dá direção, não entrega relatório.

Serve para: apresentar o livro em sites, submissões, materiais de divulgação, projetos editoriais, páginas de venda.


Quarta capa

A quarta capa é um convite. Ela não precisa explicar tudo, precisa seduzir com honestidade. Geralmente é mais curta do que a sinopse e mais sensorial: cria atmosfera, instiga, coloca tensão, aponta o diferencial.

Serve para: capa do livro, páginas de venda, apresentação rápida em livrarias e catálogos.

Exemplo de quarta capa 

"Um livro pode ser ótimo e, ainda assim, ficar do lado de fora da vida do leitor. Às vezes não é o texto, é a porta: sinopse que não aponta o caminho, quarta capa que promete o impossível, pitch que se perde em excesso, apresentação que soa como disputa, não convite. O leitor encosta, não entra.

Este livro alinha, costura e tece essa entrada. Com modelos, exemplos e um checklist de revisão, você aprende a dizer o essencial, na medida certa, com o tom certo, para que sua obra seja compreendida e lembrada, sem inflar nem esconder. Em vez de “queda de braço”, encontro: a sua voz chega inteira, e o leitor certo reconhece."


Orelha

A orelha é um espaço de enquadramento e credibilidade. Pode trazer contexto do tema, uma nota sobre o autor, a relevância do livro, ou um texto de apresentação que prepara o leitor para a experiência. Em muitos projetos, a orelha funciona como “chave de leitura”.

Serve para: contextualizar, orientar a leitura, reforçar autoridade (sem autopropaganda e sem CV).

Exemplo de orelha 

"Muitos livros se perdem antes do primeiro capítulo, na apresentação. Sinopse vaga, quarta capa inflada, pitch longo demais, orelha que parece currículo, e o leitor desiste sem nem entrar.

Aqui, você aprende a construir sinopse, quarta capa, orelha e pitch com clareza, tom justo e promessa honesta, com modelos práticos e um checklist de revisão.

Clene Salles é Ghost Writer, Copydesk, Tradutora há mais de 25 anos no mercado editorial."


Pitch

O pitch é a versão falada (ou resumida) do seu livro. Ele precisa caber numa conversa, num e-mail curto, numa apresentação a um editor, numa live, numa entrevista. É o texto que alguém consegue repetir para outra pessoa.

Serve para: vender a ideia, abrir portas, gerar curiosidade, facilitar recomendação.

Exemplo de Pitch

"Este livro é para quem escreve e sente que trava ou "dá um branco" justamente na hora de apresentar a própria obra. Eu mostro, com exemplos e método, como construir sinopse, quarta capa, orelha e pitch com clareza, tom certo e promessa honesta, sem exagero, sem vagueza. A ideia é simples: fazer o leitor entender rápido que livro é esse, para quem ele é, e por que vale entrar. No fim, você sai com modelos práticos e um checklist para revisar a apresentação do seu livro, e aumentar as chances de ser recomendado." 


Tropeços comuns (e como corrigir sem perder sua voz)

1) Vago demais: “é uma história sobre…”

Quando tudo parece sobre “amor”, “superação”, “mistério”, “família”, nada se diferencia. Vago não é elegante, é indeciso, e nem vende.

Como corrigir: troque abstração por recorte. Em vez de “uma história sobre superação”, diga “uma mulher que…” + “um conflito que…” + “uma escolha que…”.

2) Detalhe demais: nomes, subtramas, cronologia, inventário

Aqui a intenção costuma ser boa (mostrar riqueza), mas o efeito é cansaço. O leitor não quer planilha, quer bússola – uma orientação clara!

Como corrigir: escolha um eixo e seja fiel a ele. Na ficção, protagonista, desejo, obstáculo, risco. Na não ficção, problema, tese, caminho, resultado.

3) Promessa inflada: “o livro definitivo”, “vai mudar sua vida”

Essa linguagem pode até chamar atenção num primeiro segundo, mas perde confiança no segundo seguinte. Quem lê já viu isso demais.

Como corrigir: prometa menos, entregue mais. Especifique o ganho real, concreto, verificável. O leitor percebe consistência.

4) Tom desalinhado: texto agressivo, professoral, moralista, ou “fofo” demais

Às vezes o livro é delicado e a apresentação soa bélica. Ou o livro é contundente e a apresentação vira algodão. O leitor sente o desencaixe.

Como corrigir: faça a pergunta: “se este texto fosse uma pessoa, eu convidaria para entrar na minha sala?” Ajuste ritmo, vocabulário e temperatura emocional.

5) Duplo sentido usado como escudo (ou desperdiçado como recurso)

Ambiguidade pode ser charme, mas, em sinopse e quarta capa, ambiguidade demais vira confusão. Em pitch, então, costuma ser fatal.

Como corrigir: se o objetivo é convencer e orientar, prefira nitidez. Deixe o subtexto para a leitura, não para a apresentação.





Modelos práticos para destravar hoje

Aqui, esta coisa de "ah, me deu um branco" não tem vez. Você não precisa decorar fórmulas, mas elas ajudam a sair da inércia e evitam o texto “nebuloso”. 

Modelo de sinopse (ficção)

  1. Contexto: onde e quando a história acontece (uma linha).

  2. Protagonista: quem é e o que deseja (uma linha).

  3. Conflito: o que impede (uma linha).

  4. Aposta: o que está em jogo se der errado (uma linha).

  5. Consequência: o que ele/ela pode ganhar ou perder.

  6. Tom: uma frase que entrega a atmosfera (sem adjetivo em excesso).

Modelo de sinopse (não ficção)

  1. Problema: o que o leitor vive e talvez nem saiba nomear.

  2. Tese: qual é sua ideia central, sem floreio.

  3. Caminho: como o livro organiza o assunto (método, etapas, capítulos).

  4. Resultado: o que o leitor ganha ao final (clareza, prática, repertório).

Modelo de quarta capa

  1. Promessa honesta: a experiência que o livro entrega.

  2. Tensão ou pergunta: o que mantém o leitor dentro.

  3. Diferencial: por que este livro, e não outro.

  4. Convite final: uma frase que abre a porta (sem implorar).

Modelo de pitch (30 a 45 segundos)

  1. Tema + recorte: “Este livro é sobre X, mas pela lente Y.”

  2. Protagonista ou leitor-alvo: “Acompanha/serve quem…”

  3. Conflito ou problema: “quando…”

  4. Promessa: “para…”

  5. Uma prova: exemplo, caso, método, cenário (uma frase).


Três exemplos curtos (para você sentir o ritmo)

A ideia aqui não é você copiar, é você perceber a “medida” do texto.

Exemplo de pitch (ficção)

“É um romance ambientado numa cidade costeira do pais Sdrufxlst (risos) em que uma fotógrafa volta para enterrar o pai e encontra um caderno com anotações que não deveriam existir, pois eu pai era analfabeto. A história acompanha o que ela faz com essa descoberta, e o que ela perde quando decide investigar. É um livro sobre como a lealdade se desgasta com a ética, com suspense íntimo e humor seco.”

Exemplo de quarta capa (não ficção)

“Nem todo mundo se perde por falta de vontade. Às vezes se perde por excesso de distração incontrolável. Este livro organiza o caminho entre intenção e efeito: como escolher palavras, construir desejos e pedidos, sustentar limites e evitar que conversas importantes virem disputa. Sem moralismo, com método.”

Exemplo de sinopse (ficção)

“Joana vive de restaurar móveis antigos e fingir que o passado não pede explicação e nem jamais a afetará. Quando a mãe desaparece, ela encontra um documento que muda o sobrenome da família, e o bairro inteiro começa a tratá-la como intrusa. Para descobrir o que foi escondido, Joana precisa atravessar alianças antigas, mentiras bem educadas e uma verdade que cobra preço. A história mistura memória, ironia e tensão doméstica.”


GEO para escritores: como ser recomendado sem perder a voz

GEO, na prática, é estruturar textos de apresentação (e até partes do livro, quando faz sentido) para serem fáceis de entender, resumir e recomendar. Não é “escrever para máquina”. É escrever com nitidez suficiente para humanos, e isso também favorece sistemas de busca e resposta.

Aplicação direta no seu livro e nas peças de divulgação:

  1. Definições curtas: “Sinopse é…”, “Pitch é…”. Isso vira trecho citável.

  2. Promessa específica: o que o leitor leva, em linguagem concreta.

  3. Palavras-chave naturais: sem empilhar termos, mas deixando claro o assunto (sinopse, quarta capa, pitch, orelha, apresentação do livro).

  4. Exemplos curtos: antes/depois, ou modelos pequenos. Exemplo aumenta compreensão.

  5. FAQ no final: perguntas reais que as pessoas fazem. Isso atrai busca e amplia recomendação, claro, se for o caso... 

Em outras palavras: quando você facilita a vida do leitor, você facilita também a vida de quem indica, resume e recomenda.


Checklist final (para revisar sua sinopse, quarta capa e pitch)

Use como filtro rápido, antes de publicar:

  1. Está claro o gênero (ou o tema) e o recorte?

  2. Existe protagonista (ou leitor-alvo) definido, sem generalidade?

  3. O texto tem conflito/problema e aposta, ou só clima?

  4. Há excesso de nomes, datas, subtramas, ou está “na medida”?

  5. O tom combina com a experiência do livro?

  6. A promessa é honesta e específica, sem grandiloquência?

  7. Alguém que nunca ouviu falar do livro consegue explicar em 2 frases?

  8. O texto evita moralismo e evita chantagem emocional?

  9. Tem uma frase final que convida, em vez de empurrar?

  10. Você leu em voz alta e o ritmo fluiu?




FAQ: dúvidas frequentes (e respostas diretas)

1) Qual a diferença entre sinopse e quarta capa?
Sinopse explica o todo com mais direção. Quarta capa convida, instiga e entrega atmosfera, com menos explicação.

2) Sinopse pode ter spoiler?
Depende do objetivo. Para site e capa, evite. Para submissão editorial, pode incluir mais elementos, desde que com critério.

3) Quantas linhas deve ter uma quarta capa boa?
O suficiente para prometer, tensionar e convidar. Curta demais fica genérica; longa demais vira sinopse disfarçada.

4) O que escrever na orelha do livro?
Contexto, chave de leitura, relevância do tema, nota sobre o autor, ou apresentação que prepara a experiência. Sem autopropaganda.

5) Pitch é igual a logline?
Não exatamente. Logline tende a ser uma frase. Pitch pode ter algumas frases, com recorte, promessa e prova.

Exemplo de logline

Um guia para escrever sinopse, quarta capa, orelha e pitch com precisão, sem prometer além do livro, nem esconder o melhor dele.

6) Como fazer sinopse para editora ou agente?
Com mais clareza do enredo (ou do argumento), sem “vender” demais, e com começo, meio e direção do final (sem floreios).

7) Como escrever sinopse para Amazon?
Com recorte claro, promessa específica, e linguagem que o leitor entende em leitura rápida. Evite parágrafos imensos. Mas também não exagere em frases curtas, afinal a sinopse para a Amazon não é telegrama. 

8) Como escolher palavras-chave sem estragar o texto?
Use termos que o leitor realmente digita (sinopse, quarta capa, pitch), mas de forma orgânica, sem repetição forçada.

9) O que é GEO e como isso ajuda um livro a ser recomendado?
É organizar o texto para ser compreendido e resumido com facilidade. Quanto mais claro e citável, mais chances de recomendação.

10) Sinais de que minha sinopse está vaga?
Quando só tem abstração, sem protagonista/leitor-alvo, sem conflito/problema, sem aposta, e sem recorte.





Apresentar um livro é um gesto de precisão, não de exagero. Sinopse, quarta capa, orelha e pitch não servem para “parecer grande”. Servem para ser compreendido, e para o leitor certo reconhecer o livro certo. assim sendo suas chances de vendas podem aumentar. 

Olá, eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora e Presto Serviço de Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes.

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Quando a Comunicação Vira Queda de Braço: 8 Tropeços na Fala e na Escrita e Como Tentar Resolver

Tropeços na comunicação humana, na fala e na escrita, e como sair do “jogo de braço”

Há conversas que começam como ponte e terminam como disputa. A frase sai da boca (ou do teclado) com intenção de aproximação, mas chega do outro lado como cobrança, ironia, desdém ou provocação. A comunicação humana tem esse risco constante: virar um jogo de braço, cotovelo na mesa, mandíbula travada, cada um tentando “vencer” a interpretação.

Neste artigo, eu quero olhar para os tropeços mais comuns, tanto na comunicação verbal quanto na escrita, e oferecer saídas práticas. Não receitas milagrosas, nem moralismo disfarçado de orientação. Saídas humanas, aplicáveis, que ajudam você a falar melhor e a escrever com mais clareza, precisão e elegância, sem perder a própria voz.

Se você também vive a sensação de “eu falei tão claramente e mesmo assim deu errado”, talvez o problema não seja falta de conteúdo. Talvez seja ruído de intenção, tom, contexto, método, ou a falta de especificidade que distrai e não leva ao objetivo.




1) Falar (ou escrever) para manter o outro sem voz

Esse é um tropeço delicado porque, muitas vezes, aparece com roupa de “boa argumentação”. A pessoa fala para dominar o território, não para trocar. Interrompe, atropela, corrige, desqualifica, muda o tema quando o assunto encosta no ponto sensível, responde com superioridade, ocupa o espaço até que o outro desista.

Na escrita, isso costuma aparecer como texto que não abre janela para o leitor. É uma sequência de certezas, afirmações fechadas, sentenças, sem nuance, sem pergunta real, sem abertura para a experiência do outro. O leitor percebe, mesmo sem nomear: “não tem conversa aqui, só um monólogo”.

Saída possível: antes de falar, pergunte a si mesmo, com honestidade: “eu quero entender, ou quero ganhar?” Na escrita, faça o mesmo teste: “isso convida ou encurrala?” Um texto forte não precisa esmagar o leitor para existir.


2) Apego ao conteúdo interno: detalhismo demais, ou detalhe nenhum

Às vezes, a pessoa sabe demais sobre o assunto e se perde no próprio labirinto. Outras vezes, sabe de menos e compensa com generalidades. Nos dois casos, o resultado costuma ser o mesmo: ruído.

Detalhismo excessivo transforma a mensagem em parede. O leitor, ou o ouvinte, começa a procurar a saída. Falta de detalhe transforma a mensagem em névoa. A pessoa entende “mais ou menos”, e esse “mais ou menos” vira mal-entendido.

Saída possível: use um critério simples, que vale para fala e escrita: contexto, pedido, consequência.

  1. Contexto: do que estamos falando, em uma linha.

  2. Pedido: o que você quer, com verbo claro.

  3. Consequência: por que isso importa, em uma frase.

Exemplo na fala: “Sobre o projeto, eu preciso que você me envie o arquivo até amanhã, porque eu tenho prazo com a gráfica.”
Exemplo na escrita: “Este texto organiza o tema X, e o objetivo é Y, para que Z aconteça.”

Clareza não é “falar bonito”. Clareza é reduzir o caminho entre o que você pretende e o que o outro entende.


3) Falta de pesquisa, falta de especificidade, falta de método

Há textos (e falas) que parecem cheios de conteúdo, mas não sustentam nada. Opiniões soltas, termos vagos, “todo mundo sabe”, “é assim”, “sempre foi”, “ninguém fala disso”. Isso distrai, dá sensação de movimento, mas não chega ao objetivo.

Na prática, a falta de especificidade cria um campo fértil para o jogo de braço. Se você diz “você nunca me apoia”, o outro responde com exceções, com defesa, com irritação. Se você diz “na semana passada, quando eu pedi X, você respondeu Y”, a conversa muda de patamar.

Saída possível: trocar “sempre, nunca, todo mundo, ninguém” por exemplos verificáveis. Na escrita, colocar um dado, uma fonte, um recorte, uma cena, um caso, uma comparação útil. Isso não “engessa” o texto. Pelo contrário, dá chão.

Uma pergunta que salva muito diálogo: “quando você diz isso, você se refere a quê, exatamente?”
Uma frase que salva muito texto: “neste artigo, eu vou falar de X (e não de Y).”


4) Exageros, moralismo e viés religioso como ruído (ou manipulação)

Há um tipo de comunicação que não quer esclarecer. Quer enquadrar. Quando a fala vem carregada de julgamento moral (“isso é errado”, “isso é feio”, “isso é falta de caráter”), ou de viés religioso usado como arma (“Deus não aprova”, “isso é pecado”), a conversa vira arena. Muitas pessoas se calam, não por concordar, mas para evitar desgaste. E silêncio, nesse caso, não é paz, é rendição.

Na escrita, isso aparece como texto que constrange o leitor, principalmente quando o autor se coloca como juiz. O conteúdo pode até ter boa intenção, mas o tom vira dedo em riste. E aí o texto perde força, perde alcance, perde credibilidade.

Saída possível: separar valores pessoais de comunicação pública. Você pode ter convicções profundas e ainda assim escrever com ética, sem chantagem emocional, sem culpa como ferramenta. Se o tema exige posicionamento, deixe o posicionamento explícito, mas não transforme o leitor em réu. A diferença entre firmeza e moralismo é o respeito.


5) Duplo sentido: usar para se isentar, ou deixar de usar para enriquecer

O duplo sentido é uma faca de duas lâminas (sem drama, é só a realidade). Pode ser recurso de charme, humor, inteligência, subtexto. Mas também pode ser rota de fuga: a pessoa escreve ou fala com ambiguidade calculada para, depois, dizer “você entendeu errado”. É a versão linguística do escorregão proposital.

Quando o duplo sentido vira tática de imunidade, a comunicação apodrece. O outro sente que está sendo puxado para um terreno sem regra, onde qualquer interpretação vira “exagero”. Isso desgasta, confunde, cria desconfiança.

Saída possível: se você quer ambiguidade estética (na escrita literária, por exemplo), assuma a ambiguidade como escolha expressiva. Se você quer clareza (num pedido, num contrato, numa conversa importante), corte a ambiguidade sem dó. E se você percebe que tem usado duplo sentido para não ser responsabilizado, vale uma pergunta incômoda: “o que eu estou evitando dizer com todas as letras?”


6) A comunicação como “jogo de braço”: impulso, vaidade, certeza pronta

Aqui está um dos núcleos do problema. Muita gente não escuta. Responde. E responde por impulso, com conteúdo já predeterminado dentro, como se a conversa fosse apenas o gatilho para disparar o que já estava engatilhado.

Vaidade fica toda ensolarada: “eu preciso estar certo”.
Certeza pronta para inibir o outro: “eu já sei o que você vai dizer”.
Excesso de “saber”: a intenção fica nublada, o outro vira alvo ou depósito, uma não pessoa.
Grito fica estridente, torna-se desagradável, violento, acaba virando defesa e covardia: como se aumentar o volume resolvesse a falta de argumento, ou a falta de respeito.

Saída possível: instalar três pausas curtas, na fala e na escrita.

  1. Pausa de entendimento: “eu entendi que você quer dizer X, é isso?”

  2. Pausa de intenção: “o que eu quero com essa resposta, resolver ou descarregar?”

  3. Pausa de tom: “se eu estivesse do outro lado, como isso soaria?”

Na escrita, a pausa é edição: reler, cortar excesso, trocar o tom, remover o que está ali só para ferir, ou só para se proteger. Ou deixar claro o conflito! E resolver, claro :) 


7) Preconceitos embutidos, especialmente contra a mulher

Há um ruído estrutural que muita gente normaliza: a mulher é interrompida mais, contestada mais, explicada por outros (o famoso “deixa que eu explico”), tratada como emocional demais quando aponta um problema, chamada de exagerada quando nomeia algo óbvio. Na escrita, isso aparece como desqualificação sutil, ironias, diminutivos, descrédito.

O efeito é profundo: a conversa vira assimetria. E onde há assimetria, a comunicação não flui, ela obedece, ou explode.

Saída possível: revisar o próprio repertório. Perceber padrões, frases automáticas, tons que diminuem. E, se você lidera equipes, escreve conteúdos, dá aulas, atende clientes, vale adotar uma disciplina ética: ouvir a mulher até o fim, não tratar firmeza como agressividade, não confundir objetividade com “grosseria”, nem emoção com “fraqueza”.


8) Possíveis saídas, para melhorar na fala e na escrita

Para a fala:

  • Troque “achar” por “perguntar”: “como você entendeu o que eu disse?”

  • Troque “sempre/nunca” por “um exemplo”: isso derruba a defesa automática.

  • Faça pedidos com verbo claro: “preciso”, “quero”, “posso”, “prefiro”, “não aceito”.

  • Nomeie o tom desejado: “quero conversar sem ironia”, “quero resolver sem acusação”.

  • Se a conversa esquentar, reduza a velocidade, não aumente o volume.

Para a escrita:

  • Comece pelo objetivo: o que este texto quer provocar no leitor, entender, decidir, sentir, fazer?

  • Corte muletas: excesso de introdução, repetição, rodeio, justificativa interminável.

  • Dê chão: contexto, recorte, exemplos, termos definidos.

  • Cuide do tom: texto pode ser firme sem ser agressivo, pode ser crítico sem ser cruel.

  • Revise com o olhar do outro: “isso está claro para quem não mora na minha cabeça?”






Comunicação é encontro, não queda de braço

Quanto mais a gente fala somente para ganhar, mais perde: nuance, relação, o assunto, timing. Quando a comunicação vira jogo de braço, a pessoa sai com a própria frase debaixo do braço, mas não leva entendimento nenhum.

Eu trabalho onde a comunicação escrita costuma emperrar: clareza, tom, ritmo. Para a sua ideia não virar queda de braço, virar entrosamento, resposta, continuidade.

Se você quiser conversar sobre um texto específico (artigo, livro, projeto autoral), fale comigo no WhatsApp: 11 97694-4114.


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