Tropeços na comunicação humana, na fala e na escrita, e como sair do “jogo de braço”
Há conversas que começam como ponte e terminam como disputa. A frase sai da boca (ou do teclado) com intenção de aproximação, mas chega do outro lado como cobrança, ironia, desdém ou provocação. A comunicação humana tem esse risco constante: virar um jogo de braço, cotovelo na mesa, mandíbula travada, cada um tentando “vencer” a interpretação.
Neste artigo, eu quero olhar para os tropeços mais comuns, tanto na comunicação verbal quanto na escrita, e oferecer saídas práticas. Não receitas milagrosas, nem moralismo disfarçado de orientação. Saídas humanas, aplicáveis, que ajudam você a falar melhor e a escrever com mais clareza, precisão e elegância, sem perder a própria voz.
Se você também vive a sensação de “eu falei tão claramente e mesmo assim deu errado”, talvez o problema não seja falta de conteúdo. Talvez seja ruído de intenção, tom, contexto, método, ou a falta de especificidade que distrai e não leva ao objetivo.
1) Falar (ou escrever) para manter o outro sem voz
Esse é um tropeço delicado porque, muitas vezes, aparece com roupa de “boa argumentação”. A pessoa fala para dominar o território, não para trocar. Interrompe, atropela, corrige, desqualifica, muda o tema quando o assunto encosta no ponto sensível, responde com superioridade, ocupa o espaço até que o outro desista.
Na escrita, isso costuma aparecer como texto que não abre janela para o leitor. É uma sequência de certezas, afirmações fechadas, sentenças, sem nuance, sem pergunta real, sem abertura para a experiência do outro. O leitor percebe, mesmo sem nomear: “não tem conversa aqui, só um monólogo”.
Saída possível: antes de falar, pergunte a si mesmo, com honestidade: “eu quero entender, ou quero ganhar?” Na escrita, faça o mesmo teste: “isso convida ou encurrala?” Um texto forte não precisa esmagar o leitor para existir.
2) Apego ao conteúdo interno: detalhismo demais, ou detalhe nenhum
Às vezes, a pessoa sabe demais sobre o assunto e se perde no próprio labirinto. Outras vezes, sabe de menos e compensa com generalidades. Nos dois casos, o resultado costuma ser o mesmo: ruído.
Detalhismo excessivo transforma a mensagem em parede. O leitor, ou o ouvinte, começa a procurar a saída. Falta de detalhe transforma a mensagem em névoa. A pessoa entende “mais ou menos”, e esse “mais ou menos” vira mal-entendido.
Saída possível: use um critério simples, que vale para fala e escrita: contexto, pedido, consequência.
Contexto: do que estamos falando, em uma linha.
Pedido: o que você quer, com verbo claro.
Consequência: por que isso importa, em uma frase.
Exemplo na fala: “Sobre o projeto, eu preciso que você me envie o arquivo até amanhã, porque eu tenho prazo com a gráfica.”
Exemplo na escrita: “Este texto organiza o tema X, e o objetivo é Y, para que Z aconteça.”
Clareza não é “falar bonito”. Clareza é reduzir o caminho entre o que você pretende e o que o outro entende.
3) Falta de pesquisa, falta de especificidade, falta de método
Há textos (e falas) que parecem cheios de conteúdo, mas não sustentam nada. Opiniões soltas, termos vagos, “todo mundo sabe”, “é assim”, “sempre foi”, “ninguém fala disso”. Isso distrai, dá sensação de movimento, mas não chega ao objetivo.
Na prática, a falta de especificidade cria um campo fértil para o jogo de braço. Se você diz “você nunca me apoia”, o outro responde com exceções, com defesa, com irritação. Se você diz “na semana passada, quando eu pedi X, você respondeu Y”, a conversa muda de patamar.
Saída possível: trocar “sempre, nunca, todo mundo, ninguém” por exemplos verificáveis. Na escrita, colocar um dado, uma fonte, um recorte, uma cena, um caso, uma comparação útil. Isso não “engessa” o texto. Pelo contrário, dá chão.
Uma pergunta que salva muito diálogo: “quando você diz isso, você se refere a quê, exatamente?”
Uma frase que salva muito texto: “neste artigo, eu vou falar de X (e não de Y).”
4) Exageros, moralismo e viés religioso como ruído (ou manipulação)
Há um tipo de comunicação que não quer esclarecer. Quer enquadrar. Quando a fala vem carregada de julgamento moral (“isso é errado”, “isso é feio”, “isso é falta de caráter”), ou de viés religioso usado como arma (“Deus não aprova”, “isso é pecado”), a conversa vira arena. Muitas pessoas se calam, não por concordar, mas para evitar desgaste. E silêncio, nesse caso, não é paz, é rendição.
Na escrita, isso aparece como texto que constrange o leitor, principalmente quando o autor se coloca como juiz. O conteúdo pode até ter boa intenção, mas o tom vira dedo em riste. E aí o texto perde força, perde alcance, perde credibilidade.
Saída possível: separar valores pessoais de comunicação pública. Você pode ter convicções profundas e ainda assim escrever com ética, sem chantagem emocional, sem culpa como ferramenta. Se o tema exige posicionamento, deixe o posicionamento explícito, mas não transforme o leitor em réu. A diferença entre firmeza e moralismo é o respeito.
5) Duplo sentido: usar para se isentar, ou deixar de usar para enriquecer
O duplo sentido é uma faca de duas lâminas (sem drama, é só a realidade). Pode ser recurso de charme, humor, inteligência, subtexto. Mas também pode ser rota de fuga: a pessoa escreve ou fala com ambiguidade calculada para, depois, dizer “você entendeu errado”. É a versão linguística do escorregão proposital.
Quando o duplo sentido vira tática de imunidade, a comunicação apodrece. O outro sente que está sendo puxado para um terreno sem regra, onde qualquer interpretação vira “exagero”. Isso desgasta, confunde, cria desconfiança.
Saída possível: se você quer ambiguidade estética (na escrita literária, por exemplo), assuma a ambiguidade como escolha expressiva. Se você quer clareza (num pedido, num contrato, numa conversa importante), corte a ambiguidade sem dó. E se você percebe que tem usado duplo sentido para não ser responsabilizado, vale uma pergunta incômoda: “o que eu estou evitando dizer com todas as letras?”
6) A comunicação como “jogo de braço”: impulso, vaidade, certeza pronta
Aqui está um dos núcleos do problema. Muita gente não escuta. Responde. E responde por impulso, com conteúdo já predeterminado dentro, como se a conversa fosse apenas o gatilho para disparar o que já estava engatilhado.
Vaidade fica toda ensolarada: “eu preciso estar certo”.
Certeza pronta para inibir o outro: “eu já sei o que você vai dizer”.
Excesso de “saber”: a intenção fica nublada, o outro vira alvo ou depósito, uma não pessoa.
Grito fica estridente, torna-se desagradável, violento, acaba virando defesa e covardia: como se aumentar o volume resolvesse a falta de argumento, ou a falta de respeito.
Saída possível: instalar três pausas curtas, na fala e na escrita.
Pausa de entendimento: “eu entendi que você quer dizer X, é isso?”
Pausa de intenção: “o que eu quero com essa resposta, resolver ou descarregar?”
Pausa de tom: “se eu estivesse do outro lado, como isso soaria?”
Na escrita, a pausa é edição: reler, cortar excesso, trocar o tom, remover o que está ali só para ferir, ou só para se proteger. Ou deixar claro o conflito! E resolver, claro :)
7) Preconceitos embutidos, especialmente contra a mulher
Há um ruído estrutural que muita gente normaliza: a mulher é interrompida mais, contestada mais, explicada por outros (o famoso “deixa que eu explico”), tratada como emocional demais quando aponta um problema, chamada de exagerada quando nomeia algo óbvio. Na escrita, isso aparece como desqualificação sutil, ironias, diminutivos, descrédito.
O efeito é profundo: a conversa vira assimetria. E onde há assimetria, a comunicação não flui, ela obedece, ou explode.
Saída possível: revisar o próprio repertório. Perceber padrões, frases automáticas, tons que diminuem. E, se você lidera equipes, escreve conteúdos, dá aulas, atende clientes, vale adotar uma disciplina ética: ouvir a mulher até o fim, não tratar firmeza como agressividade, não confundir objetividade com “grosseria”, nem emoção com “fraqueza”.
8) Possíveis saídas, para melhorar na fala e na escrita
Para a fala:
Troque “achar” por “perguntar”: “como você entendeu o que eu disse?”
Troque “sempre/nunca” por “um exemplo”: isso derruba a defesa automática.
Faça pedidos com verbo claro: “preciso”, “quero”, “posso”, “prefiro”, “não aceito”.
Nomeie o tom desejado: “quero conversar sem ironia”, “quero resolver sem acusação”.
Se a conversa esquentar, reduza a velocidade, não aumente o volume.
Para a escrita:
Comece pelo objetivo: o que este texto quer provocar no leitor, entender, decidir, sentir, fazer?
Corte muletas: excesso de introdução, repetição, rodeio, justificativa interminável.
Dê chão: contexto, recorte, exemplos, termos definidos.
Cuide do tom: texto pode ser firme sem ser agressivo, pode ser crítico sem ser cruel.
Revise com o olhar do outro: “isso está claro para quem não mora na minha cabeça?”
Comunicação é encontro, não queda de braço
Quanto mais a gente fala somente para ganhar, mais perde: nuance, relação, o assunto, timing. Quando a comunicação vira jogo de braço, a pessoa sai com a própria frase debaixo do braço, mas não leva entendimento nenhum.
Eu trabalho onde a comunicação escrita costuma emperrar: clareza, tom, ritmo. Para a sua ideia não virar queda de braço, virar entrosamento, resposta, continuidade.
Se você quiser conversar sobre um texto específico (artigo, livro, projeto autoral), fale comigo no WhatsApp: 11 97694-4114.
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