terça-feira, 17 de março de 2026

Como o Tarot pode ajudar escritores: entrevista com Laura Bacellar sobre criatividade, arquétipos e narrativa

Entrevista com Laura Bacellar: Tarot e escrita criativa, como os arquétipos orientam o processo do escritor


Do bloqueio criativo ao desenvolvimento de personagens, o Tarot como ferramenta simbólica no processo de escrever

Por: Clene Salles

Breve História do Tarot

O Tarot chegou à Europa no século XV, provavelmente pelos portos de Veneza, no auge do comércio marítimo. Composto por 78 cartas — 22 Arcanos Maiores e 56 Menores —, nasceu como jogo de entretenimento nas cortes renascentistas italianas. Os Arcanos Maiores reúnem figuras arquetípicas mais encorpadas, robustas; já os Menores (não menos arquetípicas), se organizam em quatro naipes — espadas, copas, ouros e paus —, cada um associado a um elemento e a uma dimensão da experiência humana: pensamento, emoção, matéria e ação. No entanto, há quem afirme que é tão ou mais antigo do que as pirâmides do Egito; na verdade, sua real natureza e origem são incertos, desconhecidos. 

No entanto, foi Carl Gustav Jung quem deu ao Tarot uma legitimidade psicológica duradoura. Embora não tenha escrito diretamente sobre o baralho, Jung reconheceu nos Arcanos Maiores representações visuais dos arquétipos do inconsciente coletivo — padrões universais que habitam a psique humana e se manifestam em mitos, sonhos, arte e símbolos culturais. Sua aluna, Sallie Nichols, foi quem analisou e sistematizou as diferentes etapas da jornada arquetípica do tarot, no seu livro Jung e o Taro.

É nessa interseção entre símbolo, inconsciente e narrativa que o Tarot encontra a escrita. Quando um autor se senta diante das cartas com uma dúvida sobre sua obra, não está buscando uma resposta mágica — está convocando os arquétipos para iluminar o que a razão, sozinha, não alcança. É exatamente sobre essa prática que Laura Bacellar, editora, escritora, e xamã fala nesta entrevista: como o Tarot pode se conectar ao processo criativo para trazer clareza, desbloquear narrativas e revelar ao escritor aquilo que ele ainda não sabe que sabe.




1. Laura, como você orienta quem vai consultar o Tarot pela primeira vez com foco na escrita? Há algo que a pessoa deve trazer consigo além das dúvidas?

Peço que chegue com as perguntas já formuladas e com algo para anotar — tanto o que trouxe quanto o que surgir nas cartas. O Tarot é um sistema simbólico e arquetípico, e a qualidade do que se recebe tem relação direta com o grau de atenção e foco de quem pergunta. Quanto mais específica e presente a pessoa estiver, mais a consulta tem condições de responder ao que ela, de fato, precisa saber.

2. Você trabalha com as 78 cartas ou há situações em que recorre apenas aos Arcanos Maiores e/ou Arcanos Menores?

Trabalho com as 78. Mas a experiência mostra que é importante reconhecer que há um peso diferente que os Arcanos Maiores carregam quando aparecem — eles falam do que é essencial, do que é estrutural para aquele autor. Se aparecem no jogo são eles que costumam tocar nas dúvidas mais fundas do processo criativo: Sou capaz? Tenho algo a dizer? Estou no caminho certo? Os Menores podem trazer as nuances do cotidiano da escrita. Juntos, compõem uma leitura completa.

3. O Tarot para escritores serve a qualquer momento do processo — início, meio, fim — e a qualquer perfil de autor, do estreante ao consagrado?

Há uma longa história que responde por mim. Sylvia Plath recorria ao Tarot. Italo Calvino fez dele a própria estrutura de O Castelo dos Destinos Cruzados. Philip K. Dick, cujas obras estão na origem de Blade Runner, também se valia de sistemas oraculares. O ponto não é o estágio da carreira nem o da obra — o Tarot tem algo a oferecer em qualquer encruzilhada, impasse do processo criativo.

Para saber mais: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/os-escritores-que-usavam-taro-e-os-jogos-de-sorte-na-escrita-de-seus-livros.phtml / Italo Calvino: https://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=8256 


4. A especificidade da pergunta muda o alcance da resposta?

Muda tudo. Há uma diferença enorme entre chegar com "meu livro vai dar certo?" e trazer algo como: "Meu personagem é um soldado — ele fica nas trincheiras ou avança para a linha de frente?" O segundo tipo de pergunta permite que o Tarot responda com igual precisão. A vagueza na pergunta produz certa névoa na leitura.


5. Existe um intervalo recomendável entre uma consulta e outra?

A pessoa precisa de tempo para assentar o que surgiu, deixar que o conteúdo trabalhe nela e na narrativa, ou seja, colocar em prática no desenvolvimento do seu texto. Consultar repetidamente sem esse ciclo de integração é desperdiçar o que foi revelado.

Há, porém, situações que justificam retornar antes: quando surge um personagem novo com peso narrativo significativo, ou quando o processo traz uma intuição inesperada que muda o que havia sido antes planejado. Um exemplo concreto: uma autora que decidiu que sua protagonista vai se separar do marido: o casamento está em conflito, a direção parecia clara. Mas no meio da escrita, ela intui que um plot twist interessante seria a personagem descobrir que está grávida. O que fazer com isso? Ela segue com a separação mesmo assim? Adia? Esse tipo de dilema, que surge do próprio processo criativo, pode muito bem pedir uma nova consulta.


6. O que o Tarot costuma revelar quando um escritor pergunta sobre um bloqueio?

Não remove o bloqueio, esclarece o motivo, ilumina sua razão. Mostra o que está na raiz, o que está por trás do emperramento. E muitas vezes a própria carta já carrega a chave para lidar com isso. Se surgir a Estrela, o bloqueio pode ter origem na perda de fé no próprio trabalho — o autor que não consegue mais enxergar sentido no que escreve, ou que idealizou tanto a obra que o que sai no papel nunca está à altura do que imaginou. A esperança, paradoxalmente, virou obstáculo. Já o Dez de Espadas fala de esgotamento extremo — o autor que chegou ao limite, que foi longe demais sem se recolher, e cujo corpo e mente simplesmente recusam continuar. Não é falta de talento, não é falta de ideia. É colapso. E o Tarot tem a precisão de mostrar exatamente isso: não o que o autor não tem, mas o que ele não aguenta mais carregar.


7. O que o Tarot oferece à criatividade que os métodos de escrita criativa não alcançam?

Os cursos ensinam estrutura, técnica, método. O Tarot opera em outro registro — ele acessa recursos do inconsciente que a pessoa talvez ainda não saiba que tem. Por meio de símbolos e arquétipos, abre portas que a razão não abre. E o que surge é sempre singular: o Tarot não dá respostas genéricas. Ele responde àquele escritor, àquela obra, àquele momento.


8. Quando um arquétipo surge para um personagem, como o escritor pode trabalhar essa informação depois?

Pesquisando a fundo. O Rei de Copas, por exemplo, tem suas características, seus símbolos, sua própria jornada interna e externa. A partir daí, o autor desenvolve, decanta, burila — e incorpora na narrativa apenas o que é oportuno. É um processo criativo em si: receber, aprofundar e deixar que a informação se transforme em substância literária.


9. O arco do próprio escritor — não somente o do personagem, mas o da pessoa que escreve — também pode ser lido?

Sim, desde que ela pergunte sobre isso. O jogo mostra em que ponto ela está, o que precisa acontecer primeiro, qual é o próximo passo mais honesto conforme a tiragem. Se surgir a Sacerdotisa, por exemplo, é sinal de que ainda não é hora de agir — é hora de escutar, recolher, deixar o conhecimento sedimentar, silenciar-se, principalmente, em relação ao projeto. O Tarot orienta não apenas a obra, mas o caminhar do autor dentro dela.


10. Você consegue perceber, pela consulta, quando um autor está escrevendo longe do que realmente lhe pertence — seja o estilo, seja o tema?

É um dos aspectos mais reveladores. O Tarot trabalha com a noção junguiana de Luz e Sombra — o que não reconhecemos em nós mesmos. Quando alguém está escrevendo para agradar, para seguir uma tendência ou para corresponder a uma expectativa que não é sua, o jogo mostra. A Lua é a carta da névoa, do que está oculto, da confusão sobre a própria voz. O Eremita pode sinalizar que é preciso um recolhimento antes de qualquer avanço. O Tarot tem uma forma muito precisa de nomear o descompasso entre o que o autor escreve e o que ele, de fato, identifica o que é melhor escrever.


11. Você consegue dar exemplos de correspondências entre alguns arcanos e gêneros ou territórios narrativos?

Claro. Se alguém chega com a dúvida "devo escrever um romance romântico ou erótico?" e sai o Ás de Paus — fogo, impulso, desejo — a resposta aponta para o erótico. Se sair o Ás de Copas — água, emoção, profundidade afetiva — o caminho é o romântico. Para uma pergunta mais aberta, como "qual gênero me corresponde?", o Diabo pode indicar uma narrativa de tensão, poder e transgressão — tramas envolvendo obsessão, dinheiro, jogos de controle. O Louco, por sua vez, pode sugerir uma narrativa de liberdade radical — alguém que parte sem mapa e sem destino definido. Cada arcano é uma porta. E cada porta abre para um universo narrativo distinto.


12. O que este trabalho desperta em você?

O que continua me surpreendendo é que o Tarot frequentemente responde de um modo que eu, como editora, não responderia. Não tenho nenhuma ingerência na resposta que surge nas cartas — ela não passa por mim. Essa independência entre o que penso e o que o jogo revela é, para mim, um dos aspectos mais fascinantes, intrigantes e honestos de todo o processo. O Tarot não me reflete. Ele revela o que está além do que eu poderia oferecer só com minha experiência profissional.


Fechamento
Laura, para encerrar, uma consulta ao "vivo"; aqui, nesta conversa, neste sábado, 14 de março de 2026, às 20h:


"Tarot, o que esperar desta entrevista?"
As cartas: Oito de Ouros, O Sol, A Roda da Fortuna e A Imperatriz.

Que conjunto. O Oito de Ouros fala de dedicação e maestria — há aqui um trabalho feito com cuidado, muito bem pensado e comprometimento genuíno. O Sol traz clareza e visibilidade: esta conversa tem potencial para chegar às pessoas certas. A Roda da Fortuna anuncia movimento, um ciclo que se abre; o que começa aqui pode gerar desdobramentos que ainda não se veem. E a Imperatriz é a carta da criatividade fértil, do que floresce e se multiplica. Juntas, essas quatro cartas dizem que esta entrevista tem vida, tem substância e tem futuro.

 

Agradecimento

Conversar com Laura Bacellar é uma oportunidade de rever e introjetar a forma como os arquétipos funcionam em nós, e perceber que dessa compreensão nasce uma abertura ao mesmo tempo psíquica, espiritual e criativa. 

Obrigada por mostrar, com generosidade, clareza e precisão, como o Tarot e a escrita podem se conectar a serviço de uma narrativa, de uma resposta, de um caminho, uma direção que é uma verdadeira joia para escritores/as, autores/as. Que estas cartas, e estas palavras, cheguem a quem precisa encontrá-las.



Laura Bacellar, Tarô para Escritores e Consultoria sobre o Mercado Editorial

Escreva Seu Livro

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Sobre mim :) 



Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português)

Além disso, para quem não sabe, eu sou Astróloga, Orientadora de Feng Shui e Litoterapeuta (segundo a tradição da MTC) há mais de 40 anos (sim, eu comecei bem jovenzinha (risos)).

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2 comentários:

  1. Amei o texto. Fiquei morrendo de vontade de fazer uma consulta. A Laura é ótima.

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    1. Oi, Lia, boa noite! Obrigada por estar aqui. Obrigada também pelo comentário. Ai, ai, ai, o que dizer sobre a Laura Bacellar? Ela é espetacular, sabe muito. Agende sua consulta — estou aqui confiante que você receberá informações preciosas que farão a diferença no seu livro. Até breve!

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