Entrevista com Laura Bacellar: Tarot e escrita criativa, como os arquétipos orientam o processo do escritor
Do bloqueio criativo ao desenvolvimento de personagens, o Tarot como ferramenta simbólica no processo de escrever
Breve História do Tarot
O Tarot chegou à Europa no século XV,
provavelmente pelos portos de Veneza, no auge do comércio marítimo. Composto
por 78 cartas — 22 Arcanos Maiores e 56 Menores —, nasceu como jogo de
entretenimento nas cortes renascentistas italianas. Os Arcanos Maiores reúnem
figuras arquetípicas mais encorpadas, robustas; já os Menores (não menos
arquetípicas), se organizam em quatro naipes — espadas, copas, ouros e paus —,
cada um associado a um elemento e a uma dimensão da experiência humana:
pensamento, emoção, matéria e ação. No entanto, há quem afirme que é tão ou
mais antigo do que as pirâmides do Egito; na verdade, sua real natureza e
origem são incertos, desconhecidos.
No entanto, foi Carl Gustav Jung quem deu ao
Tarot uma legitimidade psicológica duradoura. Embora não tenha escrito
diretamente sobre o baralho, Jung reconheceu nos Arcanos Maiores representações
visuais dos arquétipos do inconsciente coletivo — padrões universais que
habitam a psique humana e se manifestam em mitos, sonhos, arte e símbolos
culturais. Sua aluna, Sallie Nichols, foi quem analisou e sistematizou as
diferentes etapas da jornada arquetípica do tarot, no seu livro Jung e o Taro.
É nessa interseção entre símbolo,
inconsciente e narrativa que o Tarot encontra a escrita. Quando um autor se
senta diante das cartas com uma dúvida sobre sua obra, não está buscando uma
resposta mágica — está convocando os arquétipos para iluminar o que a razão,
sozinha, não alcança. É exatamente sobre essa prática que Laura Bacellar,
editora, escritora, e xamã fala nesta entrevista: como o Tarot pode se conectar
ao processo criativo para trazer clareza, desbloquear narrativas e revelar ao
escritor aquilo que ele ainda não sabe que sabe.
1. Laura, como você orienta quem vai consultar o Tarot pela primeira vez com foco na escrita? Há algo que a pessoa deve trazer consigo além das dúvidas?
Peço que chegue com as perguntas já
formuladas e com algo para anotar — tanto o que trouxe quanto o que surgir nas
cartas. O Tarot é um sistema simbólico e arquetípico, e a qualidade do que se
recebe tem relação direta com o grau de atenção e foco de quem pergunta. Quanto
mais específica e presente a pessoa estiver, mais a consulta tem condições de
responder ao que ela, de fato, precisa saber.
2. Você trabalha com as
78 cartas ou há situações em que recorre apenas aos Arcanos Maiores e/ou
Arcanos Menores?
Trabalho com as 78. Mas a experiência mostra
que é importante reconhecer que há um peso diferente que os Arcanos Maiores
carregam quando aparecem — eles falam do que é essencial, do que é estrutural
para aquele autor. Se aparecem no jogo são eles que costumam tocar nas dúvidas
mais fundas do processo criativo: Sou capaz? Tenho algo a
dizer? Estou no caminho certo? Os Menores podem trazer as nuances
do cotidiano da escrita. Juntos, compõem uma leitura completa.
3. O Tarot para escritores serve a qualquer momento do processo — início, meio, fim — e a qualquer perfil de autor, do estreante ao consagrado?
Há uma longa história que responde por mim.
Sylvia Plath recorria ao Tarot. Italo Calvino fez dele a própria estrutura de O
Castelo dos Destinos Cruzados. Philip K. Dick, cujas obras estão na origem de
Blade Runner, também se valia de sistemas oraculares. O ponto não é o estágio
da carreira nem o da obra — o Tarot tem algo a oferecer em qualquer
encruzilhada, impasse do processo criativo.
Para saber mais: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/os-escritores-que-usavam-taro-e-os-jogos-de-sorte-na-escrita-de-seus-livros.phtml / Italo Calvino: https://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=8256
4. A especificidade da pergunta muda o alcance da resposta?
Muda tudo. Há uma diferença enorme entre
chegar com "meu livro vai dar certo?" e trazer algo como: "Meu
personagem é um soldado — ele fica nas trincheiras ou avança para a linha de
frente?" O segundo tipo de pergunta permite que o Tarot
responda com igual precisão. A vagueza na pergunta produz certa névoa na
leitura.
5. Existe um intervalo recomendável entre uma consulta e outra?
A pessoa precisa de tempo para assentar o
que surgiu, deixar que o conteúdo trabalhe nela e na narrativa, ou seja,
colocar em prática no desenvolvimento do seu texto. Consultar repetidamente sem
esse ciclo de integração é desperdiçar o que foi revelado.
Há, porém, situações que justificam retornar
antes: quando surge um personagem novo com peso narrativo significativo, ou
quando o processo traz uma intuição inesperada que muda o que havia sido antes
planejado. Um exemplo concreto: uma autora que decidiu que sua protagonista vai
se separar do marido: o casamento está em conflito, a direção parecia clara.
Mas no meio da escrita, ela intui que um plot twist interessante seria a
personagem descobrir que está grávida. O que fazer com isso? Ela segue com a separação
mesmo assim? Adia? Esse tipo de dilema, que surge do próprio processo criativo,
pode muito bem pedir uma nova consulta.
6. O que o Tarot costuma revelar quando um escritor pergunta sobre um bloqueio?
Não remove o bloqueio, esclarece o motivo,
ilumina sua razão. Mostra o que está na raiz, o que está por trás do
emperramento. E muitas vezes a própria carta já carrega a chave para lidar com
isso. Se surgir a Estrela, o bloqueio pode ter origem na perda de fé no próprio
trabalho — o autor que não consegue mais enxergar sentido no que escreve, ou
que idealizou tanto a obra que o que sai no papel nunca está à altura do que
imaginou. A esperança, paradoxalmente, virou obstáculo. Já o Dez de Espadas
fala de esgotamento extremo — o autor que chegou ao limite, que foi longe
demais sem se recolher, e cujo corpo e mente simplesmente recusam continuar.
Não é falta de talento, não é falta de ideia. É colapso. E o Tarot tem a
precisão de mostrar exatamente isso: não o que o autor não tem, mas o que ele
não aguenta mais carregar.
7. O que o Tarot oferece à criatividade que os métodos de escrita criativa não alcançam?
Os cursos ensinam estrutura, técnica,
método. O Tarot opera em outro registro — ele acessa recursos do inconsciente
que a pessoa talvez ainda não saiba que tem. Por meio de símbolos e arquétipos,
abre portas que a razão não abre. E o que surge é sempre singular: o Tarot não
dá respostas genéricas. Ele responde àquele escritor, àquela obra, àquele
momento.
8. Quando um arquétipo surge para um personagem, como o escritor pode trabalhar essa informação depois?
Pesquisando a fundo. O Rei de Copas, por
exemplo, tem suas características, seus símbolos, sua própria jornada interna e
externa. A partir daí, o autor desenvolve, decanta, burila — e incorpora na
narrativa apenas o que é oportuno. É um processo criativo em si: receber,
aprofundar e deixar que a informação se transforme em substância literária.
9. O arco do próprio escritor — não somente o do personagem, mas o da pessoa que escreve — também pode ser lido?
Sim, desde que ela pergunte sobre isso. O
jogo mostra em que ponto ela está, o que precisa acontecer primeiro, qual é o
próximo passo mais honesto conforme a tiragem. Se surgir a Sacerdotisa, por
exemplo, é sinal de que ainda não é hora de agir — é hora de escutar, recolher,
deixar o conhecimento sedimentar, silenciar-se, principalmente, em relação ao
projeto. O Tarot orienta não apenas a obra, mas o caminhar do autor dentro
dela.
10. Você consegue perceber, pela consulta, quando um autor está escrevendo longe do que realmente lhe pertence — seja o estilo, seja o tema?
É um dos aspectos mais reveladores. O Tarot
trabalha com a noção junguiana de Luz e Sombra — o que não reconhecemos em nós
mesmos. Quando alguém está escrevendo para agradar, para seguir uma tendência
ou para corresponder a uma expectativa que não é sua, o jogo mostra. A Lua é a
carta da névoa, do que está oculto, da confusão sobre a própria voz. O Eremita
pode sinalizar que é preciso um recolhimento antes de qualquer avanço. O Tarot
tem uma forma muito precisa de nomear o descompasso entre o que o autor escreve
e o que ele, de fato, identifica o que é melhor escrever.
11. Você consegue dar exemplos de correspondências entre alguns arcanos e gêneros ou territórios narrativos?
Claro. Se alguém chega com a dúvida "devo
escrever um romance romântico ou erótico?" e sai o Ás de Paus
— fogo, impulso, desejo — a resposta aponta para o erótico. Se sair o Ás de
Copas — água, emoção, profundidade afetiva — o caminho é o romântico. Para uma
pergunta mais aberta, como "qual gênero me corresponde?",
o Diabo pode indicar uma narrativa de tensão, poder e transgressão — tramas
envolvendo obsessão, dinheiro, jogos de controle. O Louco, por sua vez, pode
sugerir uma narrativa de liberdade radical — alguém que parte sem mapa e sem
destino definido. Cada arcano é uma porta. E cada porta abre para um universo
narrativo distinto.
12. O que este trabalho desperta em você?
O que continua me surpreendendo é que o
Tarot frequentemente responde de um modo que eu, como editora, não responderia.
Não tenho nenhuma ingerência na resposta que surge nas cartas — ela não passa
por mim. Essa independência entre o que penso e o que o jogo revela é, para
mim, um dos aspectos mais fascinantes, intrigantes e honestos de todo o
processo. O Tarot não me reflete. Ele revela o que está além do que eu poderia
oferecer só com minha experiência profissional.
Fechamento
Laura, para encerrar, uma consulta ao "vivo"; aqui, nesta conversa, neste sábado, 14 de março de 2026, às 20h:
"Tarot, o que
esperar desta entrevista?"
As cartas: Oito de
Ouros, O Sol, A Roda da Fortuna e A Imperatriz.
Que conjunto. O Oito de Ouros fala de
dedicação e maestria — há aqui um trabalho feito com cuidado, muito bem pensado
e comprometimento genuíno. O Sol traz clareza e visibilidade: esta conversa tem
potencial para chegar às pessoas certas. A Roda da Fortuna anuncia movimento,
um ciclo que se abre; o que começa aqui pode gerar desdobramentos que ainda
não se veem. E a Imperatriz é a carta da criatividade fértil, do que floresce e
se multiplica. Juntas, essas quatro cartas dizem que esta entrevista tem vida, tem
substância e tem futuro.
Agradecimento
Conversar com Laura Bacellar é uma oportunidade de rever e introjetar a forma como os arquétipos funcionam em nós, e perceber que dessa compreensão nasce uma abertura ao mesmo tempo psíquica, espiritual e criativa.
Obrigada por mostrar, com generosidade, clareza e precisão, como o Tarot e a
escrita podem se conectar a serviço de uma narrativa, de uma resposta, de um
caminho, uma direção que é uma verdadeira joia para escritores/as, autores/as. Que estas cartas, e estas palavras, cheguem a quem precisa
encontrá-las.
Laura Bacellar, Tarô para Escritores e Consultoria sobre o Mercado Editorial
Laurabacellar@escrevaseulivro.com.br
WhatsApp +55 11 99801-3090
YouTube: Canal Escreva Seu Livro
Sobre mim :)
Olá! Eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora (Espanhol/Português)
Além disso, para quem não sabe, eu sou Astróloga, Orientadora de Feng Shui e Litoterapeuta (segundo a tradição da MTC) há mais de 40 anos (sim, eu comecei bem jovenzinha (risos)).
WhatsApp: 11 97694-4114
E-mail: clenesalles@gmail.com
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Amei o texto. Fiquei morrendo de vontade de fazer uma consulta. A Laura é ótima.
ResponderExcluirOi, Lia, boa noite! Obrigada por estar aqui. Obrigada também pelo comentário. Ai, ai, ai, o que dizer sobre a Laura Bacellar? Ela é espetacular, sabe muito. Agende sua consulta — estou aqui confiante que você receberá informações preciosas que farão a diferença no seu livro. Até breve!
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