terça-feira, 11 de agosto de 2026

Arquétipo do Órfão - Dicas Para A Escrita Criativa E Considerações Para A Vida

Arquétipo do Órfão: da Desilusão ao Pertencimento


Quase sempre confundem o/a órfão/órfã com a criança sem pais das primeiras páginas de um romance. Quero dizer que também é, mas não só isso. Mas o arquétipo é bem maior que esse detalhe de enredo: ele/ela descreve a perda da inocência, a desilusão com um mundo que nem sempre é gentil, e a busca constante por um lugar onde seja possível pertencer. Para quem escreve, entender o/a órfão/órfã é entender a anatomia de duas coisas que parecem opostas e não são: a resiliência e a vulnerabilidade, e o amadurecimento no trajeto.

Em tempo: daqui pra frente, eu vou usar "órfão" no masculino, mas, claro, o feminino está presente; tomei essa iniciativa para não cansar a sua leitura. 

O que é um arquétipo

Um arquétipo é um padrão antigo de sentir e agir, um molde que se repete em mitos, sonhos e histórias de povos que nunca se encontraram, sem que ninguém venha a ensinar. Foi Jung quem deu nome a essas figuras que voltam, com a mesma referência de comportamento e forma de se mostrar e se posicionar no mundo, em culturas e séculos diferentes. O órfão é uma delas, e talvez uma das mais antigas, porque nasce de algo quase universal: a queda da ingenuidade, o abandono, decepções e o instante em que alguém descobre que o mundo nem sempre segura quem cai e terá que se levantar, sim ou sim. 

As características fundamentais do órfão

O órfão é o realista da história, parece estranho, mas ele não é ingenuo como a maioria pensa. Enquanto o Inocente ainda acredita que o mundo é seguro por padrão, o órfão já foi ferido pela realidade, adoeceu por causa da sociedade e sabe que ninguém vem salvar ninguém magicamente. Suas marcas centrais são uma adaptação feroz acompanhada de uma taquicardia e suor constantes, aflição, um instinto de sobrevivência afiado, e um ceticismo saudável diante de discurso idealista ou promessa fácil, sem dúvidas, fica sempre se autocontrolando para evitar reveses. Ele não espera justiça caindo do céu; constrói a própria sobrevivência, dia após dia.

Na escrita, dar vida a um personagem órfão é entender que a motivação dele não é a glória nem o poder, como no Herói clássico, mas ter que buscar segurança na insegurança, a conexão dentro dos desencontros e uma identidade que seja só sua e nem sempre consegue. Ele quer pertencer, ter um cantinho para si, mas tem pavor de ser rejeitado de novo, e é esse conflito que gera boa parte do drama.

Luz e sombra

Como todo arquétipo forte, o órfão é um deles, oscila entre dois polos, e há uma dificuldade genuína em identificar a natureza de cada um desses polos. 

Na luz, aparece a empatia por quem foi ou continua sendo marginalizado, uma resiliência difícil de abalar (ele depende dela para continuar sobrevivendo), o pragmatismo de quem resolve em vez de reclamar, e a capacidade de se adaptar a qualquer ambiente, mesmo que isso movimente dissonâncias internas. Um personagem assim consegue unir gente que virou mosaico e liderar pelo exemplo, não pelo discurso.

Na sombra, aparece o vitimismo que vira identidade, o cinismo amargo, descrença, e, às vezes, o inverso completo: em vez de sofrer a rejeição outra vez, o órfão se torna quem rejeita primeiro. Recusa envolvimento afetivo, e sabota, sem perceber, a própria chance de ser feliz. 

Vieses, pontos cegos e desafios

O viés mais comum do órfão é interpretar um gesto de bondade como manipulação, ou como sinal de fraqueza de quem oferece. O ponto cego é não reconhecer o próprio valor: por dentro, ele acredita que só merece afeto ou sucesso se provar isso através do sofrimento ou do esforço extremo, ou submissão desmedida.

Algumas dificuldades que costumam acompanhar esse arquétipo: pedir ajuda soa como fraqueza imperdoável ou confundir pedido de apoio como se fosse se transformar numa dívida eterna; permitir-se abrir mão da identidade pessoal por causa de uma possível rejeição, afinal, se ele for autêntico, ninguém gostará dele; a sensação de ser um intruso em qualquer conquista ou comunidade não passa, mesmo depois de anos. E o medo do abandono, tantas vezes, faz o órfão abandonar os outros primeiro, só para não ser pego de surpresa.

O que torna o órfão marcante, e seus talentos naturais

Um personagem órfão que fica na memória do leitor nunca é só uma vítima das circunstâncias. O que prende a atenção é a distância entre a fragilidade dele e a tenacidade que carrega ao mesmo tempo.

Os talentos naturais desse arquétipo são ferramentas de sobrevivência. A leitura afiada do caráter humano: de tanto precisar se proteger, o órfão desenvolve um faro quase infalível para falsidade e segunda intenção. A autossuficiência engenhosa: sabe consertar, improvisar, encontrar recurso onde parecia não haver nenhum. E uma coragem que não nasce de ego, mas do entendimento de que ficar parado costuma doer mais do que agir.

O impacto nas pessoas, e o que o arquétipo ensina

O órfão desperta, quase sem esforço, um instinto de proteção em quem está por perto: é o azarão por quem todo mundo torce. A presença dele também confronta a sociedade com as próprias falhas de acolhimento. 

O que esse arquétipo ensina é que família e pertencimento raramente vêm prontos, por sangue ou por sorte. Eles se constroem, escolha por escolha, pelos laços de lealdade que a gente forja ao longo da vida. A dor da perda, quando trabalhada, pode virar a mais pura forma de compaixão.

Medos principais e alianças narrativas

O medo central do órfão é a exposição total: cair e descobrir que ninguém está ali para segurar.

Para dar mais corpo à trama, vale posicionar o órfão perto de outros arquétipos. 

Ao lado do Cuidador, encontra o antídoto para a própria desconfiança: alguém que oferece acolhimento incondicional, o mesmo que ele recusa e precisa em doses iguais. Ao lado do Herói, os dois trocam algo raro, porque um busca reconhecimento lá fora e o outro busca cura lá dentro, mas em geral é bastante conflitante no início. E ao lado do Sábio, o órfão aprende a ressignificar o próprio passado, entendendo que a ferida pode virar entendimento. Não é uma boa liga conectar-sediretamente com o arquétipo do Governante, afinal ele desconfia da natureza dele; além disso, boa parte da narrativa, o Governante está mais preocupado consigo mesmo e com os seus, e em geral, não tolera muito o Orfão. 

Exercícios de escrita criativa para escritores

1. A crença que ficou. Escreva, numa frase só, o que sua personagem aprendeu a acreditar sobre merecer ajuda. Depois construa uma cena em que alguém oferece ajuda de graça, sem pedir nada em troca, e observe como ela reage a algo que não sabe processar.

2. O teste sem aviso. Faça sua personagem provocar quem ama, sem dizer o motivo, só para ver se essa pessoa some. Escreva a cena pelo ponto de vista de quem está sendo testado, sem entender por quê. A diferença entre os dois olhares é onde mora o drama.

3. A ajuda recusada. Coloque sua personagem diante de uma ajuda que resolveria tudo, e faça-a recusar. Não explique o motivo num discurso; deixe a recusa aparecer no corpo, na demora antes de responder, no orgulho que custa caro.

4. O momento em que ninguém veio. Escreva, em flashback curto, a cena original em que sua personagem precisou de socorro e não encontrou. Não precisa publicar esse trecho no texto final, mas escreva-o de verdade. É ele que vai explicar, sem precisar de explicação, tudo o que ela faz hoje.

5. A prova impossível. Dê à sua personagem uma conquista enorme, e escreva a cena em que, mesmo diante do sucesso, ela sente que ainda não provou o suficiente. Esse vazio depois da vitória costuma dizer mais sobre o personagem do que a vitória em si.

6. Quem fica. Escolha uma pessoa que, na história, decide ficar mesmo depois de ser afastada, testada, magoada sem motivo. Escreva a cena em que sua personagem percebe isso, finalmente. É o instante em que o órfão, pela primeira vez, considera acreditar.

7. Qual a conquista do órfão? Não é deixar de ser órfão, porque a marca não some. É aprender a deixar alguém ficar. Depois de anos testando, afastando, provando o próprio valor até a exaustão, o momento em que ele finalmente acredita que essa pessoa não vai embora é a virada real. Escreva, com riqueza de detalhes, as hesitações, dúvidas internas do órfão antes de permitir que alguém fique. 

8. Aqui tem um curtíssimo arco narrativo onde está presente a Órfã, mas em nenhum momento se vê escrito "Órfã", vale conferir. 

O Que Você Vê Sem Saber Que Viu — Como Isso Transforma a Sua Escrita


Um toque para a vida

Ninguém passa pela vida inteira sem provar, ao menos uma vez, do sofrimento, do abandono ou da rejeição que formam esse arquétipo. Às vezes é você quem carrega essa marca. Às vezes é alguém perto de você: o colega que nunca pede ajuda, mesmo afundando; a amiga que testa todo mundo até cansar quem gosta dela de verdade; o parente que conquistou tudo sozinho e não sabe comemorar sem desconfiar de quem aplaude.

Reconhecer o órfão, em você ou no outro, não é motivo de pena. É o primeiro passo para tratar essa ferida com o cuidado que ela pede, em vez de deixá-la comandar cada escolha por trás das cortinas.

Escrever esse arquétipo com honestidade é lembrar ao leitor que a força de quem se virou sozinho não é motivo de orgulho fácil. É uma ferida que aprendeu a andar. E toda ferida que anda merece, um dia, descansar.




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Arquétipo do Herói (Na Vida e Na Escrita)

O Arquétipo do Herói: Personalidade, Luz e Sombra

Um texto sobre a personalidade do herói e da heroína: a luz que admiramos, a sombra que esquecemos e os ângulos que ele não vê em si mesmo; ele/ela pode estar aqui e aí, talvez basta olhar para o lado. 




Há um tipo de pessoa que, quando alguma coisa precisa ser carregada (ou entregue), se coloca embaixo do peso antes que peçam, ela faz isso porque não consegue desviar o olhar de uma necessidade. 

Onde os outros veem um problema, sendo que este é tido somente como problema "alheio", ela vê algo que lhe cabe resolver, ou dedicar tempo para encontrar solução. Interessante, às vezes o/a herói/heroína pode ser aquele ser humano que pensa, repensa, considera e cria alternativas. Isso não descarta que ele/ela também supere um grande obstáculo interior. 

Esse gesto está no centro do arquétipo do herói. E da heroína, porque a vida está cheia delas, ainda que a literatura teime em esquecê-las; porém, aos poucos, vejo mudanças, graças as Deusas! 

O que é o arquétipo do herói

Um arquétipo é um molde herdado da nossa psique, uma forma antiga de sentir e agir que reconhecemos sem ter aprendido. Foi Jung quem deu esse nome aos padrões que reaparecem nos mitos, nos sonhos e nas histórias de povos que nunca se encontraram.

O arquétipo do herói é um desses moldes. Ele descreve uma personalidade organizada em torno de uma pergunta: o quanto eu valho, e o que preciso perceber, carregar, desprender, intuir ou criar para provar esse valor.

Repare que isso independe de força física, de espada, de superpoder. Um herói pode ser franzino, medroso, comum. O que o define é para onde ele aponta a própria vida.

E vale fixar uma diferença que muda tudo na hora de escrever. Arquétipo não é estereótipo. O estereótipo é uma cópia gasta, sempre igual a si mesma. O arquétipo é uma raiz viva, que em cada pessoa brota como um chamado interno ou simplesmente lhe nasça. Seu trabalho, ao escrever, é deixar essa raiz encontrar a forma única da sua personagem.

As muitas figuras do herói

O engano de quem começa é imaginar um herói só, de capa e músculo. O arquétipo é largo, e cabe em figuras que nem se parecem entre si, mas pode estar naquele que:

  • Sai na frente e abre trilha onde não havia caminho, com algo do explorador.
  • Preserva a origem, a memória e a ancestralidade que os outros deixam apagar.
  • Ergue um legado, mesmo sabendo que talvez não o veja de pé.
  • Serve, como a médica ou a curandeira que sentem o cuidado e a cura como responsabilidade de manutenção da vida.
  • Diz não ao que fere os outros, e paga caro por esse não. 
  • Defende o amor, ajudando duas pessoas a se unirem por vontade, e não por conveniência.
  • Ensina, ajudando na formação para o trabalho e/ou oferecendo lições valiosas para a vida, conheça aqui o Arquétipo da Mulher Sábia. 
  • Voltou do inferno, atravessou o pior da vida e retornou para puxar alguém de lá.
  • Cria e inventa, apostando num projeto que ninguém mais enxerga, ombro a ombro com o arquétipo do criador.
  • Acredita na pureza, porque sua natureza inocente acaba abrindo portas.
  • Enfim, a lista é grande... 

O que une figuras tão diferentes é uma disposição comum: responder por algo maior do que o próprio conforto, o herói ou a heroína entenderam que a sociedade, um grupo ou família estão em apuros e não irão desviar os olhos e tampouco se calar. 

Só avisando, eu vou usar, daqui pra frente, "herói" no masculino, somente para não cansar sua leitura, por favor, minha estimada heroína, sinta-se incluída. 

A raiz da personalidade heroica

Debaixo de todas essas figuras corre a mesmo líquido primordial, como um elixir: o herói identifica o próprio valor naquilo que pode entregar para os outros.

Essa é a chave que explica, ao mesmo tempo, a nobreza e o veneno do arquétipo.

Enquanto o "elixir" corre saudável, produz coragem, cuidado, entrega. O herói se torna alguém em quem os outros se apoiam, e por perto dele as pessoas se descobrem maiores do que se julgavam. Ele tem um fator curioso: ele sente receios, dúvidas, angústias e medos, mas mesmo assim, segue em frente.

Porém, quando esse mesmo "elixir" perde o ponto, o mesmo mecanismo se volta contra ele. Se o valor está no que é possível carregar e/ou sustentar, então é preciso estar sempre carregando. Descansar passa a doer como uma perda de identidade, porque não compreende que precisa de energia para dar continuidade. Quem sabe tem medo de si mesmo? 

A luz do herói

A luz aparece na iniciativa, ou até mesmo, na recusa dela. O herói começa. Ou pode postergar. No final das contas, diante do que precisa ser feito, percebe e toma atitudes enquanto os outros ainda pesam prós e contras, e esse primeiro passo abre caminho para todo mundo. Não é regra fixa, às vezes, o herói entende e se dá conta da sua luz somente naquele momento em que perde alguém ou algo que lhe é muito valioso.  

Do mesmo "elixir" vêm a coragem de arriscar a própria pele, o cuidado de proteger quem não consegue se proteger, a teimosia boa de guardar aquilo que os outros abandonaram.

E vem junto o poder de contagiar (no bom sentido) através dos seus exemplos. Um herói desses empresta coragem só pelo fato de estar ali. Quem está por perto passa a acreditar que também é capaz.

A sombra do herói

A sombra do herói nasce do exagero das próprias virtudes.

A coragem, esticada, vai até quase a corda arrebentar. Endurece em teimosia. O cuidado, apertado pelo medo de perder, vira controle. O não que protegia os outros encolhe até proteger apenas o próprio orgulho.

O herói também se acostuma a ser aquele que resolve. Quando fica sem um peso nos ombros, sente um vazio estranho. Para preencher esse vazio, arruma uma batalha onde não havia nenhuma, adota uma causa, acende o incêndio que depois vai correr para apagar.

E há o herói que serve até secar. Ele salva todos e esquece de si, e sem perceber cobra a conta: transforma o próprio sofrimento numa espécie de moeda: "veja o quanto sofri por você!".

Quem convive com esse tipo conhece o cansaço. O herói cuida do mundo inteiro e não deixa ninguém cuidar dele.

Os ângulos que o herói não enxerga

Todo herói tem pontos cegos, e eles costumam ficar justamente onde ele mais confia em si.

Ele não vê quem segura o chão enquanto avança. As pessoas que cuidam da retaguarda, que esperam, que sustentam o dia a dia ficam fora do campo de visão dele, e ele conclui que venceu sozinho.

Ele confunde, ás vezes, desejo de liberdade e/ou independência tendendo a correr para a frente, em disparada, deixando tudo pra trás. Muitas vezes, é a maneira que ele encontrou de não ficar parado diante do que dói ou fixo num lugar que lhe trouxe sofrimento.

Quem cura não se deixa curar. O médico adoece e disfarça. A heroína ampara todo mundo e não sabe pedir apoio para si.

E o não dele, tão nobre por fora, às vezes, esconde apenas o medo de mudar, vestido com a roupa de princípio moral. 

Os vieses em que o herói escorrega

Vieses são atalhos do pensamento, e o herói não está livre disso.

Ele acredita que sofrimento é medida de valor. Se doeu, valeu a pena; se veio fácil, desconfia que não vale nada; no entanto, se ele tiver nuances de arquétipo do inocente ou do órfão, terá o traço de desconfiança ainda mais acentuado. 

Ele, eventualmente, lê o descanso dos outros como descaso, e a calma como covardia.

E toma o próprio caminho como o único possível, sem enxergar quantos tropeçaram tentando repetir os passos dele.

O tesouro que vira pó

Existe uma sabedoria antiga sobre o herói, dura demais para as histórias infantis.

Ele pode entrar na caverna, vencer o guardião ou o monstro, pôr a mão no tesouro e levá-lo àqueles que precisam dessas riquezas. Por fim, conseguiu: recursos preciosos, reconhecimento, o prêmio perseguido a vida inteira (leia-se também como elemento simbólico: um médico pode encontrar uma cura, um engenheiro a máquina perfeita, um achado arqueológico, etc.). E, na volta para casa, ver esse tesouro esfarelar entre os dedos.

A sabedoria pede que ele compreenda uma coisa difícil: o gesto vale por si, mesmo quando o prêmio não dura. O herói maduro age sabendo que pode perder tudo o que conquistou, e mesmo assim escolhe agir.

Talvez seja a lição mais custosa, para a escrita e para a vida. Fazer o que é seu fazer com a mão aberta, sem prender o resultado.

Quando o herói aprende com o sábio

O herói jovem age no rompante, susto ou na inexperiência. Bate primeiro e pensa depois, e às vezes destrói justamente o que queria salvar.

Com o tempo, os melhores heróis pedem algo emprestado ao sábio ou para o mago. Aprendem a esperar o momento certo, a escutar antes de partir para a ação, a distinguir a batalha que importa daquela que só alimenta o próprio apetite por batalha.

A coragem continua inteira. Ganha mira, ganha paciência, ganha discernimento.

Será que você conhece alguém com este arquétipo?

Pense nas pessoas ao seu redor.

A mulher que sustenta a família inteira e faz questão de nunca pedir ajuda. O homem que só respira quando tem uma causa para defender. Quem guarda a história da própria gente enquanto os outros esquecem. Quem saiu do fundo do poço e agora estende a mão para quem ficou lá.

Talvez seja alguém muito próximo. Talvez, em certos dias, seja você.

Reconhecer o herói na vida real é o começo de escrevê-lo com verdade no papel. Às vezes, é também o começo de lembrar a ele que merece descanso.

Para a escrita: como criar um herói vivo

Um herói de papelão é corajoso e pronto. Ele age porque a trama mandou, e o leitor não sente nada por ele.

Um herói vivo carrega uma mentira que conta a si mesmo. Algo como "só valho pelo que faço pelos outros", ou "se eu parar, tudo desaba". Essa mentira funciona como o motor secreto da personagem, e é ela que prende o leitor.

Quando for criar a sua heroína, procure primeiro a mentira que a sustenta e o medo que a move. A coragem dela vem depois, como consequência. O que emociona o leitor é ver essa mulher lutar contra uma verdade sobre si mesma que ela ainda não consegue encarar.

Sete exercícios para escritores

1. A mentira fundadora. Escreva numa única frase a mentira que sua personagem conta a si mesma sobre o próprio valor. Em seguida, construa uma cena curta em que a realidade contraria essa mentira de frente, e observe como ela reage à ameaça. Evite deixá-la perceber a mentira cedo demais, porque é a cegueira dela que gera o drama.

2. O peso escolhido. Coloque sua heroína diante de um fardo que ela poderia recusar sem culpa, e faça-a assumir mesmo assim. Não explique o motivo com um discurso; deixe a escolha aparecer no gesto, no corpo, no silêncio. O leitor precisa sentir o peso antes de entendê-lo.

3. O tesouro de pó. Dê à personagem uma vitória importante e, logo depois, faça essa vitória se desmanchar. Escreva a manhã seguinte à perda. O que ela faz ao descobrir que lutou por algo que não durou revela o caráter dela com mais verdade do que a própria vitória.

4. Quem segura o chão. Reescreva a cena mais heroica da sua personagem pelos olhos de quem ficou na retaguarda, sustentando a vida comum enquanto ela brilhava. Pergunte o que essa testemunha viu e a heroína não foi capaz de ver. Guarde esse ponto de vista, mesmo que ele não entre no texto final.

5. O não que custa caro. Faça sua personagem dizer não a algo que a maioria aceitaria, e cobre desse não um preço concreto: perda de emprego, de afeto, de reputação. Repare se, lá no fundo, esse não vem de um princípio ou de um medo disfarçado de princípio. As duas respostas rendem, desde que você saiba qual é a verdadeira.

6. O herói que precisa se curar. Escreva uma cena em que sua heroína, sempre a que cuida dos outros, é obrigada a receber cuidado. Repare no desconforto dela ao ficar do lado frágil da relação. Esse instante, em que ela se vê amparada e não amparando, costuma guardar a parte mais humana da personagem.

7. O herói e o sábio. Pegue uma decisão impulsiva que sua personagem tomaria no início da história e imagine como ela decidiria a mesma coisa depois de amadurecer. Escreva as duas versões da cena, a do impulso e a do discernimento. A distância entre elas é, em poucas linhas, o amadurecimento inteiro do seu herói.

8. Quer conhecer o contraste? Veja aqui:

Antagonistas e Anti-Heróis: Como Construir Ambivalência Sem Confundir o Leitor


O herói inteiro

Amamos o herói pela luz e esquecemos o preço que ele paga por ela. É por isso que tantos heróis de ficção soam falsos: mostram a coragem e escondem o quanto tiveram que abrir mão, os desgastes psicológicos, perdas... 

Escrever um herói ou uma heroína por inteiro significa deixar conviver, na mesma pessoa, a coragem e a teimosia, o cuidado e o controle, o gesto nobre e o ângulo cego. É essa convivência que separa a estátua da criatura de carne e osso.

E talvez, ao escrever assim, você reconheça com mais ternura o herói que às vezes mora dentro de você, e aprenda enfim a lhe conceder o descanso que ele nunca se permite.

Se este texto ajudou você a olhar suas personagens com outros olhos, compartilhe com quem também escreve. E me conte nos comentários: qual figura da literatura ou na vida você sente que carrega esse arquétipo por inteiro, com sombra e tudo?




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