Os textos que abrem um livro têm nome, função e lugar próprios. Veja como diferenciar cada um.
Antes do primeiro capítulo, um livro pode ser apresentado por outra pessoa, pelo próprio autor ou por uma cena que antecipa a história. Cada um desses textos tem nome, função e lugar certos.
Antes do primeiro capítulo
Um autor me perguntou, há pouco tempo, se o texto que abria
o livro dele era um prefácio ou uma introdução. A dúvida é comum, e com razão:
muita gente usa esses nomes como se fossem sinônimos.
Não são. Cada texto de abertura responde a uma pergunta
diferente. Quem está falando do livro? Por que ele foi escrito? Do que ele
trata? Onde a história começa?
Abaixo, explico cada um de forma simples, com o que aprendi
em 26 anos de trabalho editorial e com o que dizem referências internacionais,
como o Chicago Manual of Style, usado por editoras de língua inglesa.
Os textos de abertura, um a um
Prefácio
No mercado editorial brasileiro, o prefácio costuma ser
escrito por outra pessoa, alguém com autoridade no tema ou admiração pela obra.
Ele comenta o livro, situa sua importância e, de certa forma, o recomenda ao
leitor. Por isso é assinado.
Vale saber que o inglês separa duas coisas que nós
costumamos juntar. Lá, o texto escrito por outra pessoa se chama foreword,
e o texto do próprio autor sobre como e por que escreveu o livro se chama preface.
No espanhol, além do sentido narrativo, prólogo
costuma nomear justamente o texto escrito por outra pessoa, o prologuista,
e corresponde ao nosso prefácio. Quando é o próprio autor quem escreve, o texto
pode se chamar advertencia del autor. Quem traduz do inglês ou do
espanhol precisa ficar atento a essas diferenças.
Apresentação
A apresentação mostra ao leitor o que ele tem nas mãos: a
proposta do livro, o público a que se destina, a forma como foi organizado.
Pode ser escrita pelo autor, pelo editor ou pela editora. É mais objetiva que o
prefácio e fala menos de quem escreveu e mais do que foi escrito.
Nota do autor
Quando o autor quer falar diretamente com o leitor antes de
tudo, contar como o livro nasceu, explicar uma escolha ou fazer um alerta, o
espaço é a nota do autor (também chamada de palavras do autor). O Chicago
Manual of Style a trata como alternativa ao prefácio escrito pelo próprio
autor.
Existem ainda a nota do editor, a nota da edição e a nota do
tradutor, cada uma com o mesmo princípio: quem assina explica algo que o leitor
precisa saber antes de começar.
Justificativa
A justificativa é típica de trabalhos acadêmicos e de livros
que nascem deles. Responde a uma pergunta só: por que este tema merece ser
estudado? Apresenta a relevância do assunto, a lacuna que o trabalho pretende
preencher e sua contribuição. Em livros para o público geral, quase sempre se
dissolve na introdução.
Introdução
A introdução já é parte do livro. Ela apresenta o tema,
delimita o assunto e mostra o caminho que o leitor vai percorrer, capítulo por
capítulo. Por isso, nas edições mais cuidadosas, recebe numeração arábica, como
o restante do texto, enquanto os elementos que vêm antes dela costumam ser
paginados em algarismos romanos.
O Chicago Manual of Style faz uma observação útil: o
prefácio não é uma introdução. Um fala sobre o livro, a outra começa o livro.
Prólogo
O prólogo pertence à narrativa e aparece sobretudo na
ficção. Pode ser uma cena do passado, um acontecimento que só fará sentido mais
adiante ou a voz de um personagem antes da história começar.
Uma regra prática ajuda a reconhecê-lo: se o texto poderia
aparecer como cena ou capítulo dentro do próprio livro, é prólogo. Se não
poderia, é outra coisa.
Outros elementos que abrem um livro
Dedicatória. Uma linha ou duas para alguém a quem o
autor oferece a obra.
Epígrafe. Uma citação escolhida pelo autor para
anunciar o espírito do livro. Pode abrir a obra inteira ou cada capítulo.
Agradecimentos. Podem vir no início ou no fim. Em
muitos livros de ficção, têm migrado para as últimas páginas.
Palavras sobre o livro. Trechos de comentários de
leitores, críticos ou especialistas, comuns nas primeiras páginas de livros
estrangeiros. Em romances de língua inglesa, muitas vezes ocupam o lugar que
seria do prefácio.
Falsa folha de rosto. A página que traz apenas o
título, antes da folha de rosto completa.
Advertência, preâmbulo e prolegômenos. Nomes mais
antigos que o francês também usa (avertissement, préambule, prolégomènes)
para textos de abertura. A advertência e o preâmbulo costumam ser curtos; os
prolegômenos, longos e de caráter teórico.
Prolegômenos (do grego prolegómena, "coisas ditas antes" ou "preliminares") designam uma introdução ou exposição preliminar que apresenta os princípios, as regras e os conceitos fundamentais de uma ciência, doutrina, livro ou disciplina.
Avant-propos. No francês, é um texto curto em que o
próprio autor expõe suas intenções, e não dispensa necessariamente a
introdução. Em português, o equivalente mais próximo é a nossa apresentação ou nota do
autor.
Em que ordem eles aparecem
Nenhum livro precisa ter todos esses elementos. Quando
aparecem juntos, a ordem recomendada pelo Chicago Manual of Style é
esta:
1.
Falsa folha de rosto
2.
Folha de rosto
3.
Página de créditos
4.
Dedicatória
5.
Epígrafe
6.
Sumário
7.
Prefácio escrito por outra pessoa
8.
Prefácio ou nota do autor
9. Agradecimentos
10. Introdução
11.
Prólogo
Nas editoras brasileiras há variações, e cada casa tem suas
preferências. O princípio, porém, se mantém: quem fala do livro vem antes de
quem o escreveu, e a introdução e o prólogo ficam colados ao primeiro capítulo.
Resumo rápido
|
Texto |
Quem
escreve |
Para
quê |
Onde
aparece |
|
Prefácio |
Em geral, outra pessoa |
Comentar e recomendar a obra |
Antes do texto do autor |
|
Apresentação |
Autor, editor ou editora |
Mostrar a proposta e a organização do livro |
Antes da introdução |
|
Nota do autor |
Autor |
Falar diretamente com o leitor |
Antes da introdução |
|
Justificativa |
Autor |
Mostrar a relevância do tema |
Trabalhos acadêmicos ou dentro da introdução |
|
Introdução |
Autor |
Apresentar o tema e o percurso do livro |
Início do corpo do texto |
|
Prólogo |
Autor, na voz da narrativa |
Abrir a história com uma cena ou um fato |
Logo antes do primeiro capítulo |
Na dúvida, pergunte ao texto quem está falando e sobre o
quê. A resposta costuma revelar o nome certo.
Os livros se apresentam como nós
Há algo de muito humano nesses textos de abertura. Quando
chegamos a alguém ou a uma instituição pela primeira vez, percorremos um
caminho parecido com o de um livro até o primeiro capítulo.
Às vezes, outra pessoa fala de nós antes que a gente diga
uma palavra. É o amigo que nos indica para um trabalho, a carta de
recomendação, o "pode confiar, eu conheço". Esse é o nosso prefácio,
e quem o assina empresta um pouco do próprio nome para nos abrir uma porta.
Outras vezes, somos nós que estendemos a mão: dizemos o
nome, o que fazemos, de onde viemos. É a nossa apresentação. Quando o
tom fica mais íntimo e contamos o que nos trouxe até ali, ela vira nota do
autor.
Numa entrevista de emprego, explicamos por que merecemos a
vaga. Sem perceber, escrevemos ali uma justificativa.
Depois, a conversa começa de fato, e anunciamos o assunto:
"vim falar sobre…". É a introdução.
E existe aquela história que contamos logo no primeiro
encontro, um episódio peculiar da nossa vida que fica na memória de quem ouviu.
Anos depois, é por ela que somos lembrados: "ah, você é aquela que…".
Esse é o nosso prólogo.
Temos ainda uma frase que nos resume, escolhida para a
biografia de uma rede social ou repetida como lema: a nossa epígrafe.
Pensamos em quem nos inspirou a estar ali, como numa dedicatória. E,
quando tudo dá certo, lembramos de quem nos trouxe até aquele momento, como nos
agradecimentos.
Claro que há quem exagere. Todo mundo conhece alguém que
abre a conversa com uma advertência ("olha, eu sou muito sincero,
já vou avisando"), segue com um preâmbulo sobre o trânsito, o calor
e a semana difícil e, quando parece que enfim vai chegar ao assunto, engata uns
prolegômenos sobre a própria infância. Meia hora depois, ainda não
passamos do sumário.
Com os livros acontece o mesmo. Abertura demais cansa o
leitor antes da primeira página, e abertura nenhuma pode deixá-lo sem chão. Nos
livros e na vida, a arte está em saber quem deve falar primeiro, o que precisa
ser dito antes e a hora de, finalmente, começar o capítulo um.
Para saber mais (em inglês, francês e espanhol)
• The
difference between a preface, foreword, and introduction, de Pat McNees,
com base no Chicago Manual of Style (inglês)
• Understanding
the basic sections of a book, da editora Greenleaf Book Group (inglês)
• Présentation
et mise en page de l'avant-propos et de la préface, do Office québécois de
la langue française (francês)
• Antes
de empezar un libro. El prólogo, do portal literário Lecturalia (espanhol)
• Prólogo, da
Enciclopedia Concepto (espanhol)
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